Carnaval: Origens e faces do maior evento cultural brasileiro
- Manie

- 22 de fev. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 7 de mar. de 2020
Por Manie El Khal, 22 de Fevereiro para o blog Hijab • Se

O Carnaval é uma festividade popular tradicional que acontece em diversos lugares do mundo, com maior intensidade no Brasil. Suas origens e significado inicial são desconhecidos diante das divergências históricas quanto aos primeiros registros carnavalescos, tendo sido essa festa reproduzida em diferentes sociedades e épocas de formas diversas. Hoje em dia, assimilamos o Carnaval ao Catolicismo e os dias que antecedem o período de jejum Quaresmal, sendo essa visão interpretada a partir do termo original do latim, Carnis levale (em português, retirar a carne), retratando o objetivo de treinar os fiéis quanto ao controle de prazeres mundanos.
Mas qual seriam as controversas influências históricas, então? Até onde registros nos permitem, narra-se que na Babilônia existiram duas festas que possivelmente deram origem ao Carnaval: as Sacéias e o período de transição de ano na Mesopotâmia (que se dava próximo ao equinócio de primavera). Em ambas as celebrações, existia uma inversão de papéis entre a figura de mais poder e a de menos poder. Nas Sacéias, prisioneiros passavam a viver, agir, se vestir e comer como os reis, inclusive dormindo com suas esposas. Após esse curto período, o prisioneiro voltava à sua posição e logo recebia sua punição: enforcamento. Já na festa de passagem de ano, a figura real novamente aparece invertendo papéis, dessa vez sendo o Rei a assumir papel de servo diante de seus deuses mesopotâmicos. Ele era surrado no templo de Marduk em frente à estátua do deus, de forma a demonstrar sua submissão a ele antes de ascender ao trono mais uma vez. Acredita-se que possivelmente, a inversão de papéis ao se vestir - muito presente nos carnavais brasileiros – seja herdada dessas tradições.
Nas sociedades greco-romanas existiram festas como os “bacanais” entre 605 e 527 a.C. em homenagem a seus deuses e comemorações de cultos agrários, onde era típica a embriaguez e entrega aos desejos e prazeres carnais. Nessas festas, eram comuns entre todas elas uma fartura de comidas, bebidas, dança e inversão de papeis sociais.
Com o sigificativo ganho de poder da Igreja Católica, as comemorações desses tipos de festividades pagãs eram preocupantes, visto que as pessoas se entregavam aos seus desejos abertamente (além da grande crítica da inversão das posições sociais pela Igreja). Dessa forma, a alternativa para a resolução desse problema foi dar um novo significado às celebrações. Com a criação da Quaresma durante a Alta Idade Média, essas festas passaram a se concentrar no período que a antenede, de forma a permitir que os fiéis tivessem um tempo de preparo mais "light", podendo cometer seus excessos antes da rigidez aplicada na Quaresma.
Já no Brasil, apresentou-se o Carnaval ao país pela primeira vez em 1723, com festas populares chamadas de “Entrudos” trazidas pela Corte portuguesa, mas há quem creia que isso ocorreu somente com a chegada da Família real ao Brasil mais tarde em 1807, evento no qual pessoas celebravam publicamente fantasiadas, usando máscaras e com música pelas ruas.
Independente da data, uma coisa é fato: os entrudos tinham muita força, desde as camadas mais pobres à própria família real. Durante as festividades, eram típicas brincadeiras como o “jogo das molhadelas”, na qual as pessoas utilizavam frascos preenchidos com líquido para molhar e sujar passantes na rua. Esse líquido poderia ter alguma fragrância ou em sua composição adição farinha. Muitas vezes, podiam ser adicionados a essa mistura alguns líquidos malcheirosos e até mesmo urina. (Sim! Eca!) Com o tempo, já no século XIX, isso passou a incomodar a elite. Com a transição de monarquia para república, eram constantes as repressões de manifestações públicas, assim como os processos de “ordenamento” das cidades com expulsão de classes mais baixas dos centros. Isso gerou a repressão do evento, fomentada pela imprensa, fazendo o evento finalmente vir ao fim no início do século XX. De maneira simultânea, a elite passou a criar bailes de carnaval privados em teatros e clubes, mais tarde levando isso às ruas através de Desfiles das recém criadas “Sociedades”.
Ainda assim, as tentativas de se expressar com eventos culturais da camada popular se mantiveram firmes e incessantes, o que se deu através de "ranchos” (mais comuns entre o público rural), “cordões”, e marchinhas de carnaval, com estética similar a procissões religiosas e forte presença de elementos culturais como a capoeira, instrumentos e ritmos musicais de origem africana, tais como o afoxé, frevo e maracatu (popularizados inicialmente na Bahia, Recife e no Rio de Janeiro, se espalhando para todo o Brasil). Outro fato interessante é que as festas de dança de escravos levavam o nome de “samba”, e a mistura de ritmos musicais como tango, lundu, polca e maxixe davam origem a músicas com características do samba, que passou a reinar tradicionalmente nos eventos de carnaval desde os primeiros cordões de folia até hoje, entre todas as camadas sociais.
As origens e o significado exato do carnaval são misteriosos, diante de todas as suas múltiplas facetas no mundo por várias épocas. Mas apesar de um grande secularismo presente no Carnaval brasileiro, fica nítida a influência de elementos culturais – de grande relevância histórico afetiva –, além de uma enorme possibilidade de assimilação com práticas tradicionais pagãs da antiguidade clássica. Tendo em vista a diversa gama de misturas na formação do povo brasileiro, não é nada surpreendente que o Carnaval seja a maior festividade cultural do país.
Ame-o, ou deixe-o. (Antes que me joguem pedras, fica registrado aqui que permanecerei em casa. Hahahah.) Brincadeiras à parte, é importante que como brasileiros, tenhamos conhecimento de elementos importantes para a cultura local. Esse conhecimento além da superfície facilita a compreensão dos hábitos e necessidades culturais para um melhor diálogo e coexistência com hábitos e necessidades religiosas. Durante essas festividades, seria interessante uma iniciativa religiosa em relação ao estímulo da busca ao conhecimento, por exemplo. É de suma importância e seria de grande utilidade à comunidade a criação de contrapartidas saudáveis como alternativa a eventos nocivos à fé do muçulmano.
Apesar disso ser idealmente de responsabilidade de Mesquitas e Centros Islâmicos dentro de suas capacidades, qualquer uma ou qualquer um de nós pode ser essa iniciativa. Chame suas amigas para ir a um sítio e discutir temas que empoderem e somem às nossas mulheres; se coloque como voluntária para organizar um circuito de palestras de importância para a comunidade; faça um churrasco Halal colaborativo para as famílias... São inúmeras as alternativas. Seja lá qual for sua ideia, ela é válida, vá em frente! Vamos dar cor e brilho à nossa Ummah, mais do que o neon e glitter em qualquer Carnaval.
Bom feriado!

Manie El Khal é Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.
Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.
Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah




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