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Lisa Vogl e violência doméstica: de sobreviente a combatente

  • Foto do escritor: Manie
    Manie
  • 13 de abr. de 2020
  • 7 min de leitura

Por Manie El Khal, 13 de Abril para o blog Hijab • Se


Você já ouvir falar da Lisa Vogl? Se você é uma das nossas leitoras fiéis, provavelmente se familiariza com esse nome. Lisa é fundadora e diretora da tão badalada Verona Collection pioneira em vestuário modesto no mercado ocidental , além de fotógrafa de moda e ativista pela causa das mulheres em situação de violência doméstica. Tendo em vista o cenário atual em que as estatísticas sobre abuso doméstico tem se intensificado absurdamente (já sendo um absurdo em dias normais), vamos contar um pouco da história de uma grande mulher, sobrevivente desse problema tão sério e que se reergueu após o trauma, lutando incessantemente pela liberdade de outras mulheres que hoje se encontram na mesma situação.

Se está se perguntando onde foi que ouviu falar de Lisa no nosso blog antes, aqui está: Em novembro de 2019, escrevemos sobre a participação da Hijab-se no “Girls Gone Modest Bazaar” em New York, evento anual organizado por mulheres (BICC Youth) e exclusivamente feminino, onde em meio a diversas atrações culturais, unem-se mais de dez importantes marcas de Modest Fashion, o que na última edição incluiu a Hijab-se (simmm!) ao lado da Verona Collection, de Lisa Vogl. É possível que na época muitas de nossas leitoras não imaginassem, mas a história de Lisa vai muito além do sucesso de sua marca e seu reconhecimento mundial. A marca, na verdade, foi um produto da sua trajetória que ela usou para canalizar todo o sofrimento e transformá-lo em cuidado: consigo mesma e com outras milhares de mulheres.

Verona Collection


A Verona Collection possui seu destaque no ramo de Modest Fashion por diversos motivos, a começar pela sua criação, sendo concebida para suprir um vazio quando o mercado apenas ofertava roupas islâmicas com traços orientais. A intenção foi trazer ao mercado ocidental roupas modestas com a essência da própria cultura local, o que conquistou o mercado americano e euroupeu e se reproduziu de forma significativa. O conceito leva uma preocupação com a inclusão e a acessibilidade, tendo como objetivo principal empoderamento das mulheres muçulmanas. Além disso, a marca foi a primeira nesse contexto a fazer parte da rede de departamentos americana Macy’s e da britânica Asos e em questão de dois anos se destacou em publicações como a Today Show, Cosmopolitan, Huffington Post e Refinery 29, o que demonstrou o impacto do setor na indústria da moda no geral.

Trajetória ao Islam


A carreira de Lisa Vogl se iniciou através da fotografia. No mundo inteiro, Lisa esteve presente colaborando com marcas de Modest Fashion, tendo seu trabalho divulgado em plataformas famosas como a revista Marie Claire. Sendo também bacharel em Marketing, fortaleceu seu potencial profissional no ramo e o usou para lançar a Verona.

Revertida ao Islam em 2011, teve seu primeiro contato a religião muçulmana em Marrocos durante uma experiência de trabalho como professora de inglês. Após se mudar para a Flórida, onde iniciou sua profissão como fotógrafa, conheceu uma mulher muçulmana e devido à sua experiência com o Hijab no Marrocos, decidiu entrevistá-la sobre o significado do véu para um projeto videográfico. “Fiquei profundamente comovida com a maneira como Nadine via o hijab e como ela expressou sua fé. Quando ela começou a falar comigo, realmente abriu meus olhos.” Contou ao Wisconsin Muslim Journal em 2019. A entrevista causou um efeito inspirador sobre Lisa, o que gerou um grande interesse na religião. Após muitos estudos e o contato com o Alcorão, finalmente tomou sua decisão, se tornando muçulmana nove meses depois do incidente.

Lar, amargo lar


O que não sabíamos por muito tempo é que Lisa além de ser uma premiada fotógrafa de moda internacional e fundadora da marca dos sonhos de uma hijabi, é também sobrevivente de abuso e violência doméstica. Sua história foi um sombrio segredo por anos, até que decidiu se abrir ao público através de um post no Facebook, como manifestação de força e a intenção de dar a voz a outras mulheres vítimas desse problema tão comum. Ao se abrir também através de diversas palestras e entrevistas, Lisa conta que conheceu seu ex esposo e abusador em um site de casamentos muçulmanos, se casou e sofreu abuso emocional e financeiro por alguns meses, se dando conta de que estava em um relacionamento abusivo somente quando ele passou a então agredi-la durante a gravidez. Com medo e a esperança de que ele mudasse, guardou segredo, mas a situação só piorava. Depois de tê-lo constantemente a manipulando, agredindo e abusando verbal e psicologicamente por anos, Lisa se manteve firme, mas conta que se aterrorizou quando em uma noite, grávida, se escondeu com seus dois filhos – ainda bebês – dentro do banheiro, do qual ele derrubou a porta e a estrangulou. Com medo que ele fosse matá-la, dirigiu até o hospital durante uma hemorragia e sofreu aborto do terceiro filho por conta do estresse e do abuso físico. Ela relembra no post: “naquela noite, fiquei sozinha no hospital apenas olhando para a parede. Eu já não sentia mais emoções, era como se eu não tivesse mais lágrimas para chorar.”

A gota d'água


Algumas semanas após o incidente e de volta em casa, Lisa conta que durante um momento de descanso, seu abusador se irritou novamente sem qualquer razão e a gota d’água para si foi quando ele pegou seu Notebook e o arremessou na parede gritando “que Deus amaldiçoe a Verona”. Foi quando ela finalmente resolveu dar um basta na situação, desesperadamente chamou uma amiga para ajudá-la a juntar seus pertences, ligou para amigos em Orlando, contou tudo o que estava acontecendo e deixou a casa com seus dois filhos – ainda com 5 meses e 1 ano de idade –, dirigindo por três dias. Ficou um tempo na casa de amigos recebendo ajuda, se mudou para um abrigo para mulheres que sofriam abuso mias tarde e por fim, depois de receber várias ligações, promessas e pedidos de perdão, resolveu dar uma nova chance ao marido, onde estabeleceu que se em um prazo de um ano ele não procurasse ajuda para se tratar, não prestasse apoio no sustento de seus filhos e não deixasse de abusá-la, ela buscaria meios legais e pediria o divórcio. Ele acatou o pedido, mas o tratamento não foi eficaz e seu comportamento continuou agressivo, então, ela por fim se voltou a um Sheikh e obteve a dissolução do casamento.

Homens precisam ser nossos aliados nessa luta


Lisa, como sobrevivente, usa do poder de influência das mídias digitais e das redes sociais para prestar apoio a mulheres em situações semelhantes e fazer um apelo: “eu gostaria que houvesse mais consciência e educação na comunidade muçulmana sobre a violência doméstica, especialmente para os homens de poder e de influência, que pedem às mulheres que sejam pacientes. Eles precisam ser ensinados a lidar com essas situações. Quando um homem ouve de outro homem ‘não a oprima’, isso tem mais peso, infelizmente.” Ela disse em entrevista ao Blog Nisa Homes, demonstrando indignação quanto à ouvir “seja paciente” de vários Sheikhs até finalmente conseguir um que tenha a orientado a deixar a relação. Em entrevista ao TMV, ela reforça que “precisamos que os homens se levantem contra isso. As mulheres não deveriam estar travando essa batalha sozinhas.”

A fé, durante esse momento foi fundamental para Lisa. Ela ressalta que o abuso doméstico infelizmente atinge duas a cada três mulheres no mundo inteiro (dados da UN Women), e que isso não deve ser tratado como tabu, especialmente na comunidade muçulmana. Ela reforça e questiona: “nossa religião fala sobre o combate à opressão. Por que isso seria diferente em relação ao abuso doméstico?”. Sobre o aumento dos casos de violência doméstica na quarentena, ela enaltece as palavras do Sheikh Omar Suleiman “Nunca houve uma mulher sequer que foi ao Profeta (que a paz de Deus esteja com ele) em busca de justiça e que foi instruída a simplesmente ter paciência. Adotar essa postura como na cultura atual é retrógrado.” Por fim, ela esclarece e aconselha: “Não estou procurando, de forma alguma, a simpatia de ninguém pelo que passei. Tudo o que eu quero expressando isso ao público é que as mulheres (e até alguns homens) que passam por isso saibam que existe uma saída. Você não apenas sobreviverá, mas será melhor do que quando começou. Eu prometo. Não será um caminho fácil, mas você se recuperará e aprenderá a se amar novamente. Você precisa sair disso, mas seja esperto sobre como fazê-lo. Se aproxime de quem você confia. Você não merece isso.”

Quarentena: em isolamento com o inimigo


Já abordamos em um outro texto a imprtância do autoconhecimento e autocuidado, indispensáveis e que podem/ devem ser explorados nessa quarentena dentro de nossas capacidades. Se você conhece alguma vítima de violência doméstica ou sofre abuso em casa (espero muito que não, mas infelizmente é uma realidade próxima de todas nós), não hesite em buscar ajuda. Preocupe-se em se manter a salvo e sair dessa situação (que você de forma alguma merece, muito pelo contrário), e mais tarde, use sua experiência e toda essa energia para transformar sua própria vida. Canalize em algo que você ama, reverta a dor em amor para si e para quem lhe rodeia. Não se renda, você não está sozinha.

Em busca do final feliz: ele é possível


A Verona Collection surgiu alguns meses antes de Lisa deixar o relacionamento abusivo e todo o sofrimento causado por ele para trás. Ela conta: “foi minha saída positiva e minha fuga durante o abuso. Eu precisava ter algo próprio, ter sucesso em alguma coisa e fazer algo para capacitar outras mulheres. Esse é o meu objetivo com a Verona Collection. Da dor, ela criou sua própria cura; de uma experiência traumática, extraiu forças e coragem para não permitir que outras pessoas passem pela mesma coisa; e com os frutos de toda a sua luta, ela nos presenteia com uma marca que carrega toda uma história tortuosa que eventualmente traça um novo caminho. Ao vestir Verona, não se veste uma peça de roupa, se veste uma história. Da mesma forma, penso em cada hijabi brasileira que carrega sua identidade e uma história de superação consigo através do Hijab. Penso nas mulheres por trás da Hijab-se, sempre tão interessadas em criar um espaço para a representatividade real de outras mulheres muçulmanas. Penso no espaço que tanto lutamos para conquistar e na voz que lutamos para que seja ouvida e penso em todas nós mulheres muçulmanas. Em nós, mulheres, sem qualquer tag. Em mim e em vocês, leitoras. E fico feliz que façamos parte dessa história. Torço para que sejamos todas mulheres fortes e transformemos as experiências ruins em nossas maiores conquistas, sempre empoderando e fortalecendo outras mulheres, reconhecendo que estamos todas juntas, e assim somos mais fortes.

Exemplo? Não nos falta, do Brasil a New York.

Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.

Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.

Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah

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