Hajj: a vivência de um legado
- Manie

- 19 de jul. de 2020
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Por Manie El Khal, 19 de Julho para o blog Hijab • Se

Todo mundo já ouviu falar sobre o Hajj naquela aula de história do Ensino Fundamental e Médio, não é mesmo? Sem detalhes, o professor conta rapidinho que é aquela visita a Meca que todo muçulmano deve realizar ao menos uma vez na vida quando se tem condições físicas e financeiras para isso. Sim, de fato. Mas o que mais? Aprendemos como muçulmanos um pouco mais sobre o assunto, por ser um dos pilares sob os quais se fundamenta a religião, porém, muito se perde nas entrelinhas se não buscarmos além. Às vezes, por não termos as condições financeiras para realizar o Hajj ainda, não nos aprofundamos no assunto, mas garanto que é um assunto de imensa relevância e sua compreensão é essencial — e revolucionária, diga-se de passagem! —. Os dez dias em que acontece o Hajj são de imensa virtude, similares às últimas dez noites do mês de Ramadan. Tendo isso em vista, trouxemos um pouquinho sobre a história do Hajj e algumas informações sobre esse período para que possamos juntas(os) aproveitar ao máximo e garantir belas recompensas nos próximos dias (entre o dia 22 e 30 de Julho, como veremos com mais detalhes abaixo). Se liga! ♥
Abrãao: o amigo de Deus
Tudo começa com o Profeta Abraão (que a paz de Deus esteja sobre ele) e logo entenderemos por quê. Abrãao cresceu em uma nação que vivia fortemente a idolatria - na qual, inclusive, seu pai confeccionava ídolos —. Desde sua juventude Abrãao questionou tais práticas, buscando sempre o caminho do Monoteísmo. Foi expulso de casa pelo pai, perseguido e jogado vivo no fogo por conta disso — mas foi salvo por Deus em todas as tribulações que o afligiram —. Escolhido como Profeta e Mensageiro — sendo um dos mais importantes de toda a história da humanidade — desenvolveu seu relacionamento com Deus fundamentado sobre a constante e total confiança e submissão a Ele. Na vida adulta, permanecia enfrentando testes, sempre pacientando e demonstrando satisfação com os planos divinos. Por essa virtude, Deus o reconhecia como " o amigo de Deus", aquele que vivia sempre próximo a Ele.
Sua esposa, Ágar, era estéril. Chegaram à idade avançada e sentiam a solidão de não se ter um filho, então Ágar sugeriu a Abrãao que se casasse com Sarah. Quando o fez, teve seu primeiro filho, Ismael, a quem Deus menciona ter sido uma paciente criança. Mais tarde, Ágar e Abrãao foram também finalmente agraciados com um filho: Isaac.
Quando o primogênito Ismael chegou à adolescência, Abrãao teve um sonho em que via que o sacrificava. Acordou então assustado - pois os sonhos dos Profetas eram também uma Revelação -. Ao acordar, logo contou ao filho, buscando saber o que ele pensava sobre. Ismael o respondeu então: “Ó meu pai! Faça o que lhe for ordenado, se Deus quiser, você me encontrará dentre os pacientes." [Alcorão, 37 :102]. Que teste, não é? Após uma vida com a frustração de não poder ter um filho, ao ser abençoado com um teve que dar aquilo que mais amava em sacrifício. É interessante notar também a postura do filho, que ainda em uma idade tão terna — o que os sábios consideram ser cerca de 13 anos de idade — já possuía em si também o princípio de se submeter a Deus como primordial, mesmo que isso significasse dar a própria vida.
Mas não acaba assim, existe um final feliz para essa história — e para aqueles que confiam em Deus —: Ismael foi salvo e em seu lugar foi-se colocado outro sacrifício. Era apenas um teste em que ambos foram bem-aventurados.
"Então, quando ambos se submeteram e ele o colocou prostrado na terra, o chamamos: 'Ó Abrãao, confirmaste o sonho!' Em verdade, assim recompensamos os que praticam o bem. Em verdade, essa foi uma prova evidente e o resgatamos com um grandioso sacrifício..."
Alcorão [37: 101-107]
Legado abraâmico
Na história de Abrãao (que a paz de Deus esteja sobre ele) existem diversos outros acontecimentos que se conectam com o Hajj — inclusive, cada um dos ritos desse processo faz uma conexão clara e direta com algum desses acontecimentos —. A proximidade do legado abraâmico ao Islam se estende para além desse assunto, envolvendo cada parte dele.
Uma vez, anos mais tarde, Deus pediu a Abrãao que construísse um local de adoração alinhado com uma casa do Paraíso e pediu que o purificasse para os monoteístas — que na época, se limitavam a apenas a família de Abrãao, mas que eles tinham certeza de que completaria seu propósito no futuro, sendo um local para todos os monoteístas —. Ele construiu a Caaba (Cubo) junto a Ismael, e ao levantarem os alicerces da Casa suplicou pela aceitação da obra, pediu a Deus que os estabelecesse como muçulmanos e fizesse de sua descendência uma comunidade muçulmana também. Ao final da prece, ele pediu para que dessa descendência viesse um Mensageiro vindo do próprio povo, que recitasse Sua mensagem, ensinasse o Livro e a sabedoria e os purificasse. Esse Mensageiro, foi ninguém menos que o Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja sobre ele), descendente de Abrãao através da linhagem de Ismael.
O Islam como conhecemos hoje é a realização da súplica de Abrãao ao construir a Caaba. O próprio Hajj é uma comemoração do sucesso consequente dos sacrifícios feitos por ele pela causa de seu Criador. Se olharmos para a vida do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), tudo faz o mais perfeito sentido, pois enquanto Abrãao criava um local para a adoração de Deus unicamente em um contexto predominantemente politeísta, essas práticas permaneceram e tomaram conta inclusive da própria Caaba mais tarde, ao ponto de que eram deixados os ídolos para adoração nesse local e levadas oferendas até lá. Existia uma espécie de "Hajj" para visitação dos vários ídolos. Com o Profeta Muhammad, sua missão foi purificar a casa de Deus mais uma vez, libertando a Caaba dos ídolos para que apenas Deus pudesse ser adorado — que era o objetivo da própria construção —.
Por muito tempo durante a Revelação do Alcorão as orações foram direcionadas à Mesquita de Aqsa, em Jerusalém. A conexão que o Profeta Muhammad tinha com a Caaba era tão grande, que mais tarde Deus o agraciou com a mudança da direção, tornando a Caaba a nova Diretriz para as orações. Esse acontecimento teve uma enorme repercussão entre os opositores da fé, pois a mudança da Qibla (direcionamento) tem fundamentalmente a ver com a identidade islâmica e o reconhecimento dela como Nação. Isso também significa que somos uma continuação do legado que Abrãao estabeleceu e até hoje realiza-se através de nós a súplica que ele fez.
Unicidade Divina e União humana
“E quando indicamos a Abraão o lugar da Casa, dizendo ‘Nada associes a Mim, e purifica Minha Casa para os que a circundam e para os que nela se põem de pé, se curvam e se prostram em adoração. E proclama a Peregrinação entre a humanidade: Eles virão a pé ou montados em camelo emagrecido pela longa viagem, vindos de desfiladeiros distantes."
Alcorão [22:26-27]
Isso foi dito a Abrãao, e hoje nós completamos essa promessa. Todos os anos, quando os muçulmanos vão ao Hajj, estamos revivendo a vitória e o cumprimento da missão de ambos, o Profeta Muhammad e Abrãao (que a paz de Deus esteja sobre eles). Em todo ritual realizado, somos lembrados da conexão entre eles e de toda história de sacrifício e dedicação que viveram para preservar e estabelecer a Mensagem. Nesse lugar e jornada Sagrados, podemos sentir como se estivéssemos vivendo esses tempos com eles e como uma comunidade isso rejuvenesce o senso de compromisso que mantemos como nação para continuar completando essa missão, levando essa Mensagem para o resto da humanidade.
Como indivíduos, essa experiência tem um significado ainda mais profundo, tendo em vista essa vivência espiritual coletiva, além das virtudes e significados de cada um dos passos do Hajj. No Hajj testemunhamos a união de milhões de pessoas das mais diferentes etnias, nacionalidades, cores, línguas, gerações e histórias em um mesmo local — árido, desértico e sem vida, o que lembra o dia em que seremos congregados diante de Deus: o dia do Juízo — vestindo os trajes mais simples remetendo também ao pano branco com o qual se envolve um muçulmano após a morte — a única coisa a acompanhar-nos no túmulo além das ações —. Isso evidencia e desperta em nós o senso de igualdade e união independentemente de qualquer aspecto mundano ou diferença racial, de gênero, status, classe ou afins, porque diante de Deus somos todos iguais.
Todos se envolvem com humildade vestidos exatamente da mesma forma, e seguimos dessa forma vivendo essa experiência em introspecção, recordando a Deus, refletindo sobre a bagagem que levaremos conosco e o dia em que seremos congregados diante do Criador com nada além dela. Completa-se cada passo lembrando dos sacrifícios feitos pelos Mensageiros para que ela pudesse chegar até nós a nossa responsabilidade de passá-la adiante da melhor forma. Caminhamos, oramos, suplicamos e enquanto isso ponderamos sobre os nossos próprios sacrifícios. Os Mensageiros enfrentaram provações quanto àquilo que mais amavam e ao se submeterem totalmente e sem qualquer receio ao que Deus os pedia, Ele logo os concedia o refúgio, a virtude e a vitória em todos os aspectos. Esse é o momento de entender os nossos testes e nos recordar com esses exemplos sobre a única forma de sairmos bem aventurados das provações: nos submetendo a Ele. Clamando por Ele e aceitando o Socorro que nos alcança tão prontamente.
Os últimos passos se dão no Monte Arafah, até onde os peregrinos caminham sob altas temperaturas e o Sol desértico logo após a primeira oração do dia — o Fajr, ou oração da Alvorada —, onde permanecem até o pôr do Sol. Uma jornada e tanto né? Porém jamais ouvi qualquer peregrino se queixar, muito pelo contrário: se tem o sentimento imensurável de gratidão por ter-se tido a oportunidade de se viver essa experiência emocionante e sem igual. E essa jornada não é feliz só para quem embarca nela, mas também para Aquele que recebe as "embarcações". Durante todo o dia de Arafah — o último dia do Hajj —, Deus observa com apreço cada um dos peregrinos e os menciona aos anjos, atendendo às súplicas e estendendo Seu perdão e misericórdia. Como conta o Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja sobre ele) :
"Neste dia, Allah, o Altíssimo, desce ao céu mais próximo e se orgulha de Seus servos na terra, dizendo aos que estão nos céus — os anjos —: olhem para os Meus servos, eles vieram de longe e de perto, com os cabelos desgrenhados e rostos cobertos de poeira somente para buscar minha misericórdia. Mesmo que seus pecados sejam numerosos como a areia e quanto a espuma do mar, Eu os perdoarei." Arrepiaram? Eu também! Risos. Sabe a melhor parte? Vamos lá:
"Minha misericórdia abrange todas as coisas.”
Alcorão [07:156]
Hajj em casa
Mais uma coisa fortemente afetada pela pandemia do COVID-19: a possibilidade de performance do Hajj. Anualmente, são mais de 2,5 milhões de pessoas do mundo inteiro performando o rito. Este ano, além de seguir um protocolo rígido de cuidados com saúde e higiene nesse processo, no Hajj serão permitidos apenas cerca de mil peregrinos — sortudos! — residentes na Arábia Saudita. Acontece que em outros anos, mesmo com a peregrinação normal, somos bilhões em casa refletindo sobre e com aquela vontade imensa de correr para o Hajj — nem que seja a pé! —, não é mesmo? Muitos de nós só consegue ir com a idade avançada e outros nem mesmo tem essa possibilidade, porém, fato é que Deus busca nos recompensar por cada esforço em sua causa, independentemente dos resultados, nos explicitando isso no Capítulo que aborda exatamente esse assunto:
"E se esforcei pela causa de Deus como Ele merece; Ele vos elegeu e não vos impôs dificuldade alguma na religião, porque é o credo de vosso pai, Abraão. Ele vos denominou muçulmanos antes deste e neste (Alcorão), para que o Mensageiro seja testemunha sobre vós, e para que sejais testemunhas sobre os humanos. Observai, pois, a oração, pagai o Zakat e apegai-vos a Deus, Que é vosso Protetor. E que excelente Protetor! E que excelente Socorredor!"
Alcorão - Al Hajj [22:78] Se nós não vamos ao Hajj ele vem até nós. Simples assim. A Misericórdia divina alcança todas as coisas e cada um de nós é parte disso. Se não podemos fazer a peregrinação em si, a intenção é valorizada e nos é dada a recompensa da mesma forma que é dada aos peregrinos. Para quem fica em casa, pode-se aproveitar os dias desse período — 22 a 30 de Julho — e jejuar, refletindo sobre o significado de todas essas lições e intensificando as súplicas. Caso por alguma razão não seja possível, nos esforcemos para jejuar ao menos no dia de Arafah (30 de Julho) e fazer muitas súplicas, para que sejamos envolvidos pela Misericórdia e a Satisfação de Deus com Seus fiéis nesse dia — quem jejua esse dia com tal intenção, tem os pecados do ano anterior e seguinte perdoados —. Não vamos perder essa oportunidade, hein? Aquele Save The Date de qualidade. O Eid (nesse caso, a celebração pós Hajj) acontece no dia 31 de Julho. Por conta do isolamento social, não vamos às Mesquitas para a oração, porém, ainda se pode e deve fazê-la e comemorar em casa. Além disso, consulte sua respectiva Mesquita ou comunidade sobre o abate Halal a ser realizado após a oração do Eid — caso tenha condições, remetendo esse ato à submissão de Abrãao e Ismael e a salvação dos mesmos com o sacrifício grandioso — e atente-se à distribuição dessa carne — um terço para si, um terço para família/ amigos e um terço para uma família necessitada —. Depois disso, é celebrar! Celebrar a completude da fé, a renovação do nosso compromisso com ela, o Perdão e bênçãos Divinas e se Deus quiser, a possibilidade de realizarmos em breve pessoalmente essa experiência surreal e transformadora que é o Hajj, completando nossa religião. Você já sabia disso? Compartilhe essa informação com suas amigas(os) ou familiares muçulmanos para que possam se beneficiar de todas as virtudes desse período que começa já já! Lembrando que aquele que direciona alguém a uma boa ação recebe a recompensa equivalente dela também! :)
Desde já, feliz Hajj e um amistoso Eid Mubarak!!! ♥

Manie El Khal é Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e Colunista Oficial da Hijab•Se. Mineira e descendente de marroquinos, atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.
Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.
Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah




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