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Sobre o Tal do "Pertencer"

  • 11 de out. de 2019
  • 3 min de leitura

Por Manie El Khal, 11 de Outubro de 2019 para o blog Hijab • Se



Dia vai, dia vem e me encontro sempre fugindo de um padrão do qual sou refém, mas ao qual recuso me render: O tal do “pertencer”. Nos dizemos tão independentes e assíduos na missão pelo amor próprio, sem perceber que nos perdemos simultaneamente sendo vítimas da necessidade de validação externa para isso. Celebramos nossas conquistas pessoais de forma pública nas redes sociais, mas atribuímos mais ou menos valor à experiência a cada “like”. Por vezes fazemos coisas que nem sempre nos agradam e deixamos de fazer ou até mesmo de ser algo que nos faz bem para evitar ficar de fora. O pior de tudo isso é quando não percebemos e deixamos de reconhecer tal comportamento. De forma semelhante, nos últimos dias precisei me relembrar de diversos modos da minha essência, porque nessa brincadeira de dar um cheirinho para cada um, acabei a esgotando.



De fato, somos humanos, seres sociais. Desejamos viver em conjunto e estar perto de pessoas que nos fazem sentir importantes e para isso, pouco custa fazer uma coisa ou outra para conseguir tal mérito, não é mesmo? Não há nada de errado nisso, a questão implica: até onde isso é saudável? Até onde iríamos para satisfazer a sociedade? Acabamos nos submetendo frequentemente aos padrões maquiados de “liberdade” e “estilo”, sejam eles de comportamento, ideologia ou dentre os aspectos físicos do que é esperado de nós. Afinal, quem dita tais parâmetros? A quem cabe a - seríssima - responsabilidade de estabelecer o valor de algo ou alguém? Como dizem, o valor se encontra nos olhos de quem vê e ninguém jamais deveria intervir no quão importante algo deve ser para nós com base em suas opiniões.

Nós vivenciamos isso como mulheres e como muçulmanas: tentamos mostrar ao mundo que somos tão importantes e capazes quanto as mulheres que não usam o Hijab, e queremos ser tão legais quanto as blogueiras que fazem o uso da vestimenta islâmica. Isso não é tarefa fácil e muitas vezes nos fazemos acreditar que se formos um pouco menos notavelmente “hijabis” facilitaremos o processo. Pensamos que ao estilizar o Hijab - muitas vezes flexibilizando as diretrizes de uso - conquistaremos mais facilmente a possibilidade de pertencer e nos encaixar, esquecendo que essa apreciação deveria vir de dentro, o que é exatamente o que o Hijab tenta nos ensinar através de seu significado. O contrário também ocorre: muitas mulheres acabam abraçando o Hijab antes de entenderem seu processo como muçulmanas, enquanto tudo ainda se encontra muito novo e cru. Sem o preparo necessário, acabamos pulando etapas e cedendo à pressão social de aderir ao Hijab em troca da sensação de fazer parte da comunidade, sem nem entender com clareza o porquê dessa escolha, deixando assim de fazer parte de nós mesmas.


Me surpreendo com o quão nocivo é permitirmos que isso aconteça todas as vezes que me encontro em um desses ciclos e sou obrigada a me perguntar: “quem é você?!” Negligenciar nossos princípios e valores em prol da aceitação alheia é uma armadilha de auto sabotagem e nos faz esquecer quem realmente somos. É necessário questionar o mundo e questionar a si mesmo até que nos reencontremos. É fundamental nos conhecer, entender nossas próprias demandas, reconhecer nossos potenciais e fragilidades para evitar que acabemos caindo na perigosa armadilha de ser outra pessoa, ou a reprodução de uma ideia que construíram sobre nós. Tudo bem se for necessário dar um passo para trás e ver a imagem como um todo para fixar o quebra cabeça. Não há nenhum problema com você se nem todos se agradarem de suas cores e cheiros, pois aqueles que merecem fazer parte da sua vida irão amar cada um dos seus tons. Está tudo bem em ser sozinha por algumas horas, dias ou o tempo que for necessário para se descobrir. O autoconhecimento resulta em amor próprio, em autovalorização e dessa forma na experiência única e enriquecedora de viver no mesmo corpo que sua melhor companhia: você mesma.


Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se.

Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte. Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.


Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah

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