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Atualizado: 30 de out. de 2019


Por Manie El Khal, 27 de Setembro de 2019 para o blog Hijab • Se


Século XXI: modernidade, avanços tecnológicos e tantos outros progressos caracterizam a sociedade atual. Hoje em dia nos encontramos em termos de imediatismo, onde facilmente conseguimos o que queremos em questões de minutos, entregues até a porta de nossas casas – itens dos quais nos fazemos dependentes e que são em sua maioria desnecessários, vítimas de uma obsolescência programada, logo se tornando ultrapassados criando em nós uma nova ansiedade pelo novo, com o qual nunca estaremos satisfeitos –. Compramos para suprir vazios e nos comparamos – em termos estéticos, de conquistas, posse e status – com o máximo de pessoas com quem nos conectamos através da internet – onde falhamos em realmente nos conectar –, cuja tecnologia permite que a distância e o tempo se tornem incógnitas insignificantes sob nosso controle. Temos acesso a todo tipo de informação global em tempo real e compartilhamos das dores do mundo, até nos tornarmos insensíveis a elas ou engolidas por elas. Esses e muitos outros fatores sociais – junto a fatores genéticos e pessoais – facilitam a preparação de um solo propício a gerar um dos maiores males do século: a depressão.


Conversamos com Amira Mohamed El Hindi, Psicóloga, pedagoga e pós-graduanda em neuropsicologia sobre o tema e ela explica que “a depressão é uma doença psiquiátrica crônica, na qual a alteração do humor é caracterizada por uma tristeza profunda e desesperança, levando o indivíduo a ter prejuízos funcionais significantes na sua vida diária. A doença pode ser manifestada por fatores sociais e genéticos e pode ser classificada em diferentes níveis.” A depressão não se limita à tristeza e pode se manifestar de diversas outras formas, fazendo a pessoa “perder o interesse e motivação para realizar atividades que antes lhe traziam prazer, tendo alterações no apetite, no sono, na autoestima... O que refletirá diretamente em seu comportamento diário, fazendo com que o indivíduo se isole e muitas vezes não consiga motivação nem para seu autocuidado.” Conta a psicóloga.


Nessa era da informação onde todo e qualquer assunto é digno de discussão, seria irônico que um tópico tão pertinente como a depressão fosse ainda um tabu. Infelizmente, essa é a realidade. Na sociedade ocidental, inclusive no Brasil, muitas vezes é visto como “frescura”, já dentro da comunidade muçulmana, em diversos casos têm-se a depressão como “falta de fé” ou consequência de algo ruim que um indivíduo tenha cometido, por influência de pensamentos culturais tradicionais antigos. Dessa forma, grande parte das vítimas da doença optam por enfrentar o problema sozinhas, tendo como consequência a intensificação do problema, muitas vezes levando a resultados trágicos. Amira comenta que “o Brasil é líder em casos de depressão na América Latina, e ainda assim é um tabu falar sobre esse tema. O posicionamento do Blog em tratar desse tema é muito importante, pois as pessoas precisam entender que depressão é uma doença que tem tratamento e em que não precisam sofrer caladas”. Dificilmente uma pessoa com a doença consegue pedir socorro, porém, fazem-se nítidos os sintomas da doença, como alterações de peso, humor e sono, baixa autoestima e libido, além de choro constante, fadiga, perda de

energia e automutilação, por exemplo. Na manifestação destes, perceptível por membros da família e pessoas próximas, é ideal que se busque oferecer ajuda, ser um bom ouvinte, evitar julgamentos, além de buscar a ajuda de um profissional para o tratamento do paciente. É de extrema necessidade se atentar aos sinais e nas alterações de comportamento mencionadas, pois quanto mais cedo for feito o diagnóstico, mais fácil será ajudar e evitar que haja um agravamento dos sintomas e o desenvolvimento da doença. Amira menciona que “um fator importante nos casos de depressão grave são as queixas que são verbalmente expressadas, porém em sua grande maioria, ignoradas. São pedidos de ajuda que acabam sendo erroneamente descartados”.


O ponto de vista islâmico sobre o assunto jamais foi algo que incitasse ideias de exclusão como é erroneamente feito muitas vezes. No Alcorão Sagrado, múltiplas passagens tratam sobre episódios que envolveram profunda tristeza dos Profetas, sendo eles os mais excelentes em fé. O historiador canadense Hassam Munir nos conta algumas das pioneiras contribuições dos muçulmanos para o tratamento da doença: as primeiras instalações europeias de saúde mental foram estabelecidas em cidades espanholas governadas por muçulmanos, onde tratavam pacientes de qualquer nacionalidade, raça, gênero e religião. Ao final dos anos 800, Ishaq ibn Imran escreveu o mais antigo conhecido trabalho dedicado ao assunto, incluindo 180 tratamentos medicinais – 50 deles usados até hoje –. Em 934, Abu Zayd al-Balkhi foi o pioneiro no campo de psicoterapia para o tratamento da doença. Além disso, o fato mais interessante é que em 1669, Aziza Uthmana, uma mulher filontropista muçulmana fundou o primeiro hospital moderno em Tunis, dedicado ao tratamento de pacientes com depressão.


Durante minha adolescência, quando iniciei meus estudos sobre o Islam, sofria de depressão grave e encontrei uma cura e tratamento para o problema exatamente dentro da religião. Ironicamente, lembro-me de ter assistido um vídeo de um Sheik dizendo que no coração de um muçulmano jamais poderia coexistir a fé e a tristeza, sendo assim a tristeza um sinal de baixa fé. Na época, acreditei e por muito tempo passei a reprimir qualquer tipo de manifestação da doença em mim, o que só piorava o problema. Anos mais tarde, vi o mesmo Sheik corrigir seu posicionamento anterior – assim como muitos outros sábios – e estimulando a busca por um profissional. A depressão na comunidade islâmica é tão comum e normal como em qualquer outra e jamais devemos fazer alguém com a doença se sentir inibido, reprimido ou excluído e agravar sua situação, muito pelo contrário. “Há vários estudos que demonstram que a religião auxilia muito na depressão, pois nesta doença o sentimento de desesperança e perda do sentido de vida são intensos. Com a fé é possível trazer de volta a esperança e o sentido de vida, estabelecendo metas de vida que vão ao encontro de suas crenças e valores. A religião promove o bem estar psicológico, hábitos saudáveis, menos pensamentos negativos e suicidas,” Conta a psicóloga Amira. Vale ressaltar que embora a religião possa nos fortalecer espiritualmente e favorecer o tratamento e cura da doença, é extremamente necessário um acompanhamento médico profissional. Para finalizar, como mencionado, o Alcorão retrata vários incidentes em que a tristeza e a depressão foram presentes na vida dos Profetas, os seres mais especiais a pisar no Universo. O que nos faz diferente deles? Nos é narrado como cada um deles superou todos os obstáculos e desafios externos e internos, exatamente para que os tomemos como exemplo e encontremos conforto: nunca estivemos sozinhos e com Ele, também podemos superar qualquer coisa, inclusive a depressão.


Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se.

Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte. Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.


Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah

 

Atualizado: 31 de jul. de 2020

Por Manie El Khal, 16 de Agosto de 2019 para o blog Hijab•Se

Você já se viu indo a lugares que não queria e foi só porque todos os seus amigos estavam indo? Já passou horas no Feed de alguma rede social em busca de infinitas novidades? Já se viu comparando sua vida com a de outra pessoa nas redes sociais e se arrependeu das suas escolhas porque as do outro lhe pareceram mais interessantes? Se sim, é bem possível que você seja vítima do FOMO.


O que é o “FOMO”?


Sigla oriunda do Inglês: “Fear of Missing Out”. Traduzindo, medo de ficar de fora ou de perder alguma coisa, normalmente relacionado à vida social. O FOMO é uma síndrome de ansiedade social e quem sofre disso se vê constantemente querendo estar em vários lugares ao mesmo tempo, com a impressão de ter feito a escolha errada e com medo de uma exclusão social. É muito semelhante ao FOBO: “Fear of Better Opportunities”, ou “medo de melhores oportunidades”. É como se precisássemos agarrar toda e qualquer oportunidade – inclusive e muitas vezes *especialmente* aquelas que não temos – com medo de perdê-las e nunca conseguirmos algo semelhante. Além disso, vítimas de FOMO tem um grande medo de que outras pessoas estejam vivendo experiências melhores que si, junto a uma crença de que não fazer parte dessas experiências possa ter consequências de aceitação.


Esses sentimentos levam o indivíduo a pensar no que deveria estar fazendo ao invés de viver a experiência atual. Além de se preocupar com atividades e obrigações já existentes no dia-a-dia, o subconsciente de quem lida com FOMO adiciona um stress comparativo sobre o que não está sendo feito e outras pessoas possivelmente estão fazendo. Dessa forma, um grande esforço desnecessário é feito para buscar experiências que muitas vezes não tem relevância real para o indivíduo, além de fazê-lo deixar de aproveitar o momento para ver o que outras pessoas estão fazendo ou postar algo relacionado nas redes sociais, por exemplo, apenas para não ficar de fora.


Isso basicamente se resume naquele velho ditado de que “a grama do vizinho é sempre mais verde”. Na tentativa de evitar perdas, deixa-se de curtir e cultivar o momento presente pensando em outras atividades e como seria se houvesse sido feita outra escolha, perdendo-se assim o “aqui” e o “agora”.


O que nos leva ao FOMO?


O “Fear of Missing Out” é muitas vezes abordado como a “Síndrome do Instagram”, porém, apesar de ser impulsionado de fato pela ferramenta caso usada incorretamente, não se limita a ela. As mídias sociais em geral intensificam a Síndrome, mas não foram as responsáveis por originá-la, apenas mostrando uma sombra que já existia.


Apesar de possuir semelhanças com outras síndromes e compartilhar de características relacionadas ao ego humano, a FOMO é mais profunda e complexa e em muitos casos pode ser consequência de um trauma processual na infância, onde eram moldadas e suas escolhas desconsideradas ou vistas com desaprovação com frequência, Ao chegar na adolescência ou fase adulta, têm-se indivíduos cuja necessidade de escolha passa a assustá-los, gerando assim pessoas indecisas e nelas, uma intolerância ao sentimento de arrependimento.


Nem sempre esse processo é algo resultante de um fundo familiar, mas de um distanciamento cultural generalizado que nos torna presos a viver em uma espécie de “espelho social”, em que o outro reflete de volta a nós o que seria o “normal”, criando uma repetição de comportamentos alheios dentro de um padrão preestabelecido. Com um aumento exagerado de opções e escolhas apresentadas às novas gerações desde o estilo de vida da Revolução Industrial, nossa vida se encontra repleta de variáveis e com menos certezas.


Muçulmanas e o medo de ficar de fora


Infelizmente, não ficamos de fora da FOMO. Apesar de aprendermos através da fé que nosso valor se expressa por meio de nossa essência e que somos muito mais do que aparentamos ser, é um enorme desafio se esquivar do espelho social e nos enxergar com as lentes corretas. Inevitavelmente acabamos caindo em Síndromes sociais como essa, nos comparando com blogueiras de Hijab no Instagram ou comprando o novo produto que alguma delas sugeriu, mesmo sabendo que não precisamos dele. Dizem que no “Instagram muçulmano” as pessoas estão sempre em um casamento ou estão se casando. E quanto aos solteiros, que vivendo em locais de minoria muçulmana – como o Brasil, por exemplo – parecem nunca encontrar seu “par perfeito”? O medo de ficar de fora pode levar a buscar alguém na internet e possivelmente acabar numa fria, em uniões mal planejadas fadadas ao fracasso, ou até mesmo relações ilícitas. Há ainda o FOMO das viagens, em que vemos todos felizes com suas deslumbrantes fotos em locais cheios de glamour como Abu Dhabi, por exemplo. Mas e a viagem dos sonhos para Makkah e Madinah? Ou para o lindo Egito? Ou até mesmo para aquela cidadezinha charmosa dentro do próprio país? Temos duas opções: viver os nossos sonhos com as oportunidades ao nosso alcance ou nos esforçar além para viver uma projeção de sonhos alheios.


Como superar o FOMO e o FOBO?


1. Descubra e enfrente a raiz do problema. Como dizem, “reconhecer é o primeiro passo para a mudança”. Treine-se para ter disciplina e evitar o que lhe intriga e causa ansiedade. Isso – muito provavelmente – pode incluir as redes sociais.


2. Questione-se. Por que razão fazemos o que fazemos? Devemos encontrar nosso propósito e quem realmente queremos ser e utilizar nosso tempo e recursos de forma a refletir tais escolhas. “Que tipo de vida quero viver?” Saiba ouvir essa resposta sem influências externas e reorganize sua vida ao redor disso.


3. Aprenda a dizer não e não tenha medo de fazê-lo. Principalmente quando for algo do qual a fé nos oriente a nos abster. Isso pode ser um grande aliado e lhe poupar perdas: de tempo, dinheiro e felicidade.


4. Tenha Tawwakul (confiança no destino): Grande parte do FOMO é gerado por ansiedade, pressa e urgência de resultados sobre coisas que desejamos. Como o exemplo do casamento, devemos nos recordar de que tudo tem seu tempo e o que estiver planejado em nosso destino, acontecerá no melhor momento e da melhor forma. Certamente devemos nos manter em dia com nossa parte e fazer sempre aquilo que nos aproxima de quem queremos ser, mas o resto da equação consiste em confiar Naquele que planeja sempre em nosso favor: Allah (Deus).


5. Priorize as coisas certas. Propósito sobre produtividade forçada. Faça por paixão e realização, não por status social.


6. Siga seus sonhos um por vez, dando um passo de cada vez. O que realmente gostaria de fazer e evita por insegurança? Quais são essas inseguranças? Nade contra a maré e seja autêntica(o).


7. Viva o momento. Ninguém pode fazer tudo e estar em todos os lugares ao mesmo tempo e isso inclui você. Manter o celular desligado e/ ou notificações desnecessárias desativadas é de grande auxílio.


8. Aceite o fato de que sempre estaremos de fora de algo. Isso se aplica a todos nós, sem exceção.


JOMO: Joy of Missing Out


Em contrapartida, existe a “JOMO”, ou alegria de ficar de fora. É tudo sobre como projetamos e exercitamos nossa mente. Lembre-se de que o FOMO ocorre quando perdemos o controle da mente, então, tome seu poder de volta. Não precisamos dar conta de tudo e se focarmos no que estamos fazendo

naquele momento, faremos tudo com excelência e receberemos a satisfação de uma experiência significativa e bem vivida. A JOMO anda de mãos dadas com a apreciação e gratidão: o oposto do que ocorre no FOMO. É como olhar da perspectiva do copo na metade estando meio cheio: ao invés de olharmos o que falta, apreciamos o que temos naquele momento.


Como diria a autora renomada Teal Swan: “Você precisa reconhecer e ver até que ponto está vivendo sua vida por obrigação. Você deve estar vivendo sua vida de acordo com o que decidiu que deveria fazer e se o que decidiu é certo e positivo naquele momento em particular. Você não deve se preocupar em fazer o melhor para manter sua conexão com pessoas que não aceitam quem você realmente é, em primeiro lugar.” Dessa forma, se rodeie de pessoas compatíveis e que o fazem se sentir bem, com quem você não sinta a necessidade de vestir máscaras ou fazer algo que não queria para pertencer.


Vale ressaltar, por fim, que o medo é sobre o que pode ou não acontecer, ou seja: algo futuro. Em outras palavras, diz respeito a algo que ainda não aconteceu e algo que *não existe*. Não há nada a se perder nessa vida: a vida acontece para todo mundo. Onde estamos é exatamente onde deveríamos estar e nossas escolhas nos trouxeram até aqui, então certifique-se de escolher com sabedoria. Não existe qualquer necessidade de nos definirmos com base em comparações, pois cada um de nós está em uma jornada pessoal, única e distinta. A ideia de sucesso atual é simplesmente “estar melhor de vida” que outra pessoa, o que basicamente significa que assim estamos apenas celebrando fracassos alheios, e não conquistas pessoais. Fuja disso.


Se deixamos nas mãos do mundo a decisão sobre quem devemos ser e o que fazer, entraremos em um ciclo nocivo de insatisfação e ansiedade. Como diria o sábio autor indiano SadhGuru: “o que ocorre dentro de você deve ser determinado por você.”


Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab•Se.

Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte. Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.


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