Eid Mubarak! O Ramadan não acaba por aqui
- Manie

- 24 de mai. de 2020
- 7 min de leitura
Por Manie El Khal, 24 de Maio para o blog Hijab • Se

Hoje finalizamos um período especial: Ramadan, o mês mais importante do ano, uma dádiva anual com a qual fomos presenteados mais uma vez para que possamos reestruturar nossa fé, nos tornar mais humanos e recalibrar nossos corações de modo que continuemos o resto do ano muito mais fortes. Esse ano em específico, essa necessidade se fez marcante, tendo em vista que temos sido cercados por adversidades constantes. Entretanto, a experiência de um Ramadan atípico em quarentena – sem os tradicionais encontros de família, amigos e comunidade para orações e quebras de jejum coletiva – se tornou algo a mais ao qual tivemos que nos adaptar e para grande parte das pessoas, lidar com esse distanciamento social durante o mês Sagrado foi um novo desafio.
Expectativa x Realidade
Ao início desse período tínhamos expectativas pessoais sobre o nosso desenvolvimento e progresso nesse mês, e até aqui vivemos lições, emoções e decepções com a experiência. Tudo bem, tudo isso faz parte de nós como seres humanos e não há nada de estático, quadrado e pré definido sobre o que deve ser nossa vivência pessoal com o Ramadan. É importante abraçar isso: esse é um mês em que Allah nos abre as portas do Paraíso, as portas de sua Misericórdia e as portas do Céu para nos ouvir e nos responder. Espera-se de nós abrir as portas de nós mesmos para nos conhecer, permitir que Ele cuide de nossas feridas e que estejamos abertos cultivando um espaço para que Seus ensinamentos façam morada dentro de nós. É importante nos permitir a vulnerabilidade nesses momentos, nos entregando inteiramente para Aquele a Quem pertencemos, com toda nossa presença sem qualquer filtro, incluindo nossas falhas, fraquezas e fragilidades, porque Ele é capaz de restaurá-las e nos oferece esse mês tão abençoado para cuidar de nós.
Meta: “do your best and let Allah do the rest”
(Faça o seu melhor e deixe que Allah cuide do resto)
O mês do Ramadan foi aquele em foi revelado o Alcorão - orientação para a humanidade e evidência de orientação e Discernimento. Por conseguinte, quem de vós presenciar o mês deverá jejuar, porém se achar enfermo ou em viagem, jejuará depois, o mesmo número de dias. Allah vos deseja a comidade e não a dificuldade, mas cumpri o número de dias e e glorificai a Allah por ter-vos orientado, a fim de que Lhe agradeçais.
– Alcorão Sagrado, 2:185
O objetivo principal do Ramadan, de acordo com o Alcorão Sagrado, é que além de completarmos nossos jejuns e restabelecermos uma proximidade com o Alcorão Sagrado, ao final dele tenhamos adquirido Taqwa (a consciência de Deus), e que ao alcançarmos o dia do Eid tenhamos também gratidão. Bom, mas como sabemos se o objetivo foi alcançado? Afinal, o que seria ter consciência de Deus? Simples, ter a consciência de Deus é sabemos que mesmo quando não estamos sendo assistidos, Ele nos vê, e espera que tomemos a decisão certa ao agirmos. Se percebemos que deixamos ao menos algum hábito negativo para trás; criamos um novo hábito de adoração em nossas rotinas; ou simplesmente cumprimos o que nos foi demandado nesse mês – mesmo que com dificuldades –, provavelmente desenvolvemos algum nível dessa virtude. A ideia é que façamos o melhor que pudermos dentro das nossas capacidades, tenhamos esperança de que nossos atos sejam aceitos, além da plena certeza de que cada um dos esforços feitos terá suas devidas – e imensuráveis – recompensas. E com isso, a gratidão é natural e automática. Porém, nós como seres humanos, temos nossas falhas e tendemos a permitir que a culpa nos aplique um peso por elas.
Além disso, muitas vezes vamos além das virtudes que já adquirimos com o jejum, o contato maior com o Alcorão e toda a experiência do Ramadan – a paciência, a disciplina, a empatia e cuidado pelo outro e os menos favorecidos, o perdão e a resiliência, entre outros – que acabamos por nos desatentar ao fato de que isso já é muita coisa. Isso acontece também por ser comum que estendamos nossas metas de forma específica, com listas do que faremos ou deixaremos de fazer a partir desse mês, onde acabamos nos colocando para baixo caso não alcancemos algumas delas, esquecendo que desde que o objetivo principal esteja sendo cumprido, todo o resto flui como um processo mais tarde – e é exatamente essa a ideia, não parar por aqui –.
O Ramadan vive
Devemos nos lembrar de que isso não é uma competição, e apesar de ter um início e um fim, independentemente dos resultados que obtivemos, devemos continuar buscando uma melhora constante. O Ramadan é o momento em que buscamos potencializar e impulsionar os atos de adoração e o distanciamento do que nos leva para longe de uma relação sadia com nosso Criador e nós mesmos, porém, o que conquistamos não morre com o seu fim. Se depois de muito custo conseguimos finalmente abandonar aquele vício, depois do Ramadan trabalhamos em nos manter em dia com essa conquista. Se durante esse mês conseguíamos levantar para comer antes do jejum, agora sabemos que conseguimos continuar levantando para a primeira oração do dia. Se desenvolvemos um relacionamento com Deus e com seus ensinamentos através do Alcorão, por que não estender essa rotina de leitura e aprendizado para o resto do ano? Tudo isso é possível e acabamos de provar isso para nós mesmos. Seja lá qual for o fruto dos seus esforços no Ramadan, não deixe essa essência ir embora.
“Não desespereis da Misericórdia de Allah”
Nada na vida é fácil, com suas dificuldades, desafios e provações. A forma com a qual lidamos com tudo isso é o que mais importa. Deus não possui absolutamente nenhuma expectativa sobre a nossa perfeição, porque nos criou propositalmente imperfeitos. Ele sabe que iremos errar e nos espera ansiosamente voltar a Ele arrependidos, esperançosos e determinados a mudar o que deu errado, Se alegrando quando o fazemos. Ele sabe que temos nossas falhas e facilita a nós os meios de corrigi-las, apreciando cada uma das nossas tentativas – mesmo quando também são falhas –. Ele está perfeitamente ciente de nossas limitações e não nos cobra qualquer coisa que vá além delas. Cada pessoa possui suas próprias circunstâncias, suas habilidades e seus bloqueios. E tudo bem. Ele não nos impõe uma carga maior do que podemos suportar, por que então insistimos em fazer isso conosco? Assim como ele aprecia e recompensa nossos esforços, independentemente dos resultados, que tal valorizarmos nossas tentativas e assim motivarmos nosso constante desenvolvimento? É tudo um processo gradual, que só acaba ao final da nossa vida, não ao final de cada Ramadan.
Ó Servos Meus que se excederam contra si próprios, não desespereis da misericórdia de Allah. Certamente, Ele perdoa todos os pecados, porque Ele é o Indulgente, o Misericordiosíssimo.
– Alcorão Sagrado, 39:58.
Eid Mubarak
Agora é o momento de celebrar! Isso faz parte de como completamos o objetivo da gratidão. Estamos em isolamento social mas ainda podemos comemorar à nossa forma, sem perder o espírito do Eid. Sigamos, então as tradições desse dia decorando nossas casas, tomando um belo banho, nos perfumando com nossas fragrâncias favoritas, vestindo a melhor das nossas roupas e fazendo exatamente como Deus esperava que fizéssemos: O glorificando por nos ter orientado e O agradecendo enquanto abraçamos calorosamente quem nos rodeia, seja fisicamente ou em coração - ou talvez, virtualmente, por que não?! -.
Chegamos ao Eid com a ciência de que fizemos o melhor que pudemos e teremos o melhor que Deus tem consigo como retribuição. Chegamos com a esperança de continuarmos crescendo e aperfeiçoando nossa fé até o próximo Ramadan, sempre pedindo a Ele que nos permita testemunhá-lo mais uma vez. Compreendemos que Deus valoriza nossas intenções, aprecia nossos esforços sobre os resultados e busca sempre nos manter perto, então, não nos frustremos, nem desesperemos da Misericórdia e o amor de Dele, porque como Ele mesmo nos ensina e descreve com Suas Próprias palavras, Ele é Aquele cuja misericórdia é incessante, infinita, eterna, além de extremamente acessível. Ele é Aquele que quando erramos e voltamos buscando-o em arrependimento, nos perdoa como se nunca houvéssemos errado na vida e substitui qualquer pecado por créditos e boas ações, como apreciação por não desistirmos e reconhecermos que por certo temos um Senhor a quem podemos sempre retornar. Existe alguma forma de amor mais pura que essa? Esse é o amor do nosso Criador conosco. Cada um de nós.
“Eu sou como Meu servo pensa de Mim.”
O Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja com Ele) disse: "Allah diz: 'Eu sou exatamente como meu servo pensa de Mim (ou seja, Sou capaz de fazer por ele o que ele pensa que Posso fazer por ele) e Estou com ele ao se lembrar de Mim. Se ele se lembra de Mim em si mesmo, Eu também me lembro dele sozinho; e se ele se lembra de Mim em um grupo de pessoas, lembro-me dele em uma reunião melhor (entre os anjos); e se ele se aproximar de Mim, eu vou um cúbito mais perto dele, e se ele chega um cúbito mais perto de Mim, eu vou a uma distância de dois braços estendidos para mais perto dele; e se ele vem a Mim andando, eu vou a ele correndo."
Não preciso dizer mais nada, não é? Sem palavras pra tamanho amor.
Qual a sua perspectiva de Deus? Vamos pensar Nele como Ele se apresenta a nós e sentir as bênçãos Dele nos transbordarem. Que pensemos Nele como Ele é: Allah. Nosso Criador, Aquele que nos nutre, nos sustenta, nos cuida, nos ama e todos os dias Se aproxima de nós aguardando nossa aproximação Dele. Aquele que busca qualquer mínima brecha para nos recompensar e que ao darmos um pouquinho do que temos, nos retribui com o que não podemos mensurar.
(Not) The End. O amor Divino prevalece
O spoiler é que no final das contas, Ele nos ama, Ele fica e Ele nos salva de nós mesmos. No final, o amor Dele prevalece. O Ramadan chegou ao fim, mas estamos fechando um capítulo para abrir outro, levando conosco toda a bagagem de lições e boas ações que montamos nesse mês, ao invés de fardos pelo que não fizemos. O Ramadan chegou ao fim, mas as portas do Paraíso ainda se abrem para nós; ainda temos as orações em que Ele nos dá toda a sua atenção; ainda temos todos os meios de agradá-lo disponíveis para nós a qualquer momento; ainda temos um Senhor que nos ampara e acompanha e que todas as noites (sim, eu disse exatamente isso, t-o-d-a-s a-s n-o-i-t-e-s) desce até o último céu perguntando: "Existe alguém para me invocar, para que eu possa responder à invocação? Alguém a Me suplicar, para que Eu possa lhe conceder o seu pedido? Há alguém buscando o Meu perdão, para que Eu o perdoe?"
Sim. eu e você.
Que possamos usufruir de cada momento que Allah nos permite provar a doçura do Seu amor.
Eid Mubarak! Um feliz Eid! Comemorem bastante com muito amor, alegria, fé e gratidão! ♥

Manie El Khal é Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.
Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.
Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah




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