Islam e meio ambiente: Responsabilidade coletiva
- Manie

- 5 de jul. de 2020
- 9 min de leitura
Atualizado: 12 de jul. de 2020
Por Manie El Khal, 05 de Julho para o blog Hijab • Se

Sempre fui uma garotinha com gosto pelo conhecimento e a leitura. Minha mãe, uma marroquina morando no Brasil – na época, há 12 anos –, implementava perfeitamente bem o princípio islâmico do estímulo à busca pelo conhecimento ao alfabetizar sua caçulinha aos 4 anos de idade. Desde então, cada livro que encontrava em casa era logo um livro que eu rapidamente “engo(lia)”. Me lembro de uma tarde chuvosa em que me sentei ao lado dela e escolhi um livro de capa arroxeada na nossa estante. Era um livro infantil, porém didático, abordando as questões do meio ambiente, efeito estufa e aquecimento global. Naquele momento, ainda sem muito conhecimento de como funciona o mundo e a cadeia sistêmica que o (des)ordena, senti um enorme desconforto e a necessidade de fazer algo pelo planeta. Era uma criança de mente ainda crua e pouco conhecedora das dimensões do Universo, porém, naquele momento, já tinha a plena noção de que o que o ser humano estava fazendo com o mundo, não era certo.
Sonho de vida americano* ou pesadelo mundial?
Somos 7,8 bilhões de habitantes no mundo espalhados pelo globo, divergindo em culturas, hábitos, formas de viver e produzir. Dentro de um único núcleo familiar existem diferenças, que dirá analisar esses aspectos em uma escala global. Contudo, desde que a globalização – com seus prós e contras – se tornou dominante, replicamos em todas as partes do mundo, hábitos e formas bastante similares de se viver e produzir. Antigamente, os seres humanos produziam seu próprio alimento e viviam de forma simples, porém com o tempo, – em especial a partir do contexto da Revolução industrial –, substituímos as pessoas por máquinas – ou mão de obra escrava –; a produção em mínima escala pela produção em massa; atrelamos isso ao capitalismo sempre visando o lucro e utilizamos da obsolescência programada para manter as pessoas sempre consumindo. A ideologia pregada desde então tem sido fundamental para criar em nós a normalização desse novo estilo de vida, removendo de nós a individualidade, fazendo com que repliquemos comportamentos e ideais padronizados – por quem? Eis a questão – e nos tornando completamente dependentes desse sistema.
Mas o que isso tem a ver com o meio ambiente? Hmm... Tudo.
Nosso planeta, nosso ritmo, nossas regras
Somos 7,8 bilhões de pessoas alimentando um sistema que é absolutamente agressivo e nocivo ao planeta. Historicamente “conquistamos” cada pedacinho da Terra e em grande parte dos territórios dos quais nos apossamos, implementamos cidades cada vez mais adensadas e verticalizadas em substituição à fauna e flora nativas preexistentes. Com a migração das pessoas às cidades através do êxodo rural, passamos a produzir alimentos de forma industrializada e tóxica, onde até mesmo os alimentos naturais seguem uma cadeia controlada pelo ser humano, em que a natureza é refém e forçada a obedecer à constante demanda – que é absurdamente maior do que a capacidade do ciclo natural de produção –.
O mesmo acontece com a pecuária. Os animais são sujeitos a formas insalubres de crescimento, sem o tempo e as condições necessárias para viverem e se desenvolverem naturalmente. São tidos como mero produto de consumo e finalmente mortos de formas cruéis – o que inclui baleamento cerebral, golpes de marreta, choques na cabeça e atordoamento elétrico –. Quanto aos animais não usualmente tidos como alimento: destruímos seus habitats, os traficamos ilegalmente, os caçamos por mera diversão, criamos espetáculos caríssimos com rinhas e lutas, lucramos com seu sangue sofrimento... O que em uma escala mais próxima, se estende à violência animal nas ruas – envenenamento, atropelamento, agressões e etc. – ou até mesmo às péssimas condições de vida e reprodução forçada que são submetidos para que possamos comprá-los como animais de estimação. (Por isso, não compre, e sim adote de forma responsável. Por favor.)
Para onde estamos indo?
“Assim, pois, aonde ides? Certamente, isto não é mais do que uma mensagem para o Universo, para quem de vós quiser se encaminhar.”
Somos 7,8 bilhões de pessoas. De acordo com dados da ONU, produzimos cerca de 1,4 bilhões de toneladas de resíduos sólidos anualmente. Por dia, isso se resume a uma média de 1,2kg por pessoa – o que na prática, pela desigualdade econômica varia para muito mais ou muito menos –. Quase metade dessa quantidade tem origem em menos de 30 países, os mais “desenvolvidos”. Também, segundo a ONU, em dez anos alcançaremos 2,2 bilhões de toneladas anuais e seguindo esse ritmo, ao chegarmos aos 9 bilhões de habitantes – o que é previsto para meados de 2050 –, ultrapassaremos 4 bilhões de toneladas de lixo por ano.
Descartamos muito pois consumimos muito e porque se produz muito lixo desnecessário com embalagens e afins. Se produzem coisas sem margem para uma reutilização eficiente. Se produz propositalmente já visando a data de validade e essa estratégica básica de garantia de consumo tem nome e sobrenome: obsolescência programada. Para onde vai esse lixo? Apenas uma parcela mínima de toda essa quantidade de resíduos é reciclada e ainda assim, para esse processo existem impactos na natureza. E quanto ao que não é reciclado? Quando é dada a destinação correta a esses resíduos, menos mal, mas ainda assim, mais uma vez, existem impactos para a saúde dos profissionais envolvidos, de quem trabalha ou mora relativamente próximo a um aterro sanitário, assim como à fauna, flora e etc, pela geração reativa de gases tóxicos, por exemplo. Os aterros sanitários sofrem superlotação com frequência, e não é como o nosso ficheiro de lixo dos eletrônicos, em que apertamos deletar tudo e num passe de mágica aqueles arquivos não existem mais. Na vida real, a destinação final, nem sempre é a final, levando décadas para que os resíduos se decomponham e mais para que a natureza se regenere.
“Comei e bebei, mas não vos excedais. Por certo, Ele não aprecia os que se excedem.”
Reféns da própria destruição
7,8 bilhões de pessoas explorando recursos naturais renováveis e esgotando recursos naturais não renováveis. Isso, sem contar com o lixo que descartamos em mares e rios, a quantidade de poluição atmosférica que geramos diariamente com automóveis, o óleo que vazamos em oceanos, as serras que exploramos com mineração até o rompimento de barragens com detritos altamente contaminantes, as florestas que desmatamos, queimamos enquanto nos deleitamos na constante evolução humana. É mesmo? Será que somos mesmo tão desenvolvidos assim? Ou vivemos um constante retrocesso mascarado por um conceito ilusório de desenvolvimento? Evoluímos tecnologicamente, cientificamente, em nossas teorias, avanços e movimentos sociais, mas ainda estamos estagnados no mesmo lugar, onde prevalece a desigualdade, a injustiça, o preconceito, a corrupção, a natureza como refém, Deus como uma “lenda antiga” e o ser humano como soberano. Esse é nosso mundo hoje.
A organização mundial da saúde (OMS) considera as mudanças climáticas como a maior ameaça à saúde mundial do século XXI, e segundo a Organização, o aquecimento global será a causa de 250 mil mortes adicionais por ano até 2030. Os últimos dias têm sido marcados – por além de uma pandemia – também pelo aumento significativo de desastres naturais em todo mundo de forma simultânea, desde as queimadas por ondas de calor, à elevada quantidade de aves e mamíferos mortos sem razão aparente, ou as não usuais erupções de vulcões adormecidos, terremotos de magnitude elevada, ciclones, temperaturas altas no Ártico – causando o descongelamento de geleiras – e nevascas em territórios de clima tropical, como os 20°C negativos que açoitaram a Argentina na última semana, aproximando a frente fria ao Brasil, além do surto de doenças e ataques de insetos nocivos, Essa onda de desastres percorre o mundo inteiro, incluindo o Brasil, e depois de vários avisos, nada disso é por acaso. (Acontece que infelizmente, preferimos encarar a situação com humor e óbvio, muitos memes.)
“A corrupção surgiu na terra e no mar por causa do que as mãos dos humanos lucraram. E Deus os fará sentir o gosto do que cometeram. Quiçá assim se abstenham disso.”
– Alcorão 30:41
Percebe-se que esse texto foi escrito na primeira pessoa do plural, porque por mais que eu e você possamos não compactuar com os ideais de exploração da natureza e por mais que busquemos fazer nossa parte pela preservação dela, ainda há muito o que se fazer. Todos nós somos passíveis de culpa. Somos 7,8 bilhões de seres humanos e esse sistema se sustenta sobre cada um de nós, sendo nossa responsabilidade como indivíduos e sociedade pará-lo. O mundo se manifesta, chora e grita por socorro. Quem somos nós? Os que atendem ao apelo e amplificam sua voz ou os que ignoram, silenciam e assistem seu fim? Nada se cria, transforma ou destrói sem que haja algum impacto e o planeta está no seu limite. É importante lembrar que no fim da história, somos dependentes do que a natureza nos dá, e se a destruirmos por completo, estaremos levando a nós mesmos à destruição.
“Não joguei a si mesmos com suas próprias mãos à destruição. E façam o bem; De fato, Deus ama os que o bem praticam.”
O Islam e o essencial cuidado com o meio ambiente
A visão holística do Islam se baseia na noção de harmonia e "estado natural" do ser humano (fitra) e em respeitar o equilíbrio e a proporção nos sistemas do universo. Essas noções fornecem uma dimensão ética e um mandato sobre o respeito humano à natureza e todas as formas de vida. Os valores islâmicos exigem salvar a integridade e proteger a diversidade de todas as formas de vida. Deus, no Alcorão, nos diz que "Não há seres alguns que andem sobre a Terra, nem aves que coem, que não constituam comunidades semelhantes à vossa” (6:38), assim como nos recorda de que:
“Seguramente, a criação dos céus e da terra é mais importante do que a criação do homem; porém, a maioria dos humanos o ignora.”
– Alcorão 40:57
Somos apenas parte de um complexo criado por Deus, e pela racionalidade que ele nos concedeu, nos é confiada a missão de manter o equilíbrio entre os sistemas. A atitude islâmica em relação à conservação do meio ambiente e dos recursos naturais não se baseia apenas na proibição de exploração exacerbada, mas também no desenvolvimento sustentável. O Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja sobre ele) nos orienta sobre o uso da água ao fazer a purificação para a oração, dizendo que mesmo que tenhamos um rio corrente à nossa disposição, não se deve usar mais do que o necessário – e o necessário, de fato é o mínimo – Ele também proibiu que uma pessoa se aliviasse em uma fonte de água, em um caminho de passagem, em um local de sombra ou na toca de alguma criatura. Esses valores destacam a ênfase do Islam em evitar a poluição da natureza e a importância da higiene e limpeza.
Existe um estímulo pelo cultivo da vegetação, pelo cuidado com os animais e a preservação de suas moradas, sendo estritamente proibido qualquer ação prejudicial à essa ordem. Inclusive, até mesmo no que diz respeito ao consumo de carne, os muçulmanos só podem comer se for feito um processo de abate específico – o abate Halal - que visa não só o processo humanizado do abate em si – em que o animal é acalmado, levado para longe de outros animais para evitar que se assustem, não lhe é mostrada a faca (muito bem afiada para que seja um processo rápido e sem sofrimento) e toda a carne deve ser utilizada para fins de alimentação evitando excessos e desperdícios – mas como também visa boas condições de vida do animal, como um ser digno, que dever crescer livre e naturalmente. Lembrando que um estilo de vida Halal vê a carne como ocasional, não o principal de uma alimentação, diminuindo assim a necessidade de abate de milhares de animais para esse fim.
Além disso, qualquer boa ação que seja feita a qualquer ser é contabilizada, mesmo que isso seja evitar pisar em formigas ou dar à elas grãos de açúcar. Existem narrações do Profeta em que ele nos conta sobre o caso de uma mulher que será castigada no dia do Juízo por um gato que ela mantinha trancado até morrer de fome, sem lhe dar o alimento nem lhe conceder a liberdade de ir busca-lo na natureza. Já em outra história, os pecados de uma prostituta são todos perdoados pelo simples fato de conceder água potável a um cachorro sedento. Ele também ensina que ao plantar ou semear uma árvore, qualquer benefício que seja gerado por aquela árvore – como frutos e sombra – gera também recompensas para aquela pessoa, por cada ser – animal ou humano – que se beneficie dela até o juízo final. Essas histórias foram registradas há mais de 1.400 anos atrás – muito antes do conceito de sustentabilidade e preservação da natureza e dos direitos animais se tornar um assunto “na moda” ou ‘politicamente correto'. E se ainda resta qualquer dúvida sobre a importância que isso deve ter para nós nos dias de hoje, deixo aqui as próprias palavras do Profeta (que a paz de Allah esteja sobre Ele):
"Quando chegar o dia do juízo final,
se alguém tiver uma semente na palma das mãos,
deve plantá-la."

Manie El Khal é Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.
Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.
Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah




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