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Atualizado: 25 de abr. de 2020

Por Manie El Khal, 24 de Abril para o blog Hijab • Se

Hoje damos as boas vindas ao nosso querido convidado: o mês de Ramadan, mês este dotado de inúmeras virtudes e no qual nos privamos de certos prazeres por tempo limitado para atingir uma melhor conexão com Deus. Durante esse mês, com o intuito de purificação espiritual (e quando existem condições de saúde para tal) deixamos de comer, beber e manter relações sexuais durante o dia (a partir da Alvorada), podendo voltar a essas práticas novamente à noite, após o por do Sol. Em nosso último texto, explicamos um pouquinho sobre o real significado do Ramadan e o jejum, tal como a essência por trás do mês mais esperado do ano. Com ele concluímos que o aspecto espiritual e o nutricional estão mais conectados do que se parece, por isso, além da abstenção de alimentos durante o dia no período de Ramadan. (entre outros) como devoção e para assim gerar um espaço fértil para a nutrição da fé, é também essencial manter uma rotina de hábitos saudáveis na alimentação para nutrição do corpo. Assim, unimos e potencializamos esses dois aspectos importantes, gerando um equilíbrio entre eles e garantindo a energia necessária para mantê-los estáveis. Pensando nisso, para iniciarmos juntas esse período com chave de ouro, traremos nesse texto algumas dicas para um jejum equilibrado pela perspectiva da nutricionista pela USP, Dra. Samara Dias.

Informações Importantes:

O jejum é prescrito por Deus como um dos pilares básicos da religião, porém, àqueles que possuem condições físicas de saúde para tal. É de suma importância verificar com um médico a possibilidade de jejuar caso desconfie de algum problema ou possua alguma doença crônica. Em caso de remédios controlados, é possível transferir (com um parecer médico) a ingestão desses medicamentos em horários alternativos. Outros públicos exclusos da obrigatoriedade do jejum são mulheres durante a gestação, quarentena pós parto e período menstrual, devendo repor os dias perdidos de jejum assim que puderem.


Jejum e Saúde

Ao começar pelo próprio jejum, existem diversos estudos científicos que mostram que a prática realiza uma espécie de Detox potente no corpo, fazendo limpas que normalmente não são feitas quando estamos regularmente alimentados, com espaços de tempo muito pequenos entre as refeições. Segundo a Dra. Samara, “os estudos mostram que você tem um período de alimentação muito menor, existe uma pré disposição da pessoa comer menos nesse período. Até mesmo para uma pessoa que não faz o Ramadan, não é muçulmana e faz o jejum intermitente ou uma pessoa que é muçulmana e não está fazem o jejum religioso, o simples fato de aumentar o espaço entre a sua última refeição do dia anterior até a primeira refeição do dia seguinte, já traz benefícios no sentido de diminuir a ingestão calórica, que é o grande problema da maior parte das pessoas hoje, que é o excesso de peso, calorias e um consumo exagerado de alimentos por conta da industrialização, do fácil acesso que a gente tem, dos alimentos hiperpalatáveis...”

Alguns estudos analisaram o efeito do jejum do Ramadan em fatores como colesterol no sangue e triglicerídeos (gordura no sangue) e encontraram uma melhora a curto prazo. Também é marcante o aumento da absorção de nutrientes, devido à aceleração do metabolismo; o fortalecimento do sistema imunológico (que em tempos de pandemia é extremamente importante); além dos benefícios para a saúde mental, visto que o jejum causa reações no cérebro que permitem proteger suas células e reduzir a depressão e a ansiedade.


Por não consumir nenhum alimento, nosso corpo é capaz de se concentrar na remoção de toxinas, pois damos descanso ao sistema digestivo. Isso permite que o intestino se limpe e tenha seu revestimento fortalecido, estimulando também um processo de “autofagia”, em que as células fazem a própria limpeza removendo partículas nocivas. Nosso sistema digestivo usa grande parte da energia, então, dando a ele esse descanso, os outros órgãos têm a possibilidade de usar melhor essa energia e terem um melhor funcionamento.

Efeitos duradouros

Ensinado pelo Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja com Ele), era uma de suas práticas antes de receber a Revelação do Alcorão, assim como era a prática dos Profetas antes dele. Os gregos também exploravam o jejum para cura e hoje em dia isso volta a ser tendência por suas evidentes vantagens para a saúde e o bem estar, por exemplo através do jejum intermitente. Diferente de dietas extremas e planos alimentares com restrição calórica da moda, a perda de peso que ocorre com o jejum não é novamente recuperada com facilidade e com a mesma rapidez. (O que nas dietas extremas muitas vezes acontece até mesmo com um ganho de peso extra). Isso não ocorre com o jejum (quando se mantem hábitos alimentares saudáveis) porque a redução de alimentos durante um período constante faz com haja encolhimento do estômago de forma gradual, resultando em uma necessidade menor de alimentos para que o indivíduo se sinta satisfeito.


Jejum, glicemia e diabetes

A nutricionista explica que “quando você tem um período maior sem comer, tem-se uma redução bem significativa dos seus níveis de insulina e consequentemente de glicemia. Você só tem um nível de insulina e glicemia (a glicose no sangue) em um nível estabelecido normal relativamente baixo, só pra manter suas funções fisiológicas que o seu corpo faz uma regulação a partir dos estoques que você tem no corpo, principalmente glicogênio (a glicose que a gente armazena no fígado e nos músculos). O corpo usa esse glicogênio, transforma em glicose ativa e a partir disso vai mantendo um nível normal, enquanto que quando comemos, estamos ingerindo aquela fonte de energia, e assim, se extrapolamos a quantidade que comemos ao longo do dia, a tendência é que tenhamos um nível maior de glicose no sangue e de insulina, que é o que fará a glicose entrar dentro da célula. Consequentemente, uma pessoa que come mais por muito tempo exageradamente, tem uma tendência a desenvolver uma resistência à insulina e a diabete tipo II. O jejum entra como um excelente aliado para a prevenção ou até atenuação dos quadros de resistência à insulina ou a diabetes tipo II.”

“Mas nem mesmo água?!”

Quem nunca ouviu essa pergunta, não é? Sim, nos abstemos do consumo de água durante as horas do dia, e isso exerce sua própria parte nos benefícios à saúde mencionados acima. Entretanto, longos períodos sem a ingestão de água requerem uma compensação desse elemento no nosso corpo mais tarde. Assim, devemos nos atentar bastante ao consumo dela à noite. Porém, essa reposição deve ser feita aos poucos, em pequenos intervalos ao longo das horas em que é possível se hidratar. Uma forma de perceber a desidratação é observando a cor da urina ao longo do dia e durante à noite. Quanto mais escura, maior o sinal de que se deve aumentar a ingestão de água. A nutricionista lembra que isso não significa ingerir uma quantidade maior de água de uma só vez, mas fracioná-la: “é importante beber um pouco de água a cada meia hora, quarenta minutos, distribuindo a ingestão dela durante a noite para assim o corpo conseguir utilizá-la de maneira adequada. Se tomarmos muita água de uma vez, o corpo não fará o uso dessa água para limpeza dos fluidos e a limpeza do sangue.” A água é um fator essencial no funcionamento, bem estar e saúde do corpo e a desidratação pode causar diversas complicações, além de dores de cabeça e stress. Então, vamos evitá-los, ok? Hidrate-se!

Cuidado para não sabotar seu jejum

Além de nos cuidarmos quanto à nossa conduta para não resumirmos o jejum à privação de comida e bebida, devemos lembrar de não nos sabotarmos também quando aos benefícios nutricionais, sobrecarregando o estômago com uma grande quantidade de alimentos gordurosos, de difícil digestão, açúcares e calorias vazias. Samara aconselha: ”Não é porque você está jejuando que você pode comer o mundo todo quando quebra o jejum. Isso vai muito mais de um apelo psicológico que a pessoa tem, visto que por ter ficado muitas horas sem comer, acaba achando que pode comer tudo, ou que deve se recompensar... E se você for por esse caminho, todos os benefícios que mencionamos não vão ser mais aplicados, porque se comer em poucas horas muito mais que comeríamos ao longo do dia, consequentemente teremos ganho de peso. Existem casos de pessoas que fazem o jejum espiritual do jejum de Ramadan e ganham peso, porque no horário do Iftar (quebra de jejum) acabam comendo mais por estar em família, tendo ali uma mesa de comida posta. A pessoa tem nisso, claro, o benefício de se sentir bem por estar fazendo uma devoção a Deus , porém não tem o benefícios de diminuir o benefício da diminuição de diminuição calórica por conta da ingestão de açúcar, alimentos com base de farinha de trigo refinada, não aproveitando os benefícios que o jejum poderia trazer no aspecto fisiológico.”

Alimentos do bem x O que evitar

A Dra. Samara ensina que quebrar o jejum com uma tâmara e água a seguir de uma refeição equilibrada (como foi ensinado pelo Profeta Muhammad, que a paz de Deus esteja com ele) é de fato o método mais ideal de finalizar um dia de jejum. A refeição mais elaborada pode vir depois, evitando comer algo muito pesado (o que faz com que o sistema digestivo gaste a energia remanescente para digerir essa refeição, causando letargia, o que pode também interferir negativamente nas orações de Taraweeh – oração especial realizada nas noites de Ramadan –, por exemplo).


Uma refeição mais proteica e com gorduras naturais (como a do abacate, castanhas, nozes, queijos amarelos, óleo de coco e azeite) pode ser deixada para o Suhur (última refeição feita pouco antes do início do jejum, como um café da manhã, o que dará sustento e energia para o seu corpo no dia seguinte. Fontes de proteínas como grão de bico, lentilha, suplemento (Whey), coalhada e ovos (em especial) também são ótimas opções, assim como alimentos com fonte de fibras (como tâmaras, frutas, aveia e pão integral). "Nessa refeição, evite excesso de sal, pois elas te deixarão com mais sede. Excesso de carboidratos (como pão branco, doces e açúcar) também tem o mesmo efeito, devido ao aumeno da glicose no sangue." Outra coisa a se evitar são bebidas diuréticas. Segundo a nutricionista: "exagerar no café ou no chá aumenta a eliminação de água. Se quiser, beba somente uma xícara, e beba mais água." Não se esqueça de se hidratar, antes e depois das refeições e a cada 30 minutos.


Posso praticar atividades físicas?

Sim! Mas isso depende muito da individualidade de cada um. "Se você é uma pessoa já acostumada a praticar atividade física, pode por exemplo treinar uma hora antes da quebra do jejum. Assim, o desjejum já será seu pós-treino. Mas se for uma pessoa que não é adaptada ao jejum ou não possui um nível de treinamento físico bom, é mais interessante realizar a atividade física já alimentada, ou seja, uma boa opção seria que essa pessoa quebrasse o jejum com uma refeição leve, e saísse para treinar. A refeição antes do treino não deve ser pesada, porque fazer atividade física com o estômago muito cheio atrapalha. "O que seria legal fazer? Quebrar o jejum, comer uma tâmara, se hidratar, comer por exemplo uma banana com pasta de amendoim ou fazer um pequeno lanche, com sanduíche por exemplo e sair para treinar. Depois ao retornar, você pode voltar e jantar com um prato mais equilibrado de pós treino." Sugere a Dra. Samara. Ela orienta também que "caso queira jantar e ir treinar, é possível fazer uma refeição bem estruturada na quebra do jejum e fazer o treino após cerca de duas horas. Assim, estará bem alimentada(o) e o corpo já terá feito uma boa digestão."


Treinar durante o dia não é uma boa recomendação. "Se você vai ficar muitas horas ainda sem comer, a tendência é que você não consiga recuperar de maneira eficiente essa musculatura que lesionou durante o treino. O treino é um estímulo de lesão nos musculos e conforme vamos nos alimentando e descansando nas próximas horas o corpo vai reconstruíndo esse músculo e o tornando mais forte." Explica a nutricionista.


Missão dada é missão cumprida

Lembre-se: O jejum dura apenas algumas horas e traz consigo inúmeros benefícios: espirituais, mentais e para a nossa saúde. Deus nos reafirma ao tratar esse assunto:

"Allah vos deseja a comodidade, e não a dificuldade, mas cumpri o número de dias (de jejum) e glorificai a Deus por ter-vos orientado, a fim de que Lhe agradçais."

O objetivo de tudo isso é extamente nos aproximar de nós mesmos, do nosso íntimo, nos auxiliar a cuidarmos da nossa fé e buscarmos a conexão com Ele. A intenção é adquirirmos virtudes, nos desvincular de vícios e maus hábitos, aprendermos o autocontrole, a paciência, o cuidado pelo outro que não possui os meios para se alimentar, a empatia e principalmente: a gratidão. A nossa missão é ler e reproduzir em ações com o coração aberto novamente a carta de orientação, amor e Misericórdia que Ele nos envia e sentir tudo isso nos envolver mais uma vez, nos lembrando do nosso propósito, e assim, nos nutrindo, de dentro para fora. Ele nutre nossa alma, então que não nos esqueçamos de nutrir o nosso corpo na mesma medida com os bens que Ele nos fornece.

Ramadan Mubarak! Um abençoado Ramadan! ♥


A Doutura Samara Dias além de formada em nutrição pela USP, realizou durante a graduação pesquisas científicas no laboratório de Nutrição Esportiva da Escola de Educação Física da mesma, onde participou de um estudo sobre consumo de proteínas e fragilidade em idosos, que teve artigo científico publicado na European Journal of Clinical Nutrition. Depois de ganhar uma bolsa por mérito acadêmico para realizar intercâmbio de pesquisa científica em Portugal, na Universidade do Porto, onde morou por 6 meses, estudou sobre educação nutricional e saúde pública e realizou trabalho voluntário para idosos da Santa Casa de Misericórdia do Porto. Após a graduação, realizou duas pós graduações: de Nutrição Clínica Ortomolecular e Nutrição Esportiva. Trabalhou por dois anos na clínica medicina esportiva do Dr Rogério Padovan, mas preferiu se desligar de lá para ser autônoma, hoje seguindo carreira independente atendendo os próprios pacientes em consultório particular e online.Saiba mais e acompanhe a Doutura Samara pelo Instagram: @dra.samaradias. 😊


Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.

Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.

Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah

 

Atualizado: 24 de abr. de 2020

Por Manie El Khal, 21 de Abril para o blog Hijab • Se

Se você é muçulmana(o) ou é amiga(o) de um(a), provavelmente sabe que esse é o mês mais aguardado do ano inteiro: o mês de Ramadan. Mas, não seria o Ramadan o período de reflexão espiritual em que se renuncia a certos prazeres, inclusive de se comer e beber durante o dia? O que há nisso de tão especial? Fato, porém não se limita a isso e são inúmeras as virtudes desse mês. Nesse texto explicaremos um pouquinho do significado real do mês de Ramadan e reflexões ocultas por trás do tradicional senso comum.




O que é de fato o Ramadan?


Existem diversos significados por trás da essência e da intenção do Ramadan, assim como as bênçãos presentes nele. Tende-se a se referir a esse mês como “o mês do Jejum” por nós, muçulmanos, assim como por quem não é da fé islâmica. Mas apesar de isso ser um dos aspectos chave do Ramadan, Deus (Louvado Seja) se refere a ele da seguinte forma:

“O mês do Ramadan é aquele em que foi revelado o Alcorão: orientação para a humanidade, evidência de orientação e discernimento...” Alcorão 185:2

Foi o mês de revelação do Alcorão Sagrado: manual de instruções da humanidade como um todo, perfeitamente aplicável em sua completude e simplicidade para qualquer nação, sociedade ou época, de forma atemporal. Nesse mês, nós, que felizmente e pela graça de Deus reconhecemos a veracidade e importância desse fato, devemos voltar nossa atenção de forma mais intensa aos ensinamentos desse Livro, com a intenção de buscar a sabedoria que emana Dele para que possamos levar suas lições o resto do ano, recalibrando nossos corações.


Onde o jejum entra nisso?


Logo após nos introduzir ao mês que nomeou para carregar inúmeras virtudes, Deus o Altíssimo se refere ao jejum na sequência.

“Por conseguinte, quem de vós presenciar o mês, que jejue. Porém, quem se achar enfermo ou em viagem jejuará depois, o mesmo número de dias...” 185:2

Ao jejuar, nos privamos de comer, beber e manter relações sexuais durante o dia (quando temos condições de saúde para tal), a partir da Alvorada até o Pôr-do-Sol, podendo retomar essas práticas ao anoitecer, entre esses dois horários. Mas qual seria o segredo por trás disso? Simples: purificação. Além de benefícios para a saúde e servir para impulsionar a purificação do corpo de toxinas, o jejum tem sua função na limpeza espiritual, tirando nossa atenção de hábitos que muitas vezes usufruímos com exagero e voltando-a para lições importantes, que absorvemos melhor quando estamos mais leves. A prática do jejum causa a desaceleração de nossos vícios e compulsões habituais e gera em nós virtudes importantíssimas e difíceis de conquistar: disciplina, paciência, resiliência com o poder de reflexão para que recebamos as bênçãos do Alcorão com o solo preparado e fértil para reprodução dessas sementes plantadas em nossas almas.


É interessante refletir também, que ao nos restringirmos de hábitos lícitos e por um mês inteiro aprendermos a controlar desejos e impulsos do nosso ser, fica muito mais fácil controlar os impulsos daquilo que é ilícito. Isso não é de forma alguma uma punição, e sim um treinamento para reconstruirmos nossas forças, como um treinamento físico destrói e reconstrói a musculatura fortalecendo-a. Deus continua sobre o jejum:

“...Allah vos deseja a comodidade e não a dificuldade, mas cumpri o número de dias e glorificai a Allah por ter-vos orientado, a fim de que agradeçais.” 185:2


Por que é tão especial para os muçulmanos?

Impossível listar todas as razões em um único texto, porém, vamos lá: a atmosfera do Ramadan é indescritivelmente única. A paz, alegria, amor e esperança dentro da comunidade muçulmana é nítida, e tentamos estender isso para fora do próprio círculo, porque como Deus explica, isso é uma Misericórdia para toda a humanidade (em tempos de pandemia, isso vai ser um grande sopro de ar fresco); Durante esse mês, as portas do Paraíso são abertas, revelando de forma especial um dos atributos de Deus com sua aceitação e apreciação pelas súplicas daqueles que se voltam a Ele.

“Quando Meus servos perguntarem por Mim, por certo que Estou Próximo e Ouvirei o rogo do suplicante quando a Mim se dirigir...” 186:2

Assim, exploramos de forma mais profunda e atenciosa aspectos da fé como a oração (como meio de conexão a Ele); a reflexão (tendo em vista o estímulo dela e da razão pela fé); e a caridade (seja ela qual for, visando sempre “fazer o bem sem olhar a quem”).

Para as quebras de jejum é comum ver famílias, amigos ou até mesmo conhecidos/ desconhecidos quebrando jejum juntos, em pequenos encontros em casa ou nas Mesquitas. Talvez, agora com o distanciamento social possamos entender melhor a solidão de quem não tem com quem celebrar esses momentos, como é o caso de muitos recém revertidos. Para algumas pessoas também, as quebras de jejum na Mesquita é a única refeição do dia, e agora com nossas Mesquitas fechadas devemos fazer nossa parte para não deixar nossos irmãos com fome, seja lá quem for. Algo que me faz pensar sobre a gratidão pelo Ramadan nesse sentido é que ao jejuarmos, é intencional que possamos adquirir a sensibilidade e empatia por pessoas que não sabem de onde vem a próxima refeição, não somente por algumas horas do dia, mas muitas vezes, por semanas, meses, anos. Assim, temos esse lembrete mais vivo dentro de nós para que tomemos a frente para dar o alimento dessas pessoas, que não é nenhum favor, e sim nosso dever de conceder um direito tão básico de qualquer ser humano.

A importância de se permitir ser vulnerável

Fica claro por fim que um dos maiores objetivos desse mês é que desenvolvamos a “Consciência de Allah”. Permitir a nós mesmos que sejamos reapresentados ao Seu livro como orientação para conforto e solução de qualquer problema, seja ele individual ou social. Para isso devemos ter consciência de nós mesmos primeiramente, conhecermos nosso ser mais íntimo, nossas fraquezas, forças, inclinações e sussurros de nossas almas. Nesse momento de treinamento para “domar” o mal natural que existe em cada um de nós e enaltecimento da palavra de Deus, chegamos em um nível de autoconsciência tão profundo que chega a ser surreal e terapêutico. Precisamos então, aproveitar da melhor maneira e dentro de nossas capacidades para levar essa essência para o resto do ano e de ano em ano revivermos isso pelo resto de nossas vidas.

Nesse processo despimos nossas almas como elas são: imperfeitas, e Ele nos envolve com amor cobrindo nossas faltas. Por mais quebrados que estejamos, saímos com a certeza de que seremos fixados, de que somos aceitos, amados e cuidados por Quem nos criou e nos dá oportunidade atrás de oportunidade para o perdão e a proximidade Dele. Não existe nada mais valioso do que se sentir próximo de Quem nos criou, nos conhece em nossos mínimos detalhes e cuida de nós em cada momento. Retomar essa conexão com a certeza de que Ele irá nos atender é o que faz qualquer esforço ser mínimo. Por isso não temos o jejum, as orações, as noites acordada(os) como qualquer fardo, e sim como uma dádiva. Que a cura que procuramos nos seja concedida, que Deus nos permita alcançar o Ramadan e que as bênçãos do Ramadan nos acompanhem por toda a vida. É mais que um mês de jejum e privação, é o mês que pode mudar a sua vida. Vamos dar as boas vindas a ele juntas(os)!?


Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.

Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.

Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah

 

Por Manie El Khal, 13 de Abril para o blog Hijab • Se


Você já ouvir falar da Lisa Vogl? Se você é uma das nossas leitoras fiéis, provavelmente se familiariza com esse nome. Lisa é fundadora e diretora da tão badalada Verona Collection pioneira em vestuário modesto no mercado ocidental , além de fotógrafa de moda e ativista pela causa das mulheres em situação de violência doméstica. Tendo em vista o cenário atual em que as estatísticas sobre abuso doméstico tem se intensificado absurdamente (já sendo um absurdo em dias normais), vamos contar um pouco da história de uma grande mulher, sobrevivente desse problema tão sério e que se reergueu após o trauma, lutando incessantemente pela liberdade de outras mulheres que hoje se encontram na mesma situação.

Se está se perguntando onde foi que ouviu falar de Lisa no nosso blog antes, aqui está: Em novembro de 2019, escrevemos sobre a participação da Hijab-se no “Girls Gone Modest Bazaar” em New York, evento anual organizado por mulheres (BICC Youth) e exclusivamente feminino, onde em meio a diversas atrações culturais, unem-se mais de dez importantes marcas de Modest Fashion, o que na última edição incluiu a Hijab-se (simmm!) ao lado da Verona Collection, de Lisa Vogl. É possível que na época muitas de nossas leitoras não imaginassem, mas a história de Lisa vai muito além do sucesso de sua marca e seu reconhecimento mundial. A marca, na verdade, foi um produto da sua trajetória que ela usou para canalizar todo o sofrimento e transformá-lo em cuidado: consigo mesma e com outras milhares de mulheres.

Verona Collection


A Verona Collection possui seu destaque no ramo de Modest Fashion por diversos motivos, a começar pela sua criação, sendo concebida para suprir um vazio quando o mercado apenas ofertava roupas islâmicas com traços orientais. A intenção foi trazer ao mercado ocidental roupas modestas com a essência da própria cultura local, o que conquistou o mercado americano e euroupeu e se reproduziu de forma significativa. O conceito leva uma preocupação com a inclusão e a acessibilidade, tendo como objetivo principal empoderamento das mulheres muçulmanas. Além disso, a marca foi a primeira nesse contexto a fazer parte da rede de departamentos americana Macy’s e da britânica Asos e em questão de dois anos se destacou em publicações como a Today Show, Cosmopolitan, Huffington Post e Refinery 29, o que demonstrou o impacto do setor na indústria da moda no geral.

Trajetória ao Islam


A carreira de Lisa Vogl se iniciou através da fotografia. No mundo inteiro, Lisa esteve presente colaborando com marcas de Modest Fashion, tendo seu trabalho divulgado em plataformas famosas como a revista Marie Claire. Sendo também bacharel em Marketing, fortaleceu seu potencial profissional no ramo e o usou para lançar a Verona.

Revertida ao Islam em 2011, teve seu primeiro contato a religião muçulmana em Marrocos durante uma experiência de trabalho como professora de inglês. Após se mudar para a Flórida, onde iniciou sua profissão como fotógrafa, conheceu uma mulher muçulmana e devido à sua experiência com o Hijab no Marrocos, decidiu entrevistá-la sobre o significado do véu para um projeto videográfico. “Fiquei profundamente comovida com a maneira como Nadine via o hijab e como ela expressou sua fé. Quando ela começou a falar comigo, realmente abriu meus olhos.” Contou ao Wisconsin Muslim Journal em 2019. A entrevista causou um efeito inspirador sobre Lisa, o que gerou um grande interesse na religião. Após muitos estudos e o contato com o Alcorão, finalmente tomou sua decisão, se tornando muçulmana nove meses depois do incidente.

Lar, amargo lar


O que não sabíamos por muito tempo é que Lisa além de ser uma premiada fotógrafa de moda internacional e fundadora da marca dos sonhos de uma hijabi, é também sobrevivente de abuso e violência doméstica. Sua história foi um sombrio segredo por anos, até que decidiu se abrir ao público através de um post no Facebook, como manifestação de força e a intenção de dar a voz a outras mulheres vítimas desse problema tão comum. Ao se abrir também através de diversas palestras e entrevistas, Lisa conta que conheceu seu ex esposo e abusador em um site de casamentos muçulmanos, se casou e sofreu abuso emocional e financeiro por alguns meses, se dando conta de que estava em um relacionamento abusivo somente quando ele passou a então agredi-la durante a gravidez. Com medo e a esperança de que ele mudasse, guardou segredo, mas a situação só piorava. Depois de tê-lo constantemente a manipulando, agredindo e abusando verbal e psicologicamente por anos, Lisa se manteve firme, mas conta que se aterrorizou quando em uma noite, grávida, se escondeu com seus dois filhos – ainda bebês – dentro do banheiro, do qual ele derrubou a porta e a estrangulou. Com medo que ele fosse matá-la, dirigiu até o hospital durante uma hemorragia e sofreu aborto do terceiro filho por conta do estresse e do abuso físico. Ela relembra no post: “naquela noite, fiquei sozinha no hospital apenas olhando para a parede. Eu já não sentia mais emoções, era como se eu não tivesse mais lágrimas para chorar.”

A gota d'água


Algumas semanas após o incidente e de volta em casa, Lisa conta que durante um momento de descanso, seu abusador se irritou novamente sem qualquer razão e a gota d’água para si foi quando ele pegou seu Notebook e o arremessou na parede gritando “que Deus amaldiçoe a Verona”. Foi quando ela finalmente resolveu dar um basta na situação, desesperadamente chamou uma amiga para ajudá-la a juntar seus pertences, ligou para amigos em Orlando, contou tudo o que estava acontecendo e deixou a casa com seus dois filhos – ainda com 5 meses e 1 ano de idade –, dirigindo por três dias. Ficou um tempo na casa de amigos recebendo ajuda, se mudou para um abrigo para mulheres que sofriam abuso mias tarde e por fim, depois de receber várias ligações, promessas e pedidos de perdão, resolveu dar uma nova chance ao marido, onde estabeleceu que se em um prazo de um ano ele não procurasse ajuda para se tratar, não prestasse apoio no sustento de seus filhos e não deixasse de abusá-la, ela buscaria meios legais e pediria o divórcio. Ele acatou o pedido, mas o tratamento não foi eficaz e seu comportamento continuou agressivo, então, ela por fim se voltou a um Sheikh e obteve a dissolução do casamento.

Homens precisam ser nossos aliados nessa luta


Lisa, como sobrevivente, usa do poder de influência das mídias digitais e das redes sociais para prestar apoio a mulheres em situações semelhantes e fazer um apelo: “eu gostaria que houvesse mais consciência e educação na comunidade muçulmana sobre a violência doméstica, especialmente para os homens de poder e de influência, que pedem às mulheres que sejam pacientes. Eles precisam ser ensinados a lidar com essas situações. Quando um homem ouve de outro homem ‘não a oprima’, isso tem mais peso, infelizmente.” Ela disse em entrevista ao Blog Nisa Homes, demonstrando indignação quanto à ouvir “seja paciente” de vários Sheikhs até finalmente conseguir um que tenha a orientado a deixar a relação. Em entrevista ao TMV, ela reforça que “precisamos que os homens se levantem contra isso. As mulheres não deveriam estar travando essa batalha sozinhas.”

A fé, durante esse momento foi fundamental para Lisa. Ela ressalta que o abuso doméstico infelizmente atinge duas a cada três mulheres no mundo inteiro (dados da UN Women), e que isso não deve ser tratado como tabu, especialmente na comunidade muçulmana. Ela reforça e questiona: “nossa religião fala sobre o combate à opressão. Por que isso seria diferente em relação ao abuso doméstico?”. Sobre o aumento dos casos de violência doméstica na quarentena, ela enaltece as palavras do Sheikh Omar Suleiman “Nunca houve uma mulher sequer que foi ao Profeta (que a paz de Deus esteja com ele) em busca de justiça e que foi instruída a simplesmente ter paciência. Adotar essa postura como na cultura atual é retrógrado.” Por fim, ela esclarece e aconselha: “Não estou procurando, de forma alguma, a simpatia de ninguém pelo que passei. Tudo o que eu quero expressando isso ao público é que as mulheres (e até alguns homens) que passam por isso saibam que existe uma saída. Você não apenas sobreviverá, mas será melhor do que quando começou. Eu prometo. Não será um caminho fácil, mas você se recuperará e aprenderá a se amar novamente. Você precisa sair disso, mas seja esperto sobre como fazê-lo. Se aproxime de quem você confia. Você não merece isso.”

Quarentena: em isolamento com o inimigo


Já abordamos em um outro texto a imprtância do autoconhecimento e autocuidado, indispensáveis e que podem/ devem ser explorados nessa quarentena dentro de nossas capacidades. Se você conhece alguma vítima de violência doméstica ou sofre abuso em casa (espero muito que não, mas infelizmente é uma realidade próxima de todas nós), não hesite em buscar ajuda. Preocupe-se em se manter a salvo e sair dessa situação (que você de forma alguma merece, muito pelo contrário), e mais tarde, use sua experiência e toda essa energia para transformar sua própria vida. Canalize em algo que você ama, reverta a dor em amor para si e para quem lhe rodeia. Não se renda, você não está sozinha.

Em busca do final feliz: ele é possível


A Verona Collection surgiu alguns meses antes de Lisa deixar o relacionamento abusivo e todo o sofrimento causado por ele para trás. Ela conta: “foi minha saída positiva e minha fuga durante o abuso. Eu precisava ter algo próprio, ter sucesso em alguma coisa e fazer algo para capacitar outras mulheres. Esse é o meu objetivo com a Verona Collection. Da dor, ela criou sua própria cura; de uma experiência traumática, extraiu forças e coragem para não permitir que outras pessoas passem pela mesma coisa; e com os frutos de toda a sua luta, ela nos presenteia com uma marca que carrega toda uma história tortuosa que eventualmente traça um novo caminho. Ao vestir Verona, não se veste uma peça de roupa, se veste uma história. Da mesma forma, penso em cada hijabi brasileira que carrega sua identidade e uma história de superação consigo através do Hijab. Penso nas mulheres por trás da Hijab-se, sempre tão interessadas em criar um espaço para a representatividade real de outras mulheres muçulmanas. Penso no espaço que tanto lutamos para conquistar e na voz que lutamos para que seja ouvida e penso em todas nós mulheres muçulmanas. Em nós, mulheres, sem qualquer tag. Em mim e em vocês, leitoras. E fico feliz que façamos parte dessa história. Torço para que sejamos todas mulheres fortes e transformemos as experiências ruins em nossas maiores conquistas, sempre empoderando e fortalecendo outras mulheres, reconhecendo que estamos todas juntas, e assim somos mais fortes.

Exemplo? Não nos falta, do Brasil a New York.

Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.

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