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#BlackLivesMatter: uma luta de todos nós

  • Foto do escritor: Manie
    Manie
  • 8 de jun. de 2020
  • 8 min de leitura

Por Manie El Khal, 8 de Junho para o blog Hijab • Se

O racismo consiste na crença de que determinada raça é superior ou inferior a outra, tal como a ideia de que os traços sociais e morais de uma pessoa são predeterminados por suas características biológicas inatas, além da convicção de que diferentes raças devem permanecer segregadas e separadas umas das outras. Esclarecemos já de cara: tais atitudes baseadas em ideais de arrogância e supremacia ou detrimento racial são abertamente, largamente e ativamente condenadas pelo Islam, em qualquer uma de suas faces.


Essa problemática tem levado brutalmente diversas vidas com frieza, tornando as vidas poupadas em um cenário aterrorizante desde o nascimento, em diversas sociedades. Pessoas pretas estão exaustas de perder os seus para esse sistema corrupto e todos nós estamos cansados de assistir isso acontecer de novo e de novo, todos os dias, incessantemente. Como no caso George Floyd e mais alguns milhares por ano no Brasil e no mundo, recorrentes por centenas de anos, a cor da pele é o motivo e a causa da violência e do ceifar de vidas e isso tem gerado uma onda de protestos e repercussões significativas no mundo inteiro.

Estamos falando do racismo mais potente e desenvolvido, o racismo estrutural, sempre direcionado aos pretos e que transpassa todas as relações sociais estando relacionado desde o subconsciente até a materialidade palpável e tangível – quando vemos pessoas pretas morrendo sufocadas ou baleadas pelo sistema ou por civis que enxergam nelas perigo e violência baseando-se de maneira ignorante na cor de suas peles para essa ação –. De onde vem esses preceitos tão sombrios? Como se sustenta essa injustiça em pleno século XXI, após tantas tentativas de erradicá-la? Vamos entender um pouquinho de tudo isso.


Panorama geral sobre a história do racismo

Historicamente o mundo tenta lidar com o racismo há muito tempo, desde a escravidão nas plantations plantações de algodão, principal atividade escravagista dos EUA, e do café e da cana no Brasil , até Malcolm X e Luther King na luta pelos direitos civis, assim como os não menos importantes Luiz Gama – abolicionista filho de Luiza Mahin, escravizada e participante das revoltas na Bahia – e André Rebouças, intelectuais pretos livres que lutaram pela abolição do modo de produção escravo no Brasil. Até os dias de hoje, pretos e não pretos antirracistas pelo mundo tentam desconstruir essa estrutura e construir uma sociedade igualitária e livre para todos.


Nesse paralelo entre os EUA x e o Brasil o racismo se estruturou de maneiras diferentes, porém com um fator em comum: a escravidão dos africanos. No Brasil, sabemos que essa foi a primeira e principal fonte de riquezas da coroa portuguesa e sua colonização e que também fomos o último país a abolir a escravidão, em 1888 – o que mostra nitidamente o tamanho do nosso problema –. A questão racial no Brasil começa antes da abolição e ganha a forma que conhecemos logo no início da liberdade dos pretos. No final da escravidão os pretos foram lançados à sorte pelos seus patrões, que a essa altura já estavam contratando mão de obra vinda da Europa, migração claramente incentivada para que esses imigrantes tomassem os postos de trabalhos no Brasil, já que para esses patrões, era vergonhoso e inaceitável pagar pelo trabalho dos antes escravizados, tidos como “coisa” e propriedade.


Soma-se a esse período histórico o início da era industrial e dos ideais da Revolução Francesa de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” que não compactuava com a escravidão, já que para esse modelo econômico é indispensável a mão de obra assalariada e livre para troca (salário x mão de obra) com os donos de fábricas e outros trabalhos. O resultado disso é a migração de pretos para os morros, o que dará início às primeiras favelas do Brasil, principalmente no Rio de Janeiro com os cortiços e São Paulo. Sem emprego, moradia, oportunidades e comida e após tantos anos de escravidão, o preconceito racial se fez pulsante, o que dificulta até os dias de hoje a sobrevivência dessa população. Para se ter uma ideia, 132 anos mais tarde ainda combatemos isso, quem dirá nos primeiros anos após a abolição da condição de 'escravos' desses indivíduos. Por essas condições, muitos acabaram por cair na clandestinidade, na prática de pequenos delitos e no trabalho informal que por muitas vezes era criminalizado , não diferente nos dias de hoje.


O racismo na atualidade

Não é possível contar a história do Brasil sem relacioná-la às suas raízes racistas e é notável que esses temas caminham juntos até a atualidade. O maior reflexo de toda a história da escravidão até hoje é o cárcere e o genocídio que a população sofre cotidianamente. Não diferente dos dias em que a Ku-Klux-Klan americana aterrorizava bairros pretos, assassinando, espancando e até mesmo explodindo bombas em comunidades pretas. O medo ainda é parte do cotidiano dos pretos no Brasil e no mundo. O temor é pela morte nas mãos da polícia – o que ocorre ilegitimamente e muitas vezes dentro de suas próprias casas, sem qualquer motivo – e também pelo cárcere – dado injustamente com frequência, o que ocorre de maneira tendenciosa, já que por inúmeras vezes o estigma do “preto bandido” os joga nas cadeias aos montes, com ou sem culpa ou julgamento.


Fato é, a cor da pele os condena antes mesmo que venham a cometer um crime – isso, quando cometem –. Temos os mais variados exemplos de pretos que vão presos sem qualquer prova que os incrimine, pelo contrário, muitas vezes mesmo diante todas as possíveis comprovações de sua inocência. Por outro lado, dados oficiais revelam que brancos lideram os rankings de homicídio e crimes no geral, porém, os vemos sendo absolvidos ilesos e com tratamento especial na maior parte das vezes. Conseguem notar como o racismo que opera no subconsciente afeta fisicamente a vida dos pretos do Brasil na atualidade? Como toda a escravidão e seu fim desorganizado e despreocupado com as vidas pretas afetam essa população até os dias atuais? Como o sistema se move em função de favorecer os brancos e a manter a figura do negro sempre associada ao banditismo, violência, miséria em todos os seus aspectos, como trapaça e preguiça, entre tantos outros estereótipos negativos fruto dessa marginalização e da moldagem da sociedade dentro dessa visão.


Estes são apenas alguns dos reflexos palpáveis. Indo além podemos identificar o racismo em tudo, pois por tratar-se de um problema estrutural, o mesmo abraça a sociabilidade de forma tóxica, contaminando todas as nossas relações. Pretas(os) não tem a mesma chance no mercado de trabalho e percebemos isso ao observar: quantos gerentes, médicos, advogados, juízes, professores e estudantes de boas instituições conhecemos? Quantos cargos altos permitimos que sejam ocupados por pessoas pretas? Isso não se dá pela tão falada meritocracia e sim pela escassez de oportunidades voltadas a esse público, tal como a seleção injusta. Por outro lado, ao colocarmos na balança o número de pretos encarcerados, assassinados brutalmente, crescidos em realidades duras como órfãos, sem estudo e com a necessidade de se submeterem ao trabalho infantil em troca de alimento básico, a conta simplesmente não fecha. É por trás dessa e de outras questões óbvias que se esconde o racismo, simultaneamente escancarando sua face aos olhos que não querem ver.


Igualdade e Justiça Social no Islam

E entre os Seus sinais está a criação dos céus e da terra e a diversidade de suas línguas e cores. Por certo, isso é realmente um sinal para aqueles que tem consciência.

(Alcorão, 30:22)


Percebemos que nenhuma palavra equivalente a “raça” é usada nesta ou em qualquer outra passagem do Alcorão. O Islam, no entanto, reconhece a diversidade e as define como verdadeiros Sinais de Deus a nós. Assim, Ele estabelece o objetivo dessas distinções à diferenciação e ao conhecimento mútuo, onde a união delas gera apreciação por ambas e o enriquecimento e desenvolvimento cultural consequente de suas combinações.


Mais uma vez podemos nos orgulhar da postura do Islam frente a algo tão importante. Desde o início de sua fundação, o Islam vem batendo na tecla da igualdade, do bem comum, da garantia de direitos a todos e da justiça social. Essa igualdade inclui o aspecto racial e isso é dado de forma clara diretamente na fala de Deus – no Alcorão Sagrado –, no discurso e postura do profeta Muhammad – que a paz de Deus esteja sobre ele –, assim como na prática e exemplo dessa vivência durante sua vida e de seus companheiros. Se existe algum momento na história em que conseguimos nos alegrar com o fato de que o racismo foi transcendido e esse legado foi duradouro, certamente esse momento se deu durante – e através – da vida do Profeta (que a paz de Deus esteja sobre ele), com a prática coerente de seu discurso antirracista e sua luta efetiva pela libertação dos pretos escravizados em seus meios.


Ó povo, vosso Senhor é Único e vosso pai, Adão, é um. Não há nenhuma vantagem de um árabe sobre um estrangeiro, nem um estrangeiro sobre um árabe, nem da pele branca sobre a pele negra, nem da pele negra sobre a pele branca, exceto pela virtude de ações. Acaso não vos entreguei a mensagem?

- Profeta Muhammad em seu último sermão de despedida (que a paz esteja com ele).


Essa postura firmemente antirracista e igualitária – entre tantas outras coisas – trouxe legiões de pessoas pretas ao Islam, inclusive de inocentes encarcerados ou pessoas marginalizadas em reabilitação. Um exemplo ilustre foi do próprio Malcolm X, martirizado na causa e que exerce até hoje uma função essencial na luta pela igualdade racial. Hoje, existem mais de 250 milhões de muçulmanos africanos e uma porcentagem significativa de muçulmanos americanos é de afro-americanos.


No Brasil, o Islam foi trazido através dos pretos escravizados da África, os Malês, que inclusive ficaram muito bem conhecidos por sua devoção à fé – apesar da repressão – e resistência à imposição cultural eurocêntrica, através das quais se rebelaram contra o sistema que os oprimia buscando liberdade – acontecimento conhecido como a revolta dos malês –. Não por coincidência relacionamos muçulmanos e a luta por justiça e liberdade com muita facilidade em nossa história, porque isso foi – e tem sido – aplicado na prática em diversos contextos.


Há quem diga que o Islam não se misture a política e não se posicione quanto aquilo que não o afeta ou inclui diretamente. Estão grandemente enganados. O Islam tem suas posições claras quanto a toda e qualquer coisa, seja ela histórica, social, econômica, científica e inclusive política. É necessário desenvolver um senso de responsabilidade universal, tais como uma profunda preocupação por todos, independentemente de credo, cor, gênero ou nacionalidade. Aprendemos que um princípio islâmico é essa ideia de responsabilidade universal, onde o bem coletivo é o que deve prevalecer, o que se resume no simples fato de que, em termos gerais, o bem estar dos outros deve ser igual ao nosso. Isso contradiz qualquer ideia de que um muçulmano deve ser omisso e se abster de se levantar por essas causas. Inclusive, Deus nos alerta sobre a gravidade do silêncio em situações de injustiça. Além do que, a partir disso entendemos que “todas as vidas importam” é um fato, mas elas não importam até que as vidas pretas sejam igualmente valorizadas e importantes.


Ó vós que credes, permanecei permanentemente firmes na justiça, testemunhas a Deus, ainda que contra si mesmos ou contra pais e parentes. Se alguém é rico ou pobre, Deus é mais digno de ambos. Portanto, não sigais a inclinação [pessoal], para que não sejais injustos. E se distorceres [seu testemunho] ou se recusardes [a prestá-lo], então, de fato, Deus está sempre Ciente do que fazem.”

- Alcorão Sagrado (5:32)


Isso diz tudo, não é mesmo? Eu nem precisaria dizer mais nada.

Contudo, apesar de obviamente – e infelizmente – ser possível que existam exemplos e situações em que o tribalismo e o nacionalismo tenham resultado em um comportamento não-islâmico entre os muçulmanos, fato é que o Islam por si só e os muçulmanos como um todo jamais acataram ou adotaram ideologias baseadas em cor ou raça. Os ideais islâmicos seguem mais uma vez desafiando ideologias racistas, nos orientando a seguir o belo exemplo do Profeta, que a paz de Deus esteja sobre ele. Devemos então, reconhecer o male em nossa sociedade e tratá-lo como o Profeta o fez: com consistência, união e estratégia, reconhecendo também nosso papel fundamental em meio a isso, abraçando essa luta pela liberdade e valorização das vidas pretas como ela é: uma luta de todos nós.

Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.

Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.

Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah

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