Homem muçulmano pode casar com uma mulher não-muçulmana?
- 12 de jul. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 27 de jul. de 2020
Por Francirosy Campos Barbosa, 12 de Julho para o blog Hijab • Se

Bismillah al Rahman al Rahim,
Assalamu Aleikum Wa Ramatullahi
Wa Barakatuh.
Um dos temas que sempre geram muita curiosidade de muçulmanas(os) e não muçulmanas(os) é sobre o casamento e o namoro no Islam. Sobre isso já escrevi, orientei pesquisas, produzi um documentário, principalmente porque na última década vimos crescer o número de casamentos interculturais (especialmente de mulheres brasileiras com homens estrangeiros muçulmanos) assim como a problemática da ideia de um “príncipe encantado muçulmano”, resquício da telenovela O Clone.
A pergunta que sempre fazem aos Sheikhs em palestras, post em redes e etc. é se homens muçulmanos podem se casar com mulheres não muçulmanas. Há duas semanas em uma página do Facebook li pela enésima vez a pergunta sobre a permissão de um homem muçulmano casar-se com uma mulher não-muçulmana. A maioria respondeu de forma enfática: sim, pode se casar com mulheres do livro (cristãs e judias). A resposta não está errada, mas certamente está incompleta. A resposta mecânica para tudo que diz respeito à religião sempre me incomoda, porque a pergunta que fica é: se o homem casa com uma cristã/judia, a quem ficam os cuidados de ensinar a religião aos filhos? A esta pergunta não souberam responder de forma a me convencer, mas nesta semana assisti a uma Live com o Sheikh Ali Abdouni, presidente da WAMY (Assembleia Mundial da Juventude Islâmica), sobre casamento – namoro no Islam e lembrei de fazer esta pergunta a ele, o que fiz no dia seguinte à Live.
Ele confirma o que já sabemos sobre a autorização de casar com mulheres do livro, mas reitera: “Não basta serem seguidoras do livro!”. Há regras na jurisprudência islâmica que são consensos, e que pouco são exploradas:
1) Os homens devem educar seus filhos no Islam, e isso deve ser avisado para a esposa antes do casamento, para que ela esteja ciente e possa fazer sua escolha levando isso em conta;
2) Devem estar num país onde as leis estejam a favor de que os filhos fiquem com o pai muçulmano se houver separação;
3) Ele deve conhecer o Islam a ponto de saber divulga-lo/ ensiná-lo à sua esposa e educar os seus filhos;
4) Ela deve ser seguidora do seu livro sagrado e deve conhecer a sua religião para que possa comparar com o Islam de forma racional.
O que compreendi com a nossa conversa é que a educação religiosa é obrigação no Islam, pois caso o pai não eduque seus filhos na religião, estará pecando. Outro dado importante é que o sobrenome dado à criança é sempre o do pai, demarcando a linhagem paterna a qual pertence àquela criança. As mulheres quando se casam não precisam receber o nome do marido, permanecendo com o seu nome de família original. O casamento de um homem muçulmano com uma mulher cristã ou judia em um país islâmico assegura a permanência dos filhos na religião, pois o reconhecimento do nome de família é imediato.
No Brasil, não é simples garantir esses pontos, por isso, quase sempre, casamentos desta natureza acabam não facilitando a educação religiosa dos filhos no Islam. Apenas em casos em que as mulheres se reverteram por convicção à fé conseguimos constatar a garantia da transmissão religiosa. Por outro lado, uma das obrigações do marido muçulmano é garantir o conhecimento da sua esposa, porque há obrigatoriedade dos homens frequentarem a salat jummah (oração da sexta-feira, em congregação), e às mulheres é facultativa a ida à Mesquita. Por fim, o Sheikh confirma a importância de mulheres judias ou cristãs conhecerem bem a sua religião para poderem comparar seus conhecimentos ao Islam e saber distinguir os pontos de cada uma.
Todo este ensinamento elucida os requisitos para o casamento com uma não muçulmana. Compreende-se, portanto, que não basta consentir um casamento com uma mulher do livro, se não se preenchem esses quatro pré-requisitos. Por isso, quando não se cumprem esses pontos estabelecidos, alguns Sheikhs preferem não realizar tal casamento. Desta forma acreditam estar preservando os ensinamentos corretos da religião.
O casamento é um tema importante no Islam como demonstra o hadice do Profeta Muhammad (SAAS), que disse:
“A pessoa que se casa ganha metade da sua Fé, então, ela deve temer a Deus na outra metade”.
Este hadice deixa claro que se manter na religião não é fácil, por isso, o casamento é colocado como metade da fé, porque o fiel exercita diariamente sua fé tendo que (con)viver com um outra pessoa.
O casamento como qualquer coisa que seja feita no Islam, não pode ser feito sobre emoção. É fundamental o uso da razão, por isso, se busca sempre os conselheiros, testemunhas e há vários ensinamentos que demonstram o quanto é importante reconhecer nas mulheres crentes o seu maior tesouro para um casamento feliz, como é possível destacar em outro hadice do Profeta SAAS:
“As mulheres podem ser desposadas por quatro coisas: por seus bens, pela linhagem (à que pertencem), beleza e comprometimento religioso. Escolhe a que é comprometida religiosamente, que tuas mãos sejam esfregadas com poeira (ou seja, que tu prosperes).”
Narrado por al-Bukhari, 5090; Muslim, 1466.
Que os homens possam encontrar em suas esposas o exemplo de Khadija e Aishah (esposas do Profeta, que Allah esteja satisfeito com eles) e que mulheres possam encontrar em seus maridos o modelo do Profeta Muhammad (SAAS).
Que Allah guie a todos e nos abençoe!

Francirosy Campos Barbosa é antropóloga, Livre Docente no Departamento de Psicologia da USP Ribeirão Preto, pós-doutora pela Universidade de Oxford – sob orientação do professor Tariq Ramadan–, coordenadora do GRACIAS – Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes. Autora do livro: Performances Islâmicas em São Paulo: Entre Arabescos, Luas e Tâmaras, 2017. Diretora dos documentários: Allahu Akbar, Vozes do Islã, Sacríficio, Allah; Oxalá na trilha Malê (todos disponíveis no vimeo.)
Acompanhe pelo Instagram: @francirosy_campos




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