Vem aí o mês mais esperado do ano: Ramadan
- Manie

- 21 de abr. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 24 de abr. de 2020
Por Manie El Khal, 21 de Abril para o blog Hijab • Se

Se você é muçulmana(o) ou é amiga(o) de um(a), provavelmente sabe que esse é o mês mais aguardado do ano inteiro: o mês de Ramadan. Mas, não seria o Ramadan o período de reflexão espiritual em que se renuncia a certos prazeres, inclusive de se comer e beber durante o dia? O que há nisso de tão especial? Fato, porém não se limita a isso e são inúmeras as virtudes desse mês. Nesse texto explicaremos um pouquinho do significado real do mês de Ramadan e reflexões ocultas por trás do tradicional senso comum.
O que é de fato o Ramadan?
Existem diversos significados por trás da essência e da intenção do Ramadan, assim como as bênçãos presentes nele. Tende-se a se referir a esse mês como “o mês do Jejum” por nós, muçulmanos, assim como por quem não é da fé islâmica. Mas apesar de isso ser um dos aspectos chave do Ramadan, Deus (Louvado Seja) se refere a ele da seguinte forma:
“O mês do Ramadan é aquele em que foi revelado o Alcorão: orientação para a humanidade, evidência de orientação e discernimento...” Alcorão 185:2
Foi o mês de revelação do Alcorão Sagrado: manual de instruções da humanidade como um todo, perfeitamente aplicável em sua completude e simplicidade para qualquer nação, sociedade ou época, de forma atemporal. Nesse mês, nós, que felizmente e pela graça de Deus reconhecemos a veracidade e importância desse fato, devemos voltar nossa atenção de forma mais intensa aos ensinamentos desse Livro, com a intenção de buscar a sabedoria que emana Dele para que possamos levar suas lições o resto do ano, recalibrando nossos corações.
Onde o jejum entra nisso?
Logo após nos introduzir ao mês que nomeou para carregar inúmeras virtudes, Deus o Altíssimo se refere ao jejum na sequência.
“Por conseguinte, quem de vós presenciar o mês, que jejue. Porém, quem se achar enfermo ou em viagem jejuará depois, o mesmo número de dias...” 185:2
Ao jejuar, nos privamos de comer, beber e manter relações sexuais durante o dia (quando temos condições de saúde para tal), a partir da Alvorada até o Pôr-do-Sol, podendo retomar essas práticas ao anoitecer, entre esses dois horários. Mas qual seria o segredo por trás disso? Simples: purificação. Além de benefícios para a saúde e servir para impulsionar a purificação do corpo de toxinas, o jejum tem sua função na limpeza espiritual, tirando nossa atenção de hábitos que muitas vezes usufruímos com exagero e voltando-a para lições importantes, que absorvemos melhor quando estamos mais leves. A prática do jejum causa a desaceleração de nossos vícios e compulsões habituais e gera em nós virtudes importantíssimas e difíceis de conquistar: disciplina, paciência, resiliência com o poder de reflexão para que recebamos as bênçãos do Alcorão com o solo preparado e fértil para reprodução dessas sementes plantadas em nossas almas.
É interessante refletir também, que ao nos restringirmos de hábitos lícitos e por um mês inteiro aprendermos a controlar desejos e impulsos do nosso ser, fica muito mais fácil controlar os impulsos daquilo que é ilícito. Isso não é de forma alguma uma punição, e sim um treinamento para reconstruirmos nossas forças, como um treinamento físico destrói e reconstrói a musculatura fortalecendo-a. Deus continua sobre o jejum:
“...Allah vos deseja a comodidade e não a dificuldade, mas cumpri o número de dias e glorificai a Allah por ter-vos orientado, a fim de que agradeçais.” 185:2
Por que é tão especial para os muçulmanos?
Impossível listar todas as razões em um único texto, porém, vamos lá: a atmosfera do Ramadan é indescritivelmente única. A paz, alegria, amor e esperança dentro da comunidade muçulmana é nítida, e tentamos estender isso para fora do próprio círculo, porque como Deus explica, isso é uma Misericórdia para toda a humanidade (em tempos de pandemia, isso vai ser um grande sopro de ar fresco); Durante esse mês, as portas do Paraíso são abertas, revelando de forma especial um dos atributos de Deus com sua aceitação e apreciação pelas súplicas daqueles que se voltam a Ele.
“Quando Meus servos perguntarem por Mim, por certo que Estou Próximo e Ouvirei o rogo do suplicante quando a Mim se dirigir...” 186:2
Assim, exploramos de forma mais profunda e atenciosa aspectos da fé como a oração (como meio de conexão a Ele); a reflexão (tendo em vista o estímulo dela e da razão pela fé); e a caridade (seja ela qual for, visando sempre “fazer o bem sem olhar a quem”).
Para as quebras de jejum é comum ver famílias, amigos ou até mesmo conhecidos/ desconhecidos quebrando jejum juntos, em pequenos encontros em casa ou nas Mesquitas. Talvez, agora com o distanciamento social possamos entender melhor a solidão de quem não tem com quem celebrar esses momentos, como é o caso de muitos recém revertidos. Para algumas pessoas também, as quebras de jejum na Mesquita é a única refeição do dia, e agora com nossas Mesquitas fechadas devemos fazer nossa parte para não deixar nossos irmãos com fome, seja lá quem for. Algo que me faz pensar sobre a gratidão pelo Ramadan nesse sentido é que ao jejuarmos, é intencional que possamos adquirir a sensibilidade e empatia por pessoas que não sabem de onde vem a próxima refeição, não somente por algumas horas do dia, mas muitas vezes, por semanas, meses, anos. Assim, temos esse lembrete mais vivo dentro de nós para que tomemos a frente para dar o alimento dessas pessoas, que não é nenhum favor, e sim nosso dever de conceder um direito tão básico de qualquer ser humano.
A importância de se permitir ser vulnerável
Fica claro por fim que um dos maiores objetivos desse mês é que desenvolvamos a “Consciência de Allah”. Permitir a nós mesmos que sejamos reapresentados ao Seu livro como orientação para conforto e solução de qualquer problema, seja ele individual ou social. Para isso devemos ter consciência de nós mesmos primeiramente, conhecermos nosso ser mais íntimo, nossas fraquezas, forças, inclinações e sussurros de nossas almas. Nesse momento de treinamento para “domar” o mal natural que existe em cada um de nós e enaltecimento da palavra de Deus, chegamos em um nível de autoconsciência tão profundo que chega a ser surreal e terapêutico. Precisamos então, aproveitar da melhor maneira e dentro de nossas capacidades para levar essa essência para o resto do ano e de ano em ano revivermos isso pelo resto de nossas vidas.
Nesse processo despimos nossas almas como elas são: imperfeitas, e Ele nos envolve com amor cobrindo nossas faltas. Por mais quebrados que estejamos, saímos com a certeza de que seremos fixados, de que somos aceitos, amados e cuidados por Quem nos criou e nos dá oportunidade atrás de oportunidade para o perdão e a proximidade Dele. Não existe nada mais valioso do que se sentir próximo de Quem nos criou, nos conhece em nossos mínimos detalhes e cuida de nós em cada momento. Retomar essa conexão com a certeza de que Ele irá nos atender é o que faz qualquer esforço ser mínimo. Por isso não temos o jejum, as orações, as noites acordada(os) como qualquer fardo, e sim como uma dádiva. Que a cura que procuramos nos seja concedida, que Deus nos permita alcançar o Ramadan e que as bênçãos do Ramadan nos acompanhem por toda a vida. É mais que um mês de jejum e privação, é o mês que pode mudar a sua vida. Vamos dar as boas vindas a ele juntas(os)!?

Manie El Khal é Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.
Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.
Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah




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