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Vivendo o Islam – uma antropóloga revertida

  • 21 de jun. de 2020
  • 5 min de leitura

Atualizado: 21 de jun. de 2020

Por Francirosy Campos, 21 de Junho para o blog Hijab • Se

Olá, leitoras(es)! Quem inicialmente vos fala é a Manie, Colunista Oficial do Blog.

Nos últimos tempos, temos movimentando o Blog produzido conteúdo a todo vapor e com muito carinho para vocês , porque o nosso propósito com essa plataforma, além de ciar um espaço para que nossas leitoras se sintam representadas como mulheres muçulmanas, é trazer conhecimento e pautas relevantes para reflexão. E como nossa intenção também é criar e fortalecer uma comunidade, estamos iniciando um novo projeto para o Blog com este texto visando mais uma vez o reconhecimento de nossas mulheres e trazendo a essa linda comunidade um pouco de suas contribuições. Convidamos uma mulher ilustre para ter sua coluna mensal no nosso espaço e esperamos que se beneficiem com toda a sabedoria que ela tem a transmitir.

Deixo com vocês a seguir o primeiro texto da série com nossa querida Dra. Francirosy Campos.

Um grande beijo a todas!

Manie ♥


Vivendo o Islam – uma antropóloga revertida


O Profeta Muhammad (que a paz de Allah esteja sobre ele) sempre repetia: "quem não agradece as pessoas não agradece a Deus", e por isso, começo este texto agradecendo à Hijab-se pelo convite para escrever para o Blog. Meu coração se enche de amor todas as vezes que posso ajudar de algum modo minha comunidade. Inicio esta linda parceria contando minha história, que pode ser a história de muitas manas, sejam elas muçulmanas revertidas ou nascidas no Islam.


Para quem não me conhece, sou Profa. Francirosy, Livre Docente no Departamento de Psicologia da USP. Sou antropóloga e desde 1998 pesquiso comunidades muçulmanas no Brasil. A pesquisa me levou a descobrir o amor pelo Islam e nesse processo foram 15 anos de pesquisa de campo, passando pelo mestrado, doutorado e concurso para docente da USP para me decidir com convicção pelo Islam. Sempre fui uma pessoa devota a Deus mas ainda não compreendia o Islam para vivenciá-lo. Cada livro que lia, cada palavra que ouvia, cada conversa com Sheik Jihad Hassan Hammadeh ,mais eu tinha certeza do meu caminho, mas adiava este dia por medo, por receio da não aceitação da família e dos amigos, e também porque a vida muitas vezes foi bem difícil em todos os sentidos.


Deus Encaminha quem Ele quer


Deus sabia e eu sabia, mas o tempo é quem diria quando e como. Muito tempo mais tarde - em 2013 - alguns episódios me sondaram. Era 25 de março de 2013, data em que comemorava 15 anos de pesquisa de campo. Para isso, enviei aos meus alunos-orientandos um poema que escrevi para minha tese de doutorado defendida em 2007 e um dos meus alunos me escreveu dizendo que precisava falar comigo naquele dia. Foi à minha sala e me disse que tinha sonhado que escrevia um artigo sobre o poema de um grande pesquisador do Islam e quando abriu seu e-mail encontrou uma mensagem minha com um poema. Então me perguntou: você nunca pensou sua relação com Islam? Já pensou em se reverter? Sorri e apenas disse que pensava nisso todos os dias.


Na mesma semana uma discussão em grupo do Facebook me chamava atenção: um muçulmano dizia – de forma isolada e fora do contexto – que não poderia rezar por não-muçulmanos quando esses morrem, e a discussão foi longa. Eu observava aquilo e pensava: será que toda vez que peço ao Sheik Jihad para rezar por mim, ele não reza porque não sou muçulmana? Foi então que resolvi mandar um MSN a ele e naquela época, quando ele não respondia, eu já sabia que a resposta era longa. Chegando na USP liguei para ele, que atendeu: Bom dia Dra! Respondi: Bom dia, Sher, então você não reza por mim? Não pode? E ele completou: Franci, faz algo para o meu coração, faz a shahada! Esta foi a única vez na vida que ele me fazia este pedido. Eu respondi: precisamos conversar, preciso de cinco horas sem que você atenda o telefone... Nosso encontro presencial não teve tempo, um mês depois eu enviava uma mensagem no Twitter e dizia a ele: Está pronto para ouvir a minha shahada? E fiz no Twitter repetindo uma semana depois em São Bernardo do Campo, depois das cinco horas de conversa.


A felicidade que sentíamos vinha acompanhada de medo e receio das pessoas não entenderem essa escolha. Pedi ao Sher para não contar a ninguém, visto que eu precisava processar tudo aquilo, e claro que nem ele aguentaria muito tempo esta notícia. Aos poucos passei a contar só para quem o meu coração sentisse sintonia, e assim foi e tem sido. Tive que mobilizar muitas coisas internamente – sou antropóloga que estuda o Islam, então me tornaria “nativa”. Mudo de lugar, como manter a análise crítica? Tudo isso foi muito bem pensado, e quem me conhece sabe, que não perdi meu olhar crítico e analítico.


Processo


Levei seis anos para colocar o lenço, que também foi fruto de muita reflexão interna, reflexões sobre prós e contras. Reflexões sobre corpo, beleza, cabelo e devoção. Nunca aprovei a ideia de tirar e colocar, nunca gostei de me sentir “fantasiada”, colocar em determinadas situações e em outras estar sem. O lenço exercia sua função apenas no momento de oração. Conversei com meus filhos, com algumas pessoas da comunidade, com o Sheik, e fui alimentando esta vontade, até que certo dia ao sair para ministrar uma palestra sobre Ciências Islâmicas na Faculdade de Direito da USP me olhei no espelho e disse para mim mesma que faltava algo. Foi então que coloquei o lenço e nunca mais o tirei. Não estava mais mobilizada pela emoção e sim pela razão e o sentido dado a tal experiência de devoção. Na verdade, esta sempre foi a recomendação do Sher:


"não coloque sob a emoção, mas sim, depois que a razão se sobreponha".


O lenço não tira nosso potencial, tampouco nossa beleza. O Hijab nos faz lembrar diariamente que não somos perfeitas, que erramos e precisamos melhorar. Toda vez que faço algo que me arrependo lembro que ele é o sinal do meu pertencimento, da minha devoção, da minha finitude. Allah é Suficiente para todos os nossos assuntos. E quando a incerteza e a tristeza vêm, lembro-me do Hajj (peregrinação a Meca) e da força que foi peregrinar. Muitas vezes sentia-me sozinha, mas sabia que agora em diante nunca mais estaria. Sei que Allah me ouve e se não me atende é porque ainda não chegou a hora.


Que Allah (Louvado Seja) abençoe a todas(os) as leitoras(es).

Assalamu Alaikum (que a paz de Deus esteja sobre vocês).


Francirosy Campos Barbosa é antropóloga, Livre Docente no Departamento de Psicologia da USP Ribeirão Preto, pós-doutora pela Universidade de Oxford sob orientação do professor Tariq Ramadan, coordenadora do GRACIAS – Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes. Autora do livro: Performances Islâmicas em São Paulo: Entre Arabescos, Luas e Tâmaras, 2017. Diretora dos documentários: Allahu Akbar, Vozes do Islã, Sacríficio, Allah; Oxalá na trilha Malê (todos disponíveis no vimeo.)

Acompanhe pelo Instagram: @francirosy_campos

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