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Coronavírus: Um lembrete e múltiplas lições

  • Foto do escritor: Manie
    Manie
  • 22 de mar. de 2020
  • 7 min de leitura

Por Manie El Khal, 22 de Março para o blog Hijab • Se


Fonte: Instagram @muslimsoftheworld1

Quem diria que em um piscar de olhos veríamos o mundo inteiro entrar em um momento de crise. Como todos estão cientes, estamos em meio a uma pandemia que parou o mundo: o novo coronavírus vem se transmitindo em tempo recorde desde seu surgimento na China e reproduzindo consigo um alto número de mortes em uma mínima fração de tempo. Ainda assim, grande parcela da população global desconhece a dimensão e gravidade do problema, assim como sua respectiva parte no combate à pandemia.


No Brasil, a primeira confirmação da doença ocorreu em 26 de Fevereiro, pouco menos de um mês atrás. Hoje, no vigésimo quinto dia, são pelo menos 1208 casos confirmados em 26 Estados, com 18 mortes entre São Paulo e Rio de Janeiro (lembrando que a contagem dos casos é feita pelos testes positivos e os testes são realizados apenas em pessoas com sintomas severos e grupos de risco. Isso nos leva a entender que os números são muito maiores, pela fácil transmissão do vírus e a característica de não manifestar sintomas muitas vezes, sendo grande parte dos pacientes assintomáticos, que portam e transmitem a doença sem ao menos ter ciência dela).


Quando o povo brasileiro começou a perceber a gravidade do COVID-19, passamos a nos conscientizar melhor coletivamente sobre o assunto e demandar das autoridades medidas preventivas para conter o avanço da doença no Brasil. Grande parte das cidades brasileiras tomou medidas contra o surto, suspendendo quase todas as atividades dentro do país, sejam elas comerciais, culturais, acadêmicas ou religiosas, preservando o funcionamento de supermercados, farmácias e órgãos de saúde. Além disso, foi adotada uma grande restrição de entrada e saída no país, tal como o transporte interestadual. Para a população como um todo foi decretada a quarentena, período de reclusão para evitar novas contaminações. A ideia de evitar locais de aglomeração e incentivar o isolamento visa diminuir ao máximo a ploriferação do vírus, medida base de uma série de orientações dadas pela Organização Mundial da Saúde, junto às autoridades.


Em uma escala individual, além de não sair de casa exceto por razões emergenciais, é importante manter certos cuidados, tais como a higienização correta das mãos (evitando sempre levá-las ao rosto, especialmente áreas dos olhos, boca e nariz); a esterilização de compras, superfícies, celulares, óculos e objetos de uso pessoal, dentre outros; adoção de uma distância mínima de um metro para interação social (evitando inclusive beijos e abraços); assim como a forma correta de se espirrar e tossir. Essas medidas parecem nos restringir (um pouco, de fato), mas na verdade são atitudes básicas que deveríamos nos disciplinar para aplicar em nosso dia-a-dia indepentendente de haver ou não uma epidemia. A demora da quarentena pela população foi crucial na disseminação do vírus. Por ora, é essencial lembrar que quanto mais pessoas se conscientizarem e aderirem ao isolamento social, mais fácil e mais rápido se quebrará a corrente de contaminação, o que permitirá que nos recuperemos melhor e voltemos o mais breve possível para nossas rotinas.


Falando em rotinas, obviamente existe uma preocupação geral sobre trabalho, recursos financeiros, contas a pagar... Mas já pararam para pensar sobre a parcela da população que tende a ser sempre a menos favorecida? Não tem sido diferente dessa vez. Enquanto muitos continuam indo às ruas em desdém, colocando a si e a outras pessoas em risco, existem outros que dariam tudo para estar sob a segurança de um lar com suas famílias, mas muitas vezes sequer tem um lar, fazendo da rua o seu refúgio, local que por si já é inseguro e que agora ressalta tal característica. Há também aqueles impossibilitados de se proteger porque precisam se doar ao trabalho para garantir um lar a si e o alimento de suas famílias. Outros se doam para cuidar dos pacientes, estando expostos ao vírus diretamente, mas ainda assim, na luta contra ele na tentativa de salvar vidas. As janelas tem sido palco para os mais lindos eventos, e na sexta-feira, 20 de março, o Brasil se uniu em uma longa e emocionante salva de palmas em respeito e solidariedade a essas pessoas (nossa mais sincera apreciação a vocês!!!). Além disso, as janelas também tem sido palco de manifestações através de panelaços; manifestações artísticas com música ao vivo e se tornaram também local de interação (quem aí descobriu um(a) novo(a) amigo(a) na janela depois de anos vivendo logo ao lado?), lembrando a bela época em que as pessoas ainda sentavam nos portões para conversar.


Nesse momento, a empatia mais do que nunca deve ser vivida. Responsabilidade coletiva não é só ficar em casa em segurança, mas também, lembrar que estamos todos passando pelo mesmo momento de insegurança e que todos temos as mesmas necessidades. Antes de estocar desnecessariamente alimentos e produtos de higienização e esterilização e deixar as prateleiras vazias, é importante lembrar que outras pessoas também precisam deles com a mesma urgência. Antes de aumentar em porcentagens exorbitantes o preço de itens básicos de saúde e higiene (cruciais nesse momento) visando o lucro devido à demanda, seria no mínimo prudente pensar em quem não possui recursos para acessar esse luxo. Antes de reduzir o salário dos funcionários para manter a empresa lucrando, o empregador deve lembrar que a empresa se autosustenta sem um mês de lucros, mas o funcionário muitas vezes depende da renda salarial para se alimentar. E antes de exigir que uma doméstica se submeta a riscos para cuidar da sua família, que tal lembrar que se trata de uma vida digna e que ela também tem uma família para cuidar? Se a economia quebrar, ela se regenera mais tarde, não deixemos que para protegê-la isso nos custe vidas. E isso, meus caros, é o mínimo.


Apesar de todo cenário caótico, é emocionante observar a fragilidade humana e como de fato somos mais fortes juntos, pensando em todos de maneira igualitária. É emocionante ver pessooas em Moçambique (onde não foram atingidos pelo vírus, graças a Deus) em um país pouco avançado financeiramente, orando pelo mundo, mostrando que são avançadíssimos no que realmente importa. É emocinante observar a manifestação da natureza em resposta a isso, como no exemplo da Itália, que após a reclusão das pessoas em suas casa registrou javalis andando pela cidade com seus filhotes pela cidade, água cristalina nos canais em Veneza, golfinhos nadando nos portos e patos caminhando pelas fontes em Roma.

Toda essa situação nos serve de reflexão: isso é um teste que provavelmente nos afetou em conjunto globalmente para que possamos ponderar sobre nossa insignificância diante do universo. Somos parte dele, não Soberanos sobre ele. Tratamos a natureza da pior forma possível e ignoramos cada sinal de alerta e pedido de socorro que a Terra nos dá. Vemos desastres naturais se intensificarem cada vez mais e a postura da humanidade parece não mudar, exceto em prol do próprio "benefício".


Talvez com uma tragédia global como tem sido essa, esse chacoalhão nos acorde. Talvez ao sentirmos o pânico de um cenário marcado pelo desespero, medo, dor, perdas e incertezas sobre futuro, passemos a pensar mais no desespero, medo, dor, perdas e incertezas que afligem o outro lado do mundo com tanta frequência, que pouco nos choca ou causa ou impacta. Talvez com essa breve experiência tomemos consciência de que pouco importa o material, as aparências e o luxo se não temos saúde, segurança, educação, liberdade, e passemos a cuidar melhor daqueles que são privados dela por toda vida. Para que voltemos nossa atenção a eles, aos atingidos pela fome e a miséria, às vítimas de genocídio, às pessoas em zona de guerra, grupos de risco atingidos pelo risco todos os dias, que devem lutar pela vida e por qualquer alimento ou segurança todos os dias. Talvez ao vermos nossas Mesquitas fechadas (onde sentimos ser o refúgio mais pacífico e seguro no universo), nós como Comunidade e como indivíduos muçulmanos nunca mais nos esqueçamos de todo o valor que esses locais tem para nós. Talvez seja um lembrete do quão impotentes somos, quando temos uma mínima ideia do que é temer por si e quando um ser microscópico invisível a olho nu é capaz de causar um enorme colapso no mundo inteiro, sobre o qual nos julgamos controladores. A verdade é essa: não estamos no controle. E talvez, isso seja apenas a lição que tivemos que aprender do jeito difícil. E esperamos que a humanidade de fato aprenda.


Buscando conforto para minha ansiedade e inquietação parei para refletir também sobre a perspectiva islâmica sobre o assunto. É surreal e incrível ver na prática a importância das orientações do Alcorão e da Sunnah (ditos do Profeta Muhammad, que a paz de Deus esteja com ele). É de arrepiar quando vemos mais uma vez a completude do Islam, ao cobrir um assunto tão específico como esse de maneira tão sábia, o que nos conforta e nos proporciona um senso de segurança: não estamos totalmente perdidos.

Assim que dei conta da pandemia me lembrei do dito do Profeta sobre o assunto: "Se você ouvir um surto de epidemia em um local, não entre nele, e se ele surgir em um lugar enquanto você estiver nele, não deixe esse lugar." Sábias palavras, de fato. Ao notar as orientações da OMS para prevenir o surto, me lembrei novamente de como o Islam nos ensina que "a higiene é um traço da fé" e visa a limpeza em todos os aspectos. Deus nos diz no Alcorão Sagrado que serems postos à prova mediante o temor, a fome, a perda de bens, das vidas e dos frutos, não como castigo, mas como Misericórdia "... anuncia a bem-aventurança aos perseverantes - aqueles que, quando os aflige uma tragédia, dizem: Somos de Deus e a Ele retornaremos -. Estes serão cobertos pelas bênçãos e pela misericórdia de seu Senhor, e estes são os bem encaminhados." (Alcorão 2:155-157)


Apesar da compreensão de que isso é um teste e de nos ser dado um passo a passo para evitá-lo e eventualmente combatê-lo, o Islam é completo, não uma religião acética, se unindo a ciência, não contradizendo-a. Já dizia nosso amado Profeta,"Faça uso de tratamento médico, pois Deus não fez uma doença sequer sem indicar um remédio para ela." Confiemos, então, sejamos cautelosos e tomemos as medidas corretas para efetivamente resolver o problema, sempre com muita fé.


De fato, não sabemos o que será daqui para a frente, mas sabemos que ao fazermos nossa parte, Deus apontará uma saída. Teremos que nos reerguer juntos, orar muito por uma solução, por sabedoria, por aqueles que perderam suas vidas nessa tragédia e por aqueles que ficaram para trás com um vazio que não esperavam. Oremos pelo mundo, para que transformemos toda perda em ganho: o ganho de todas as virtudes que precisávamos para pensar e trabalhar juntos por um mundo melhor. Cuidemos uns dos outros, amemos uns aos outros, sejamos solidários e responsáveis uns com os outros: o mundo precisa disso. Não desanimemos, não cedamos ao surto e à preocupação, e lembremos: nós não estamos no controle, mas Deus está.



Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.

Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.


Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah

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