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Então é Natal... E agora?

  • 24 de dez. de 2019
  • 5 min de leitura

Por Manie El Khal, 24 de Dezembro de 2019 para o blog Hijab • Se


Já é fim de ano outra vez. Correria para cá, correria para lá, vemos as pessoas que nos rodeiam se apressarem animadas com os preparativos de Natal. E como ficamos nós, muçulmanos nessa história?


Ao contrário do que se pensa pelo senso comum, muçulmanos acreditam *sim* em Jesus (que a paz de Deus esteja com ele), como Profeta e Mensageiro de Deus, além de o considerar peça fundamental da fé. Sendo assim, por qual razão não comemoramos seu aniversário? Simples: para início de conversa, nem sequer se conhece uma data certa para esse acontecimento. Além disso, o Islam preza pela consistência. Com esse princípio, espera-se que as virtudes e boas intenções exploradas na noite de Natal estejam vivas o ano inteiro na vida de um muçulmano: o respeito, o perdão, a amabilidade e gentileza não se vivem apenas uma vez no ano e devem ser celebrados sempre com atitudes.


25 de dezembro, Nascimento de Jesus. Será? Essa história já deu o que falar, passando por inúmeros marcos históricos. O Natal se iniciou cerca de 7 mil anos antes da chegada de Jesus, (que a paz de Deus esteja com ele) com origens pagãs. A celebração romana no século segundo era uma homenagem ao deus do Sol persa “Mitra” – que representava luz e benevolência – e acontecia no próprio dia 25 de dezembro durante o solstício de inverno, – o dia mais curto com a noite mais longa do ano –. Nessa comemoração, as pessoas trocavam presentes e comiam muito, o que podia durar até 12 dias. A tradição se espalhou para os mais diversos locais do globo, passando pelo Egito, China e Grécia, que faziam suas próprias adaptações culturais. Já na Europa, o culto ao deus do Sol chegou mais tarde após a conquista do Oriente Médio por Alexandre, o Grande, por volta do século 4 a.C. O cristianismo crescia na Europa e ainda havia o interesse da homenagem a Mitra, sendo assim, em 221 d.C foi feito um acordo com a Igreja e estabeleceu-se a comemoração do aniversário de Jesus na mesma data, mantendo a celebração e alterando-se o homenageado. A partir daí, existiram diversas influências de outras culturas e a presença de lendas e mitologias se fez presente na construção do conceito de Natal como nós conhecemos, assim como a atuação da revolução industrial e o próprio capitalismo.


Hoje em dia é notável uma perda relativamente alta do real significado do que deveria ser a comemoração de Natal, revelando outras facetas para a data – “natal dos amigos”, “natal dos blogueiros”, entre outras ramificações –. Percebe-se que a data é lembrada e celebrada não somente por famílias cristãs tradicionais, mas até mesmo por pessoas não religiosas, se resumindo a apenas um evento social anual onde é feita uma decoração temática – sem absolutamente qualquer relação religiosa – e trocas de presentes, sendo assim uma comemoração não necessariamente cristã.”

Controvérsias à parte, o Natal ainda assim carrega uma origem intencional nesse sentido e grande significado para famílias cristãs, famílias essas das quais fazem parte muitos muçulmanos – revertidos ou não –. Levando isso em conta, existe a intenção de que a família inteira se una nessa data por grande parte – senão a maioria – dessas famílias e isso inclui a presença dos membros muçulmanos. Deveria isso ser um problema? Tendo em vista que, como mencionamos, o Natal tem se resumido a um encontro familiar onde o carinho entre os membros – que muitas vezes é esquecido durante o resto do ano – deve ser lembrado e ressaltado, isso deveria mesmo ser visto como um problema, caso o muçulmano de família cristã participe?


Obviamente, devemos evitar e nos abster do que possivelmente possa colocar em risco nossa fé, e antes de qualquer coisa, deve-se investir no diálogo, pois existem aspectos a serem compreendidos e que devem ser cuidadosamente expostos à família no que se refere às crenças e suas diferenças. Entretanto, não significa que ao respeitar a fé alheia e marcar presença em um evento familiar, tal muçulmano concorde ou apoie aspectos da fé cristã dos quais o Islam é divergente, apenas significa que esse muçulmano tem um círculo familiar com o qual opta por manter a boa convivência – o que seria a postura esperada de um muçulmano –. Em suma, desde que se mantenha uma postura correta e saudável dentro dos limites da fé, uma demonstração de respeito aos entes queridos através da simples presença não machuca ninguém, ao contrário de conflitos desnecessários, que seriam facilmente gerados caso se optasse por se abster do ambiente familiar tradicional nessa data. Isso não torna ninguém menos muçulmano, e pelo contrário: pode inclusive surtir efeitos positivos, como levar a um maior respeito e interesse em relação ao Islam e ao muçulmano por parte da família, em retribuição à manifestação dessa atitude por parte dele(a).


Por outro lado, é importante lembrar que, se for necessário que se abstenha disso e existir a possibilidade de se compensar a falta nessas comemorações, é interessante que se faça essa compensação da melhor forma: através de palavras e gestos carinhosos, presentes fora de data, surpresas inesperadas e até mesmo um jantar em família por sua conta. Além disso, Mesquitas locais costumam ter uma programação interessante no Natal que pode agregar bastante conhecimento útil sobre o assunto.


Vale ressaltar que tudo isso não é sinônimo de que devemos fazer esforços além para participar, especialmente se não é necessário e/ ou se é nocivo para a fé desse muçulmano. Se fazemos parte de uma família que sequer faz questão da comemoração de Natal, não seremos nós aqueles encarregados de introduzir a comemoração da data, certo? Não faria o menor sentido. A ideia é manter laços saudáveis prezando pelo respeito e boa convivência, gerando correntes do bem que se estendem para além de uma simples data de origens misteriosas e significado subjetivo, e a lembrança da atitude adotada nesses momentos pode impactar quem nos rodeia por muito mais do que uma noite, mas por uma vida. Por fim, nos abstendo ou participando em respeito a quem amamos, torcemos que seja um impacto positivo, regado pela tolerância e a paz que acreditamos e buscamos implementar, começando por aqueles mais

próximos de nós!


Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se.

Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte. Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.


Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah

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