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BLOG

Atualizado: 27 de jul. de 2020

Por Francirosy Campos Barbosa, 12 de Julho para o blog Hijab • Se

Bismillah al Rahman al Rahim,

Assalamu Aleikum Wa Ramatullahi

Wa Barakatuh.


Um dos temas que sempre geram muita curiosidade de muçulmanas(os) e não muçulmanas(os) é sobre o casamento e o namoro no Islam. Sobre isso já escrevi, orientei pesquisas, produzi um documentário, principalmente porque na última década vimos crescer o número de casamentos interculturais (especialmente de mulheres brasileiras com homens estrangeiros muçulmanos) assim como a problemática da ideia de um “príncipe encantado muçulmano”, resquício da telenovela O Clone.


A pergunta que sempre fazem aos Sheikhs em palestras, post em redes e etc. é se homens muçulmanos podem se casar com mulheres não muçulmanas. Há duas semanas em uma página do Facebook li pela enésima vez a pergunta sobre a permissão de um homem muçulmano casar-se com uma mulher não-muçulmana. A maioria respondeu de forma enfática: sim, pode se casar com mulheres do livro (cristãs e judias). A resposta não está errada, mas certamente está incompleta. A resposta mecânica para tudo que diz respeito à religião sempre me incomoda, porque a pergunta que fica é: se o homem casa com uma cristã/judia, a quem ficam os cuidados de ensinar a religião aos filhos? A esta pergunta não souberam responder de forma a me convencer, mas nesta semana assisti a uma Live com o Sheikh Ali Abdouni, presidente da WAMY (Assembleia Mundial da Juventude Islâmica), sobre casamento – namoro no Islam e lembrei de fazer esta pergunta a ele, o que fiz no dia seguinte à Live.


Ele confirma o que já sabemos sobre a autorização de casar com mulheres do livro, mas reitera: “Não basta serem seguidoras do livro!”. Há regras na jurisprudência islâmica que são consensos, e que pouco são exploradas:

1) Os homens devem educar seus filhos no Islam, e isso deve ser avisado para a esposa antes do casamento, para que ela esteja ciente e possa fazer sua escolha levando isso em conta;

2) Devem estar num país onde as leis estejam a favor de que os filhos fiquem com o pai muçulmano se houver separação;

3) Ele deve conhecer o Islam a ponto de saber divulga-lo/ ensiná-lo à sua esposa e educar os seus filhos;

4) Ela deve ser seguidora do seu livro sagrado e deve conhecer a sua religião para que possa comparar com o Islam de forma racional.


O que compreendi com a nossa conversa é que a educação religiosa é obrigação no Islam, pois caso o pai não eduque seus filhos na religião, estará pecando. Outro dado importante é que o sobrenome dado à criança é sempre o do pai, demarcando a linhagem paterna a qual pertence àquela criança. As mulheres quando se casam não precisam receber o nome do marido, permanecendo com o seu nome de família original. O casamento de um homem muçulmano com uma mulher cristã ou judia em um país islâmico assegura a permanência dos filhos na religião, pois o reconhecimento do nome de família é imediato.


No Brasil, não é simples garantir esses pontos, por isso, quase sempre, casamentos desta natureza acabam não facilitando a educação religiosa dos filhos no Islam. Apenas em casos em que as mulheres se reverteram por convicção à fé conseguimos constatar a garantia da transmissão religiosa. Por outro lado, uma das obrigações do marido muçulmano é garantir o conhecimento da sua esposa, porque há obrigatoriedade dos homens frequentarem a salat jummah (oração da sexta-feira, em congregação), e às mulheres é facultativa a ida à Mesquita. Por fim, o Sheikh confirma a importância de mulheres judias ou cristãs conhecerem bem a sua religião para poderem comparar seus conhecimentos ao Islam e saber distinguir os pontos de cada uma.


Todo este ensinamento elucida os requisitos para o casamento com uma não muçulmana. Compreende-se, portanto, que não basta consentir um casamento com uma mulher do livro, se não se preenchem esses quatro pré-requisitos. Por isso, quando não se cumprem esses pontos estabelecidos, alguns Sheikhs preferem não realizar tal casamento. Desta forma acreditam estar preservando os ensinamentos corretos da religião.


O casamento é um tema importante no Islam como demonstra o hadice do Profeta Muhammad (SAAS), que disse:

“A pessoa que se casa ganha metade da sua Fé, então, ela deve temer a Deus na outra metade”.

Este hadice deixa claro que se manter na religião não é fácil, por isso, o casamento é colocado como metade da fé, porque o fiel exercita diariamente sua fé tendo que (con)viver com um outra pessoa.

O casamento como qualquer coisa que seja feita no Islam, não pode ser feito sobre emoção. É fundamental o uso da razão, por isso, se busca sempre os conselheiros, testemunhas e há vários ensinamentos que demonstram o quanto é importante reconhecer nas mulheres crentes o seu maior tesouro para um casamento feliz, como é possível destacar em outro hadice do Profeta SAAS:


“As mulheres podem ser desposadas por quatro coisas: por seus bens, pela linhagem (à que pertencem), beleza e comprometimento religioso. Escolhe a que é comprometida religiosamente, que tuas mãos sejam esfregadas com poeira (ou seja, que tu prosperes).

Narrado por al-Bukhari, 5090; Muslim, 1466.

Que os homens possam encontrar em suas esposas o exemplo de Khadija e Aishah (esposas do Profeta, que Allah esteja satisfeito com eles) e que mulheres possam encontrar em seus maridos o modelo do Profeta Muhammad (SAAS).

Que Allah guie a todos e nos abençoe!



Francirosy Campos Barbosa é antropóloga, Livre Docente no Departamento de Psicologia da USP Ribeirão Preto, pós-doutora pela Universidade de Oxford sob orientação do professor Tariq Ramadan, coordenadora do GRACIAS – Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes. Autora do livro: Performances Islâmicas em São Paulo: Entre Arabescos, Luas e Tâmaras, 2017. Diretora dos documentários: Allahu Akbar, Vozes do Islã, Sacríficio, Allah; Oxalá na trilha Malê (todos disponíveis no vimeo.)


Acompanhe pelo Instagram: @francirosy_campos

 

Atualizado: 12 de jul. de 2020

Por Manie El Khal, 05 de Julho para o blog Hijab • Se

Sempre fui uma garotinha com gosto pelo conhecimento e a leitura. Minha mãe, uma marroquina morando no Brasil – na época, há 12 anos –, implementava perfeitamente bem o princípio islâmico do estímulo à busca pelo conhecimento ao alfabetizar sua caçulinha aos 4 anos de idade. Desde então, cada livro que encontrava em casa era logo um livro que eu rapidamente “engo(lia)”. Me lembro de uma tarde chuvosa em que me sentei ao lado dela e escolhi um livro de capa arroxeada na nossa estante. Era um livro infantil, porém didático, abordando as questões do meio ambiente, efeito estufa e aquecimento global. Naquele momento, ainda sem muito conhecimento de como funciona o mundo e a cadeia sistêmica que o (des)ordena, senti um enorme desconforto e a necessidade de fazer algo pelo planeta. Era uma criança de mente ainda crua e pouco conhecedora das dimensões do Universo, porém, naquele momento, já tinha a plena noção de que o que o ser humano estava fazendo com o mundo, não era certo.


Sonho de vida americano* ou pesadelo mundial?


Somos 7,8 bilhões de habitantes no mundo espalhados pelo globo, divergindo em culturas, hábitos, formas de viver e produzir. Dentro de um único núcleo familiar existem diferenças, que dirá analisar esses aspectos em uma escala global. Contudo, desde que a globalização – com seus prós e contras – se tornou dominante, replicamos em todas as partes do mundo, hábitos e formas bastante similares de se viver e produzir. Antigamente, os seres humanos produziam seu próprio alimento e viviam de forma simples, porém com o tempo, – em especial a partir do contexto da Revolução industrial –, substituímos as pessoas por máquinas – ou mão de obra escrava –; a produção em mínima escala pela produção em massa; atrelamos isso ao capitalismo sempre visando o lucro e utilizamos da obsolescência programada para manter as pessoas sempre consumindo. A ideologia pregada desde então tem sido fundamental para criar em nós a normalização desse novo estilo de vida, removendo de nós a individualidade, fazendo com que repliquemos comportamentos e ideais padronizados – por quem? Eis a questão – e nos tornando completamente dependentes desse sistema.

Mas o que isso tem a ver com o meio ambiente? Hmm... Tudo.


Nosso planeta, nosso ritmo, nossas regras


Somos 7,8 bilhões de pessoas alimentando um sistema que é absolutamente agressivo e nocivo ao planeta. Historicamente “conquistamos” cada pedacinho da Terra e em grande parte dos territórios dos quais nos apossamos, implementamos cidades cada vez mais adensadas e verticalizadas em substituição à fauna e flora nativas preexistentes. Com a migração das pessoas às cidades através do êxodo rural, passamos a produzir alimentos de forma industrializada e tóxica, onde até mesmo os alimentos naturais seguem uma cadeia controlada pelo ser humano, em que a natureza é refém e forçada a obedecer à constante demanda – que é absurdamente maior do que a capacidade do ciclo natural de produção –.


O mesmo acontece com a pecuária. Os animais são sujeitos a formas insalubres de crescimento, sem o tempo e as condições necessárias para viverem e se desenvolverem naturalmente. São tidos como mero produto de consumo e finalmente mortos de formas cruéis – o que inclui baleamento cerebral, golpes de marreta, choques na cabeça e atordoamento elétrico –. Quanto aos animais não usualmente tidos como alimento: destruímos seus habitats, os traficamos ilegalmente, os caçamos por mera diversão, criamos espetáculos caríssimos com rinhas e lutas, lucramos com seu sangue sofrimento... O que em uma escala mais próxima, se estende à violência animal nas ruas – envenenamento, atropelamento, agressões e etc. – ou até mesmo às péssimas condições de vida e reprodução forçada que são submetidos para que possamos comprá-los como animais de estimação. (Por isso, não compre, e sim adote de forma responsável. Por favor.)


Para onde estamos indo?

“Assim, pois, aonde ides? Certamente, isto não é mais do que uma mensagem para o Universo, para quem de vós quiser se encaminhar.”

Somos 7,8 bilhões de pessoas. De acordo com dados da ONU, produzimos cerca de 1,4 bilhões de toneladas de resíduos sólidos anualmente. Por dia, isso se resume a uma média de 1,2kg por pessoa – o que na prática, pela desigualdade econômica varia para muito mais ou muito menos –. Quase metade dessa quantidade tem origem em menos de 30 países, os mais “desenvolvidos”. Também, segundo a ONU, em dez anos alcançaremos 2,2 bilhões de toneladas anuais e seguindo esse ritmo, ao chegarmos aos 9 bilhões de habitantes – o que é previsto para meados de 2050 –, ultrapassaremos 4 bilhões de toneladas de lixo por ano.


Descartamos muito pois consumimos muito e porque se produz muito lixo desnecessário com embalagens e afins. Se produzem coisas sem margem para uma reutilização eficiente. Se produz propositalmente já visando a data de validade e essa estratégica básica de garantia de consumo tem nome e sobrenome: obsolescência programada. Para onde vai esse lixo? Apenas uma parcela mínima de toda essa quantidade de resíduos é reciclada e ainda assim, para esse processo existem impactos na natureza. E quanto ao que não é reciclado? Quando é dada a destinação correta a esses resíduos, menos mal, mas ainda assim, mais uma vez, existem impactos para a saúde dos profissionais envolvidos, de quem trabalha ou mora relativamente próximo a um aterro sanitário, assim como à fauna, flora e etc, pela geração reativa de gases tóxicos, por exemplo. Os aterros sanitários sofrem superlotação com frequência, e não é como o nosso ficheiro de lixo dos eletrônicos, em que apertamos deletar tudo e num passe de mágica aqueles arquivos não existem mais. Na vida real, a destinação final, nem sempre é a final, levando décadas para que os resíduos se decomponham e mais para que a natureza se regenere.

“Comei e bebei, mas não vos excedais. Por certo, Ele não aprecia os que se excedem.”

Reféns da própria destruição


7,8 bilhões de pessoas explorando recursos naturais renováveis e esgotando recursos naturais não renováveis. Isso, sem contar com o lixo que descartamos em mares e rios, a quantidade de poluição atmosférica que geramos diariamente com automóveis, o óleo que vazamos em oceanos, as serras que exploramos com mineração até o rompimento de barragens com detritos altamente contaminantes, as florestas que desmatamos, queimamos enquanto nos deleitamos na constante evolução humana. É mesmo? Será que somos mesmo tão desenvolvidos assim? Ou vivemos um constante retrocesso mascarado por um conceito ilusório de desenvolvimento? Evoluímos tecnologicamente, cientificamente, em nossas teorias, avanços e movimentos sociais, mas ainda estamos estagnados no mesmo lugar, onde prevalece a desigualdade, a injustiça, o preconceito, a corrupção, a natureza como refém, Deus como uma “lenda antiga” e o ser humano como soberano. Esse é nosso mundo hoje.


A organização mundial da saúde (OMS) considera as mudanças climáticas como a maior ameaça à saúde mundial do século XXI, e segundo a Organização, o aquecimento global será a causa de 250 mil mortes adicionais por ano até 2030. Os últimos dias têm sido marcados – por além de uma pandemia – também pelo aumento significativo de desastres naturais em todo mundo de forma simultânea, desde as queimadas por ondas de calor, à elevada quantidade de aves e mamíferos mortos sem razão aparente, ou as não usuais erupções de vulcões adormecidos, terremotos de magnitude elevada, ciclones, temperaturas altas no Ártico – causando o descongelamento de geleiras – e nevascas em territórios de clima tropical, como os 20°C negativos que açoitaram a Argentina na última semana, aproximando a frente fria ao Brasil, além do surto de doenças e ataques de insetos nocivos, Essa onda de desastres percorre o mundo inteiro, incluindo o Brasil, e depois de vários avisos, nada disso é por acaso. (Acontece que infelizmente, preferimos encarar a situação com humor e óbvio, muitos memes.)

“A corrupção surgiu na terra e no mar por causa do que as mãos dos humanos lucraram. E Deus os fará sentir o gosto do que cometeram. Quiçá assim se abstenham disso.”

– Alcorão 30:41


Percebe-se que esse texto foi escrito na primeira pessoa do plural, porque por mais que eu e você possamos não compactuar com os ideais de exploração da natureza e por mais que busquemos fazer nossa parte pela preservação dela, ainda há muito o que se fazer. Todos nós somos passíveis de culpa. Somos 7,8 bilhões de seres humanos e esse sistema se sustenta sobre cada um de nós, sendo nossa responsabilidade como indivíduos e sociedade pará-lo. O mundo se manifesta, chora e grita por socorro. Quem somos nós? Os que atendem ao apelo e amplificam sua voz ou os que ignoram, silenciam e assistem seu fim? Nada se cria, transforma ou destrói sem que haja algum impacto e o planeta está no seu limite. É importante lembrar que no fim da história, somos dependentes do que a natureza nos dá, e se a destruirmos por completo, estaremos levando a nós mesmos à destruição.

“Não joguei a si mesmos com suas próprias mãos à destruição. E façam o bem; De fato, Deus ama os que o bem praticam.”


O Islam e o essencial cuidado com o meio ambiente

A visão holística do Islam se baseia na noção de harmonia e "estado natural" do ser humano (fitra) e em respeitar o equilíbrio e a proporção nos sistemas do universo. Essas noções fornecem uma dimensão ética e um mandato sobre o respeito humano à natureza e todas as formas de vida. Os valores islâmicos exigem salvar a integridade e proteger a diversidade de todas as formas de vida. Deus, no Alcorão, nos diz que "Não há seres alguns que andem sobre a Terra, nem aves que coem, que não constituam comunidades semelhantes à vossa” (6:38), assim como nos recorda de que:

“Seguramente, a criação dos céus e da terra é mais importante do que a criação do homem; porém, a maioria dos humanos o ignora.”

Alcorão 40:57


Somos apenas parte de um complexo criado por Deus, e pela racionalidade que ele nos concedeu, nos é confiada a missão de manter o equilíbrio entre os sistemas. A atitude islâmica em relação à conservação do meio ambiente e dos recursos naturais não se baseia apenas na proibição de exploração exacerbada, mas também no desenvolvimento sustentável. O Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja sobre ele) nos orienta sobre o uso da água ao fazer a purificação para a oração, dizendo que mesmo que tenhamos um rio corrente à nossa disposição, não se deve usar mais do que o necessário – e o necessário, de fato é o mínimo – Ele também proibiu que uma pessoa se aliviasse em uma fonte de água, em um caminho de passagem, em um local de sombra ou na toca de alguma criatura. Esses valores destacam a ênfase do Islam em evitar a poluição da natureza e a importância da higiene e limpeza.


Existe um estímulo pelo cultivo da vegetação, pelo cuidado com os animais e a preservação de suas moradas, sendo estritamente proibido qualquer ação prejudicial à essa ordem. Inclusive, até mesmo no que diz respeito ao consumo de carne, os muçulmanos só podem comer se for feito um processo de abate específico – o abate Halal - que visa não só o processo humanizado do abate em si – em que o animal é acalmado, levado para longe de outros animais para evitar que se assustem, não lhe é mostrada a faca (muito bem afiada para que seja um processo rápido e sem sofrimento) e toda a carne deve ser utilizada para fins de alimentação evitando excessos e desperdícios – mas como também visa boas condições de vida do animal, como um ser digno, que dever crescer livre e naturalmente. Lembrando que um estilo de vida Halal vê a carne como ocasional, não o principal de uma alimentação, diminuindo assim a necessidade de abate de milhares de animais para esse fim.


Além disso, qualquer boa ação que seja feita a qualquer ser é contabilizada, mesmo que isso seja evitar pisar em formigas ou dar à elas grãos de açúcar. Existem narrações do Profeta em que ele nos conta sobre o caso de uma mulher que será castigada no dia do Juízo por um gato que ela mantinha trancado até morrer de fome, sem lhe dar o alimento nem lhe conceder a liberdade de ir busca-lo na natureza. Já em outra história, os pecados de uma prostituta são todos perdoados pelo simples fato de conceder água potável a um cachorro sedento. Ele também ensina que ao plantar ou semear uma árvore, qualquer benefício que seja gerado por aquela árvore – como frutos e sombra – gera também recompensas para aquela pessoa, por cada ser – animal ou humano – que se beneficie dela até o juízo final. Essas histórias foram registradas há mais de 1.400 anos atrás – muito antes do conceito de sustentabilidade e preservação da natureza e dos direitos animais se tornar um assunto “na moda” ou ‘politicamente correto'. E se ainda resta qualquer dúvida sobre a importância que isso deve ter para nós nos dias de hoje, deixo aqui as próprias palavras do Profeta (que a paz de Allah esteja sobre Ele):


"Quando chegar o dia do juízo final,

se alguém tiver uma semente na palma das mãos,

deve plantá-la."


Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.

Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.

Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah

 

Atualizado: 27 de jul. de 2020

Por Manie El Khal, 29 de Junho para o blog Hijab • Se

Existem histórias que parecem ficção. Algumas delas, gostaríamos muito que de fato fossem apenas utopias geradas por mentes criativamente conturbadas. Acontece que na verdade, existem realidades mais frias e sombrias que a própria ficção ousaria imaginar.


Já abordamos o assunto da violência doméstica em nossa plataforma diversas vezes. E ainda há muito o que se falar, fazer e desenvolver para que tenhamos resultados. Então, abrimos o espaço para uma - guerreira - muçulmana brasileira compartilhar um pouco de sua experiência vivendo por dentro do abuso doméstico. E com o seu relato, esperamos poder encorajar outras mulheres a se manifestarem sobre o abuso, saírem de vez da situação de risco, denunciarem seus abusadores e viverem novamente uma vida digna, assim como Soraya. Sem mais delongas, deixo com você o relato que fala e emociona por si só.


"Você já esteve em um pesadelo se contorcendo e beliscando a si mesma para acordar? O que acontece quando o que parece um sonho de tirar o fôlego vira um tormento que torna difícil o simples ato de respirar? E a pior parte: você tenta correr, gritar, se desvencilhar e se encontra presa, muda, acorrentada a algo que nem mesmo consegue compreender. A pior parte é que você não acorda.


Meu nome é Soraya V., sou brasileira e habito esse universo há 46 anos. Aos dezesseis anos pensei que fosse viver um conto de fadas. O sonho de qualquer jovem mulher, pensava eu. Me casei com um homem dois anos mais velho e logo no primeiro dia me arrependi amargamente me dando conta de que cometi o pior erro que poderia: assinei minha própria sentença, permiti que extorquissem minha liberdade.

Desde a primeira noite juntos, o dito cujo iniciou seus ataques a mim. Me machucava com agressões físicas, insultos e palavras cortantes, ameaças e abuso psicológico. Fui trancada dentro da minha própria casa, completamente proibida de me comunicar com meus pais e minha família. Já não bastasse transformar nosso lar em uma prisão, ele me censurou do meu refúgio. Todas as noites eu reclinava minha cabeça sobre o travesseiro e pensava no monstro que coabitava esse espaço comigo. Diferente dos filmes, esse monstro não se escondia debaixo da cama, se exibia sobre ela e deitava agressivamente comigo até gerar em mim um filho.


Não demorou muito para que isso acontecesse. Logo no primeiro mês de “casada” descobri que carregava em mim um bebê, pelo qual me apaixonei instantaneamente. Talvez, no meio desse caos eu encontrasse assim o meu lar dentro de mim. Essa criança representava para mim um novo ciclo, uma esperança, a reafirmação do meu poder como mulher. Contudo, o pesadelo prosseguia. Diariamente eu era agredida e temia não só pela minha vida, mas principalmente pelo meu filho. De fato, tive vários problemas na gravidez devido a isso e cheguei a correr risco próximo de morrer com o bebê no meu ventre. Ele me batia outra vez, e de novo e mais uma vez, repetidamente. Sem qualquer motivo. Não existia o menor senso de liberdade para mim, a simples ação de eu abrir a janela já me acarretaria consequências.

Devido às complicações na gravidez, nos mudamos para casa da minha mãe. Não se enganem, não houve qualquer acanhamento da parte dele. Ele teve sim a audácia de manter as agressões a mim – que eram cada vez mais intensas – debaixo do teto dos meus pais. Após o nascimento do meu filho isso se agravou ainda mais. Diversas vezes eu quis me separar, mesmo que isso soasse ruim aos ouvidos alheios, porém, minha mãe se opôs à ideia. Ela simplesmente não aceitava o divórcio – como era (e talvez ainda seja) comum naquela época –. Eu ainda era muito inocente e não existia internet ou acesso à tecnologia e à informação, então eu não soube lutar contra isso sozinha. Obedeci à minha mãe e ponto.


Ao completar 18 anos assinei minha própria alforria e mandei ele embora no dia seguinte.


“Essa separação não vai acontecer. Está me entendendo? Ou melhor, com uma condição. Quero o seu filho.”

O cafajeste sabia exatamente como manipular uma mulher. Típico de um abusador, não é mesmo? Ele sabia que assim tornaria as coisas mais difíceis. Meu filho tinha pouco mais de 2 anos na época, e depois de muitas tentativas de viver com ele, acabei cedendo e entreguei a criança para ele levar. Quando isso aconteceu foi nítida a expressão de “perdido” dele, pois nunca esperou essa atitude de mim.

Me separei e fui viver, viver meeesmo, de verdade. Conheci algumas garotas e ficamos muito amigas, com quem eu então saía todos os dias. Ele não suportando me ver livre, tentou me matar. Quantas vezes não ouvimos relatos de situações como essa? O abusador quer ter total controle de você e da sua vida. Ele quer que a vítima se submeta a ele, goste ela ou não. Se o plano dele dá errado, ele tenta dar um fim em tudo, pois se sente no direito de fazê-lo. “Como assim você pensa que vai me desobedecer, contrariar, negar e ainda ousa viver sua própria vida?” Que ameaça ao ego fraco de um abusador.


Obviamente o denunciei à polícia e ainda fiz questão de ir junto ao delegado buscar a figura na casa do pai para o levarmos ao novo lar que merecia. Mas como nem tudo são rosas e a justiça mundana não é lá tão justa, ele conseguiu ser solto através do pai, que era oficial da marinha.

Novamente solto, estava livre para voltar às suas manias. Não demorou para ir até a casa da minha mãe, onde se sentiu no direito de me bater outra vez e quebrar tudo que encontrava pelo caminho. Fui na delegacia e denunciei pela segunda vez. Com o passar do tempo percebi que ele foi aceitando e mais tarde acabou se casando com uma moça que trabalhava na casa da mãe dele. Com ela, teve mais dois filhos. E neles batia muito mais do que em mim, até que no ano de 2002 deu um tiro na própria esposa – que na ocasião estava com o filho do casal de apenas 6 meses nos braços –. No mesmo ano, foi morto. Assassinado.


Ainda hoje não se sabe o que realmente aconteceu. Quem o matou e o porquê. Mas sabemos de uma coisa: seguimos vivas e usufruímos da maior dádiva dessa vida, a liberdade de se viver. Eu e ela somos amigas até hoje, nunca tive raiva dela ou qualquer tipo de sentimento ruim. Ela foi uma mulher guerreira e criou com honra ambos os filhos, hoje uma enfermeira e um nutricionista. Já eu, sigo grata pelo meu menino advogado. Aliás, sigo grata por tudo. Pelo Islam, pela vida, pela liberdade, pelo meu valor como ser humano e mulher, e principalmente, por viver uma fé que me assegure tudo isso.

Hoje, não preciso mais me retorcer para acordar de um pesadelo. Despertei. E a vida pode não ser sempre um sonho, mas eu sempre saberei que mesmo que pareça não haver saída, há quem me cuide, me guie e crie portas para que eu possa passar em lugares onde só existem empenas cegas.


E quem tiver consciência de Deus, Ele lhe apontará uma saída. E o agraciará de onde menos espera. Quanto àquele que confiar em Deus, por certo Ele lhe É Suficiente, porque Allah Cumpre o que Promete.

- Alcorão Sagrado. Surah 65: 2-3 (O Divórcio).


A trajetória nos faz mais fortes e eu não olho para trás senão para agradecer pela imensurável dádiva que é o presente.

Alhamdulillah por tudo."


Qual a sua história? Não seja a vítima, assuma o papel de protagonista, mesmo que isso vá te custar algo. Nada é tão caro quanto a liberdade.

Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.

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