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Dia Internacional da Mulher: feliz luta nossa de todo dia

  • Foto do escritor: Manie
    Manie
  • 8 de mar. de 2020
  • 6 min de leitura

Por Manie El Khal, 8 de Março para o blog Hijab • Se

Domingo. Para muitos, dia de reunir a família; para outros, dia de encontrar os amigos ou de se apreciar a própria companhia. Mas existe algo especial sobre esse domingo 8 de março: algo mais a ser apreciado. Seja em família, com amigos ou sozinhos, têm-se um lembrete para refletirmos sobre as nossas guerreiras: as mulheres.


Dia Internacional da mulher, o típico dia em que recebemos rosas, abraços, felicitações e os posts em redes sociais sobre o assunto saturam a internet. Seria isso suficiente? Nos últimos anos, a reação das mulheres quanto a isso tem sido diferente. Respostas como “não queremos rosas, queremos respeito” tem sido uma tendência entre nós. Bom, francamente, isso é a mais pura verdade. Do que vale um momento de apreciação teórica se na realidade prática temos uma história diferente, não é mesmo? Vivemos em uma sociedade em que constantemente devemos ir além para provar nosso valor e trazer à tona debates sobre o respeito à mulher, porque apesar de tanta luta e uma aparente mudança de uma mentalidade patriarcal machista e insalubre, mostra-se evidente a urgente necessidade do real desenvolvimento de uma consciência coletiva de valorização da mulher. Pra ontem.


Enquanto no mundo inteiro desejamos um feliz dia da mulher para nossas mulheres, no Brasil somos recordistas em feminicídios – crimes de ódio motivados pela condição de gênero, ou seja, assassinatos por nenhuma outra razão exceto o fato de se ser mulher –. Apesar de levarmos o recorde por aqui, com uma média de uma mulher impiedosamente morta a cada sete horas, (sim, s-e-t-e h-o-r-a-s), isso não é uma realidade muito diferente no resto do globo, o que infelizmente tem sido dessa forma historicamente desde que nos entendemos por gente. Nossos registros históricos retratam uma realidade perversa em que a mulher tem sido sempre objetificada, usada como artigo de luxo e ostentação, explorada, violentada, segregada e privada de sua liberdade e direitos básicos (como vemos até hoje, muitas vezes o próprio direito à vida).


Sendo assim, torna-se completamente incoerente (e em diversos casos até mesmo uma atitude hipócrita) dedicar um dia às mulheres e presenteá-las com flores enquanto nos outros 365 dias seus direitos básicos não são contemplados. Com o apoio do movimento feminista foi possível abrir os olhos de muitas pessoas para um assunto tão absurdamente sério, garantindo dessa forma à mulher algo que deveria ser seu por direito (privilégios dos quais os homens se aprazem sem qualquer esforço, simplesmente por serem homens). Entretanto, ainda assim encontramos uma série de dificuldades e desigualdades, sejam elas na criação e formação de caráter (tenho certeza que vocês já ouviram de alguém que “se você que é mulher não lava a louça, por que o seu irmão que é homem vai lavar?”, no espaço público (pelo qual andamos sempre alertas, desconfiadas e inseguras, correndo sérios riscos de assédio, estupro, feminicídio...), no mercado de trabalho (onde homens são sempre os escolhidos para ocupar posições mais elevadas e mulheres são pagas muito menos para exercer a mesma função), em nossos meios sociais (nos quais ouvimos absurdos de homens e até mesmo da boca de mulheres e que são levados como “humor”) e, na minha opinião, o pior dos casos: em casa, quando o lar se torna um pesadelo ao lado de um parceiro abusivo. Feliz dia da mulher? Só depois de acabarmos com tudo isso.


“Ué, mas quem é você para falar sobre feminismo e direitos da mulher sendo muçulmana?”. A resposta se encontra na própria pergunta: primeiro, sou mulher. E o que me dá tanta propriedade para falar sobre o assunto é exatamente o fato de ser uma mulher muçulmana. Sou adepta de uma fé que contempla, encoraja, aplica e luta pelos direitos das mulheres há mais de 14 séculos (repito, qua-tor-ze sé-cu-los), a mesma fé que chegou em um contexto onde o nascimento de uma mulher era considerado o ápice da desgraça para uma família (perdoem o termo, mas ele é coerente e necessário a tal realidade), e nesse caso, ou a filha era enterrada viva (foi exatamente isso que você leu), ou era poupada pra que servisse e fosse uma máquina de prazer e procriação. Qual foi a posição do Islam diante disso? Clara e simples: colocando o pé na porta sem receio e desafiando essa sociedade, não somente garantindo a mim, a você e toda e qualquer outra mulher o direito à vida, mas a uma vida digna em que somos donas de nós mesmas e não nos submetemos a nada nem ninguém exceto à vontade de Deus, que nos ama e nos cuida como ninguém. O pacote veio completo: 1441 atrás, quando nem se imaginava que a mulher pudesse ter alma, o Islam provou que isso ainda era pouco e nos garantiu o direito à liberdade de escolha, ao voto, à herança, ao divórcio, ao prazer na relação matrimonial, ao estudo, ao trabalho e à igualdade, todos esses, direitos recentes na sociedade ocidental e alguns deles cujos quais lutamos até hoje para conquistarmos. Vale a reflexão.


Me surpreende uma manipulação midiática tão bem feita e um grau de ignorância tão elevado para que o Islam acabe sendo erroneamente retratado como uma religião machista e opressora à mulher, quando na verdade ela é o exato oposto disso e o faz melhor do que qualquer outra coisa, colocando a mulher em um patamar jamais visto antes e exaltando suas virtudes. Isso é tão claramente exposto de forma que aprendemos que o cuidado em relação à mulher é tão fundamental que “o Paraíso se encontra aos pés das mães”, um pai que cuida de suas filhas até que elas atinjam a independência é garantido o paraíso e o “melhor de vocês é aquele que é melhor para vossas mulheres”.


“Mas vocês dizem isso porque vivem no Brasil no século XXI, queria ver se morassem ‘lá’ antigamente”. Hmmmm, não. Primeiramente, apesar de ter tido seu berço na Arábia Saudita, o Islam é um modo de vida universal, não sendo dignamente representado por qualquer país e tampouco por uma cultura. Infelizmente, muitas vezes esses dois elementos se misturam em locais de maioria muçulmana e por falta de conhecimento religioso, partes obscuras de uma cultura podem influenciar ou sobrepor a prática da religião. Isso implica uma falha humana, não possuindo quaisquer fundamentos na fé. Prova disso são os implacáveis exemplos de mulheres das primeiras gerações de muçulmanas. A primeira pessoa a abraçar o Islam foi Khadijah (RA), a esposa do Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja com ambos). Uma viúva bem sucedida, possuía seu próprio negócio, era chefe do Profeta, 15 anos mais velha e foi quem o propôs em casamento. (Pensem só que mulher!)


Não existe melhor exemplo de bons tratos, respeito, cuidado e apreciação à mulher como o do Profeta em relação a suas esposas, filhas e quaisquer outras figuras femininas de seu convívio, exemplo esse que ele passou para seus companheiros e pregou durante a sua vida, ressaltando tal importância até – literalmente – os seus últimos dias. Khadijah (RA) foi quem apoiou o Profeta em sua missão, providenciando os recursos necessários e servindo como um alicerce para a fé. Alguns anos após sua morte, outra mulher incrível continuou seu legado ao lado do Profeta: Aisha (RA) foi responsável por narrar a maior parte dos Ahadith existentes (ditos e tradições do modo de vida do Profeta), ensinando não somente inúmeras outras mulheres, como também homens com seu enorme conhecimento.

Ou seja: apenas com dois exemplos vemos a influência que as mulheres essencialmente tiveram na formação e divulgação do Islam. Esse legado foi seguido por muitas outras contemporâneas a elas, assim como as próximas gerações. Um outro exemplo interessantíssimo é o de Fatima Al Fihri, uma mulher marroquina muçulmana fundadora da primeira Universidade no mundo inteiro. Preciso falar algo mais? Creio que não.


Isso se estende até os dias de hoje, onde temos uma mulher muçulmana na Palestina batendo recordes de formação no curso de medicina aos 14 anos de idade, muçulmanas fazendo contribuições incríveis na ciência, medalhistas olímpicas e campeãs no esporte, empresárias e líderes com trabalhos maravilhosos, mulheres na política, ativistas consistentes, escritoras, artistas... Enfim: mulheres brilhantes por toda parte.

Conquistas assim me dão esperança e a sensação de um “feliz dia das mulheres”, porque mulheres, independente de qualquer coisa, muçulmanas ou não, devem sim ser celebradas. Mas não apenas por um momento, não somente em um dia específico. Muito menos só através de palavras vazias, atitudes contraditórias e presentes sem essência. E é por isso que nós, mulheres, devemos nos empoderar juntas, lidar umas com as outras com amor e empatia e reviver uma questão importantíssima: sororidade. Uma aliança feminina baseada no apoio mútuo, na solidariedade e na força, em prol do nosso maior objetivo comum: a nossa valorização, igualdade de gênero e nosso espaço na sociedade. Se eles não cedem, juntas nós damos as mãos e tomamos de volta nosso lugar: nem em cima nem em baixo: bem ao lado deles.

Feliz todo dia, mulheres!


Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.

Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.


Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah

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