#BlackLivesMatter: Além da Hashtag
- Manie

- 14 de jun. de 2020
- 11 min de leitura
Atualizado: 27 de jun. de 2024
Por Manie El Khal, 14 de Junho para o blog Hijab • Se

No último texto, falamos um pouco sobre o panorama histórico do racismo e como ele se estende à atualidade, além da clara oposição a isso pelo Islam através de seus princípios de igualdade e justiça social. Como o assunto é complexo e de grande relevância, não podíamos deixar de abordamos sobre a importância de figuras pretas na formação e desenvolvimento do Islam, tal como a desconstrução do racismo estrutural na qual a fé tem se engajado desde o início.
Fato é que vivemos em uma sociedade racializada, estruturada sobre a exploração dos pretos e o menosprezo quanto a suas vidas, cultura, contribuições... e por aí vai. Essa sociedade se baseia no corpo social em que predominam a desigualdade socioeconômica, a segregação residencial – com base nas diferenças raciais, consequentemente socioeconômicas – e nela, as baixíssimas taxas de casamentos entre os indivíduos diferentes são a norma, assim como a distinção racial na formação de grupos de relacionamentos. As sociedades construídas sobre o processo de racialização – que durante séculos incluiu a escravização de indivíduos pretos com seus efeitos nítidos até os dias de hoje – designa atribuições diferentes a indivíduos de diferentes grupos – considerando a linhagem racial – e dessa forma atribui privilégios ou inconveniências de um sobre o outro de acordo com tais características, no que inclui os aspectos políticos, econômicos, sociais e psicológicos.
Historicamente, isso deriva do processo de colonização, principalmente a partir do século XVI, com as “conquistas” repressivas na Ásia, África e América Latina por europeus ocidentais através de seus novos meios técnicos e militares, o que ocorreu com o intuito não só de adquirir mais terras, mas de extrair riquezas naturais e minerais dessas áreas utilizando o trabalho nativo. Mais tarde, com o trabalho escravo ou exploratório, houve a transferência desses trabalhadores para outros países, estabelecendo péssimas – e desumanas – condições de moradia e trabalho mesmo após a “abolição” da escravatura. A verdade é que nunca houve uma real abolição, a escravidão do povo preto apenas foi reformada e ressignificada ao passar dos séculos, perdurando até o momento em questão, o qual adoramos chamar de “pleno século XXI” ou “tempos modernos”. Modernos os tempos são, mas a nossa estrutura social é bem antiga, concreta e redundante.
O Islam na luta antiracista e anti práticas escravocratas
O Ocidente liderou as práticas escravocratas de pretos africanos com o tráfico transatlântico, contudo, isso chegou até o Oriente de forma similar. A escravidão era uma prática existente antes e durante o contexto geográfico e temporal da fundação do Islam – completamente proibida pela religião –, entretanto, o Profeta Muhammad (que a paz de Allah esteja sobre Ele) e os companheiros criaram estratégias para combatê-lo constantemente em seus meios de influência, indo sempre além na busca pela libertação dos escravizados, não só libertando inúmeros deles, mas também desposando mulheres escravizadas. Além disso, diferente do que aconteceu com a teórica “abolição da escravatura” no Ocidente – em que os recém “libertos” eram deixados à própria sorte em situações precárias e marginalizados mais uma vez como consequência –, o Profeta Muhammad e seus companheiros preservavam o zelo e respeito reais por indivíduos que consideravam seus irmãos na fé, garantindo a eles oportunidades iguais, o alimento e o sustento, sem qualquer preconceito pela cor de suas peles ou suas condições prévias, pelo contrário.
A maior prova disso e do conceito real de igualdade pregado e posto em prática pelo Islam desde sua fundação, ao meu ver, é a oração em congregação e o Hajj (peregrinação à Meca) – explícitos também de tantas outras formas –. Na oração, não iniciamos até que estejam todos juntos e alinhados: ombro no ombro, pé com pé, lado a lado. Não importa o status social ou econômico, o nome e a família, muito menos a cor da pele, todos devem estar posicionados em união – física e espiritualmente – para que a oração seja completa. Dentro da Mesquita, nenhum atributo de validação mundano importa, - e idealmente, fora dela também –.
Na peregrinação a Meca, a mesma coisa: com um fluxo de aproximadamente dois milhões de pessoas, tem-se pessoas do mundo inteiro, das mais diversas nacionalidades e culturas, de cores diversas, idiomas diferentes... cada um com sua própria história e circunstâncias. Porém, todos se vestem com uma peça de tecido sem costura, da forma mais simples que uma pessoa poderia se vestir, em humildade. Todos unidos pela fé em um mesmo propósito: completar um dos pilares da fé e adorar a Deus, realizando a oração em congregação várias vezes ao dia nas mesmas condições mencionadas: bem juntinhos. No Hajj vemos pessoas emocionadas, felizes, sorridentes, simpáticas e prestativas, mesmo que se comunicando em idiomas diferentes. Pessoas pretas, brancas, amarelas... Vemos pessoas em sua forma mais simples, humilde e humana possível: na posição de iguais, como somos realmente. É sobre essa estrutura que o Islam fundou sua comunidade e é nosso papel manter isso em dia, lutando para que prevaleça dessa forma em todas as questões na sociedade.
Ícones da negritude na construção do Islam
São inúmeros os exemplos de grandes muçulmanas e muçulmanos pretos com papéis essencialmente únicos e fundamentais para a solidificação da primeira e mias importante comunidade muçulmana. Citaremos aqui apenas alguns exemplos.
Sawda bint Zamʿa
Viúva e mais tarde esposa do Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja sobre ele). Aceitou o islamismo em uma época em que isso poderia significar tortura e até morte nas mãos dos coraixitas. Sawda, que era uma mulher alegre, carismática, extremamente generosa e caritativa, também era reconhecida por sua coragem, e não permitiu que o medo a impedisse de afirmar a verdade. Esteve também entre as primeiras pessoas a migrarem pela causa de Deus, deixando sua casa e tudo o que possuía para atravessar o deserto e o oceano em direção a uma terra distante conhecida apenas por seu nome – a Abissínia – para praticar sua fé em segurança.
Sumayyah bint Khayyat
Sumayyah foi uma mulher ilustre. Foi escravizada e mais tarde permaneceu sob os cuidados de Abu Hudhayfa, que a libertou junto a seu filho Ammar alguns anos depois. Sumayyah, mulher de muitas virtudes, também foi uma das primeiras pessoas a afirmarem sua fé publicamente, sendo de grande importância para a reversão de seu filho e seu esposo ao Islam. Por sua coragem, foi com sua família e a pequena comunidade muçulmana um dos primeiros alvos de perseguição ativa, assim como aqueles que não possuíam proteção tribal. Por essa vulnerabilidade após a morte de seu “patrono”, foram torturados para pressioná-los a abandonar sua fé e em uma ocasião, Sumayyah foi colocada de pé dentro de um reservatório de água para que ela não pudesse escapar. Ela, seu esposo Yasir e Ammar também foram forçados a ficar expostos ao sol no calor do dia vestidos com casacos de malha. Todos os três foram amarrados e espancados. Após sofrer uma série de agressões verbais, Sumayyah foi esfaqueada por Abu Jahl, um líder de Meca, quando se recusou a retratar sua fé. Isso fez dela a primeira mártir do Islam – e apesar de triste e revoltante a situação, sabemos que a recompensa pelo martírio é honrável, imensurável e desejada –. O Profeta Muhammad se preocupava muito com a perseguição aos muçulmanos, especialmente a família de Sumayyah, e tentava confortá-los dizendo "Paciência, família de Yasir, pois vocês estão destinados ao Paraíso". (Sahih al-Tirmidhi).
Embora Sumayyah não tenha vivido o suficiente para ver a comunidade muçulmana crescer, ela, assim como Sawda, é lembrada por sua força, coragem e fé em um período em que os muçulmanos foram fortemente perseguidos. Além de tudo, seu compromisso ativo com a fé serve como inspiração para mulheres muçulmanas que hoje em dia possuem dificuldades e repressão quanto à suas escolhas de pratica da fé. Sumayyah escolheu ser muçulmana e se opôs aos mecanos, mesmo arriscando sua vida, e tinha uma força que inspiraria homens e mulheres muçulmanos mais tarde enquanto lutavam para estabelecer uma comunidade muçulmana. Sumayyah foi e ainda é um exemplo de heroína, sendo conhecida, amada e respeitada pelos muçulmanos geração após geração.
Bilal Ibn Rabbah
Impossível não ter um espaço para Bilal em nossos corações, não é? Um dos companheiros do Profeta (que a paz de Deus esteja sobre ambos) mais conhecidos e respeitados – inclusive durante o seu tempo –. Foi um escravo de origem abissínia, ouviu falar da mensagem do Profeta e rapidamente aceitou o Islam, se tornando extremamente querido pelo Profeta e os outros companheiros. Embora o fato de ser um ex-escravo não ser tarefa fácil em uma sociedade extremamente sensível às alianças tribais e profundamente orgulhosa de sua identidade étnica – onde um sistema de classes baseado na hierarquia da identidade tribal estava profundamente incorporado –, a Comunidade muçulmana sempre foi exemplar no que diz respeito ao senso de igualdade e irmandade entre os companheiros.
Uma manhã, quando o Profeta e os companheiros se reuniram para a oração do amanhecer, o Profeta comentou com Bilal: “Ontem à noite, ouvi seus passos na minha frente no céu.” Essa elevação pública de um “ex-escravo” preto a um status que até os profetas considerariam invejável contribuiu grandemente para concentrar a atenção dos muçulmanos em ações, ao invés de noções socialmente construídas – e corrompidas – de nobreza e prestígio. Ações sempre importaram mais que a identidade herdada e o profeta Muhammad reiterou isso em seu último sermão:
E entre os Seus sinais está a criação dos céus e da terra e a diversidade de suas línguas e cores. Por certo, isso é realmente um sinal para aqueles que tem consciência.
– (Alcorão, 30:22)
Além de tudo, grande parte dos Profetas e Mensageiros escolhidos por Deus para orientar a humanidade e transmitir Sua mensagem foram pretos, entre eles os mais importantes dos Profetas, possivelmente incluindo Adão – o primeiro ser humano a ser criado, de quem todos somos descendentes, cujo nome inclusive denota “negro” como um dos seus significados – Salomão – que foi agraciado com coisas que ninguém jamais terá –, Moisés – o único ser humano a quem Deus conversou diretamente e o Profeta mencionado por Ele no Alcorão mais que qualquer outro ser humano na história – e Jesus – sobre o qual o Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja sobre ele) disse em uma narração “eu estava dormindo frente à Caaba quando vi o homem de pele escura mais bonito que já vi –. Sim, esses homens possivelmente eram pretos, já pensaram na importância dessa posição? A cor da pele nunca foi um problema aos olhos de Deus, por que então tem sido aos nossos?
Ó povo, vosso Senhor é Único e vosso pai, Adão, é um. Não há nenhuma vantagem de um árabe sobre um estrangeiro, nem um estrangeiro sobre um árabe, nem da pele branca sobre a pele negra, nem da pele negra sobre a pele branca, exceto pela virtude de ações. Acaso não vos entreguei a mensagem?
- Profeta Muhammad em seu último sermão de despedida (que a paz esteja com ele).
Desconstrução do racismo estrutural dentro e fora da Comunidade
Enquanto somos todos humanos e biologicamente iguais, a verdade é que somos diferentes e essa diversidade deve ser exaltada. O que se busca com o movimento antirracista não é a exaltação de uma cor sobre a outra e sim a igualdade de direitos e oportunidades entre ambas, ofuscadas com tanta força pela supremacia branca predominante na sociedade. A negritude possui suas particularidades, sua influência cultural – que inclusive sofre com frequência apropriações inadequadamente, sem a representatividade real adequada – e essa diversidade é de grande valor histórico e social.
É necessária uma conscientização global de que ao afirmarmos que vidas negras importam, não desvalorizamos outras vidas, e sim lutamos pela valorização de um povo que vem sendo alvo de um genocídio desde quando nos entendemos por gente, de um povo que sofre injustiças frequentes rotineiramente pela cor sua pele. Afirmar que a sociedade não vê raça porque todos somos humanos é um grande – e honestamente, ignorante – equívoco, porque a opressão sistêmica do povo preto é real, antiga e vasta. Crer que não se vê raça significa não enxergar tal opressão, marginalização e discriminação enfrentadas por pretos todos os dias. Reconhecer o sofrimento de pessoas pretas e lutar para que o medo, angústia, tragédias e luto que as açoitam dia após dia sejam suprimidos até sua abolição é responsabilidade de cada um de nós como seres humanos.
Essa luta não se restringe a um posicionamento, à simples declaração de que não somos e nem compactuamos com racistas ou ideais de supremacia branca, muito menos a um mero post de #BlackLivesMatter, apesar de úteis, válidos e necessários. Acontece que isso é o mínimo no que diz respeito à eliminação desse problema, e esse, minhas(meus) caras(os), é um baita problemão, que demanda estratégia e um exercício cotidiano profundo de desconstrução de ideologias racistas, grande parte das vezes camufladas por trás de “boas” ou inocentes intenções. Devemos enxergar o racismo e entender os meios pelos quais se manifesta para que possamos combate-lo. Enquanto nos desfizermos de nossa responsabilidade para com isso, o problema será recorrente e cada um de nós carregará consigo uma parcela de culpa.
O movimento não se inciou aqui, nem termina por aqui
Os últimos acontecimentos têm gerado grande repercussão, mas quantos outros passam diariamente despercebidos – ou melhor, negligenciados? – Em algumas semanas, essa onda de revolta e demanda por justiça diminuirá até que a causa caia em esquecimento mais uma vez, e não é isso que queremos. Nossa busca é por meios efetivos de tratar a situação com resultados permanentes, então mais do que fazer disso um momento emocionante e de reflexão, é necessário pensar racionalmente sobre uma saída e materializar isso com atitudes, coletivamente e globalmente. Cada um de nós possui seu papel e faz sim a diferença. É de indivíduos que se molda uma sociedade.
Devemos nos doar à missão conjunta de erradicar vigorosamente o racismo estruturado em nossos próprios meios, tomando a nós mesmos como meio de partida. O racismo está enraizado na sociedade racializada e gerado pelo privilégio e apatia muitas vezes se faz presente em nosso subconsciente, passando de forma não detectada por aqueles que o praticam – porém, impactante e clara àqueles que são por ele afetados –. Como detectar esses traços em nós e nossos círculos? Primeiramente, nos informando sobre o assunto, ouvindo pessoas negras, validando suas experiências e dando o lugar de fala a elas. Em seguida, com um exercício constante de autoanálise e nos atentando quanto ao uso de termos e expressões inapropriados e depreciativos de origem racista. Contudo, devemos ir além, não basta seguirmos uma narrativa antirracista, é necessário impulsionar e ampliar isso a um raio muito maior e tirar isso da teoria para a prática.
Nos questionemos. Como muçulmanos, qual a nossa postura quanto a isso? Seguimos o exemplo do Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja sobre ele)? Tomamos a diversidade das criações divinas como Sinais e as respeitamos como Ele exige que o façamos? No dia-a-dia, Consumimos conteúdo preto ou nos restringimos ao padrão da branquitude ideal? No âmbito profissional empregamos pretos – especialmente mulheres – ou favorecemos candidatos de pele clara como único critério de seleção? Casamos nossas(os) negras(os) com nossas(os) filha(os) ou rejeitamos quando recebemos uma proposta desse tipo com desculpas esfarrapadas? Quem somos nós no jogo do racismo? Vale a reflexão.
Não fiquemos apenas no discurso, nem nos façamos reféns da hipocrisia. Que sigamos o exemplo que nos foi passado e a ordem que o Criador nos dá quanto à equidade, a justiça, a humildade. Que façamos a nossa parte e cumpramos nosso papel em meio a isso. Que a população negra – dentro e fora da nossa comunidade – possa encontrar em nós um refúgio, aliados ativos nessa luta em busca de uma sociedade igualitária e justa para todos, especialmente àqueles que nunca foram dados a chance de provar desse privilégio. O sofrimento do povo preto após séculos de escravidão manifesta e oculta é inegável, mas não há dúvidas quanto à recompensa desse povo no dia do juízo, onde certamente ouviremos seus passos caminhando ao Paraíso, inshaAllah.

Manie El Khal é Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.
Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.
Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah




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