- Manie

- 24 de abr. de 2020
Atualizado: 25 de abr. de 2020
Por Manie El Khal, 24 de Abril para o blog Hijab • Se

Hoje damos as boas vindas ao nosso querido convidado: o mês de Ramadan, mês este dotado de inúmeras virtudes e no qual nos privamos de certos prazeres por tempo limitado para atingir uma melhor conexão com Deus. Durante esse mês, com o intuito de purificação espiritual (e quando existem condições de saúde para tal) deixamos de comer, beber e manter relações sexuais durante o dia (a partir da Alvorada), podendo voltar a essas práticas novamente à noite, após o por do Sol. Em nosso último texto, explicamos um pouquinho sobre o real significado do Ramadan e o jejum, tal como a essência por trás do mês mais esperado do ano. Com ele concluímos que o aspecto espiritual e o nutricional estão mais conectados do que se parece, por isso, além da abstenção de alimentos durante o dia no período de Ramadan. (entre outros) como devoção e para assim gerar um espaço fértil para a nutrição da fé, é também essencial manter uma rotina de hábitos saudáveis na alimentação para nutrição do corpo. Assim, unimos e potencializamos esses dois aspectos importantes, gerando um equilíbrio entre eles e garantindo a energia necessária para mantê-los estáveis. Pensando nisso, para iniciarmos juntas esse período com chave de ouro, traremos nesse texto algumas dicas para um jejum equilibrado pela perspectiva da nutricionista pela USP, Dra. Samara Dias.
Informações Importantes:
O jejum é prescrito por Deus como um dos pilares básicos da religião, porém, àqueles que possuem condições físicas de saúde para tal. É de suma importância verificar com um médico a possibilidade de jejuar caso desconfie de algum problema ou possua alguma doença crônica. Em caso de remédios controlados, é possível transferir (com um parecer médico) a ingestão desses medicamentos em horários alternativos. Outros públicos exclusos da obrigatoriedade do jejum são mulheres durante a gestação, quarentena pós parto e período menstrual, devendo repor os dias perdidos de jejum assim que puderem.
Jejum e Saúde
Ao começar pelo próprio jejum, existem diversos estudos científicos que mostram que a prática realiza uma espécie de Detox potente no corpo, fazendo limpas que normalmente não são feitas quando estamos regularmente alimentados, com espaços de tempo muito pequenos entre as refeições. Segundo a Dra. Samara, “os estudos mostram que você tem um período de alimentação muito menor, existe uma pré disposição da pessoa comer menos nesse período. Até mesmo para uma pessoa que não faz o Ramadan, não é muçulmana e faz o jejum intermitente ou uma pessoa que é muçulmana e não está fazem o jejum religioso, o simples fato de aumentar o espaço entre a sua última refeição do dia anterior até a primeira refeição do dia seguinte, já traz benefícios no sentido de diminuir a ingestão calórica, que é o grande problema da maior parte das pessoas hoje, que é o excesso de peso, calorias e um consumo exagerado de alimentos por conta da industrialização, do fácil acesso que a gente tem, dos alimentos hiperpalatáveis...”
Alguns estudos analisaram o efeito do jejum do Ramadan em fatores como colesterol no sangue e triglicerídeos (gordura no sangue) e encontraram uma melhora a curto prazo. Também é marcante o aumento da absorção de nutrientes, devido à aceleração do metabolismo; o fortalecimento do sistema imunológico (que em tempos de pandemia é extremamente importante); além dos benefícios para a saúde mental, visto que o jejum causa reações no cérebro que permitem proteger suas células e reduzir a depressão e a ansiedade.
Por não consumir nenhum alimento, nosso corpo é capaz de se concentrar na remoção de toxinas, pois damos descanso ao sistema digestivo. Isso permite que o intestino se limpe e tenha seu revestimento fortalecido, estimulando também um processo de “autofagia”, em que as células fazem a própria limpeza removendo partículas nocivas. Nosso sistema digestivo usa grande parte da energia, então, dando a ele esse descanso, os outros órgãos têm a possibilidade de usar melhor essa energia e terem um melhor funcionamento.
Efeitos duradouros
Ensinado pelo Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja com Ele), era uma de suas práticas antes de receber a Revelação do Alcorão, assim como era a prática dos Profetas antes dele. Os gregos também exploravam o jejum para cura e hoje em dia isso volta a ser tendência por suas evidentes vantagens para a saúde e o bem estar, por exemplo através do jejum intermitente. Diferente de dietas extremas e planos alimentares com restrição calórica da moda, a perda de peso que ocorre com o jejum não é novamente recuperada com facilidade e com a mesma rapidez. (O que nas dietas extremas muitas vezes acontece até mesmo com um ganho de peso extra). Isso não ocorre com o jejum (quando se mantem hábitos alimentares saudáveis) porque a redução de alimentos durante um período constante faz com haja encolhimento do estômago de forma gradual, resultando em uma necessidade menor de alimentos para que o indivíduo se sinta satisfeito.
Jejum, glicemia e diabetes
A nutricionista explica que “quando você tem um período maior sem comer, tem-se uma redução bem significativa dos seus níveis de insulina e consequentemente de glicemia. Você só tem um nível de insulina e glicemia (a glicose no sangue) em um nível estabelecido normal relativamente baixo, só pra manter suas funções fisiológicas que o seu corpo faz uma regulação a partir dos estoques que você tem no corpo, principalmente glicogênio (a glicose que a gente armazena no fígado e nos músculos). O corpo usa esse glicogênio, transforma em glicose ativa e a partir disso vai mantendo um nível normal, enquanto que quando comemos, estamos ingerindo aquela fonte de energia, e assim, se extrapolamos a quantidade que comemos ao longo do dia, a tendência é que tenhamos um nível maior de glicose no sangue e de insulina, que é o que fará a glicose entrar dentro da célula. Consequentemente, uma pessoa que come mais por muito tempo exageradamente, tem uma tendência a desenvolver uma resistência à insulina e a diabete tipo II. O jejum entra como um excelente aliado para a prevenção ou até atenuação dos quadros de resistência à insulina ou a diabetes tipo II.”
“Mas nem mesmo água?!”
Quem nunca ouviu essa pergunta, não é? Sim, nos abstemos do consumo de água durante as horas do dia, e isso exerce sua própria parte nos benefícios à saúde mencionados acima. Entretanto, longos períodos sem a ingestão de água requerem uma compensação desse elemento no nosso corpo mais tarde. Assim, devemos nos atentar bastante ao consumo dela à noite. Porém, essa reposição deve ser feita aos poucos, em pequenos intervalos ao longo das horas em que é possível se hidratar. Uma forma de perceber a desidratação é observando a cor da urina ao longo do dia e durante à noite. Quanto mais escura, maior o sinal de que se deve aumentar a ingestão de água. A nutricionista lembra que isso não significa ingerir uma quantidade maior de água de uma só vez, mas fracioná-la: “é importante beber um pouco de água a cada meia hora, quarenta minutos, distribuindo a ingestão dela durante a noite para assim o corpo conseguir utilizá-la de maneira adequada. Se tomarmos muita água de uma vez, o corpo não fará o uso dessa água para limpeza dos fluidos e a limpeza do sangue.” A água é um fator essencial no funcionamento, bem estar e saúde do corpo e a desidratação pode causar diversas complicações, além de dores de cabeça e stress. Então, vamos evitá-los, ok? Hidrate-se!
Cuidado para não sabotar seu jejum
Além de nos cuidarmos quanto à nossa conduta para não resumirmos o jejum à privação de comida e bebida, devemos lembrar de não nos sabotarmos também quando aos benefícios nutricionais, sobrecarregando o estômago com uma grande quantidade de alimentos gordurosos, de difícil digestão, açúcares e calorias vazias. Samara aconselha: ”Não é porque você está jejuando que você pode comer o mundo todo quando quebra o jejum. Isso vai muito mais de um apelo psicológico que a pessoa tem, visto que por ter ficado muitas horas sem comer, acaba achando que pode comer tudo, ou que deve se recompensar... E se você for por esse caminho, todos os benefícios que mencionamos não vão ser mais aplicados, porque se comer em poucas horas muito mais que comeríamos ao longo do dia, consequentemente teremos ganho de peso. Existem casos de pessoas que fazem o jejum espiritual do jejum de Ramadan e ganham peso, porque no horário do Iftar (quebra de jejum) acabam comendo mais por estar em família, tendo ali uma mesa de comida posta. A pessoa tem nisso, claro, o benefício de se sentir bem por estar fazendo uma devoção a Deus , porém não tem o benefícios de diminuir o benefício da diminuição de diminuição calórica por conta da ingestão de açúcar, alimentos com base de farinha de trigo refinada, não aproveitando os benefícios que o jejum poderia trazer no aspecto fisiológico.”
Alimentos do bem x O que evitar
A Dra. Samara ensina que quebrar o jejum com uma tâmara e água a seguir de uma refeição equilibrada (como foi ensinado pelo Profeta Muhammad, que a paz de Deus esteja com ele) é de fato o método mais ideal de finalizar um dia de jejum. A refeição mais elaborada pode vir depois, evitando comer algo muito pesado (o que faz com que o sistema digestivo gaste a energia remanescente para digerir essa refeição, causando letargia, o que pode também interferir negativamente nas orações de Taraweeh – oração especial realizada nas noites de Ramadan –, por exemplo).
Uma refeição mais proteica e com gorduras naturais (como a do abacate, castanhas, nozes, queijos amarelos, óleo de coco e azeite) pode ser deixada para o Suhur (última refeição feita pouco antes do início do jejum, como um café da manhã, o que dará sustento e energia para o seu corpo no dia seguinte. Fontes de proteínas como grão de bico, lentilha, suplemento (Whey), coalhada e ovos (em especial) também são ótimas opções, assim como alimentos com fonte de fibras (como tâmaras, frutas, aveia e pão integral). "Nessa refeição, evite excesso de sal, pois elas te deixarão com mais sede. Excesso de carboidratos (como pão branco, doces e açúcar) também tem o mesmo efeito, devido ao aumeno da glicose no sangue." Outra coisa a se evitar são bebidas diuréticas. Segundo a nutricionista: "exagerar no café ou no chá aumenta a eliminação de água. Se quiser, beba somente uma xícara, e beba mais água." Não se esqueça de se hidratar, antes e depois das refeições e a cada 30 minutos.
Posso praticar atividades físicas?
Sim! Mas isso depende muito da individualidade de cada um. "Se você é uma pessoa já acostumada a praticar atividade física, pode por exemplo treinar uma hora antes da quebra do jejum. Assim, o desjejum já será seu pós-treino. Mas se for uma pessoa que não é adaptada ao jejum ou não possui um nível de treinamento físico bom, é mais interessante realizar a atividade física já alimentada, ou seja, uma boa opção seria que essa pessoa quebrasse o jejum com uma refeição leve, e saísse para treinar. A refeição antes do treino não deve ser pesada, porque fazer atividade física com o estômago muito cheio atrapalha. "O que seria legal fazer? Quebrar o jejum, comer uma tâmara, se hidratar, comer por exemplo uma banana com pasta de amendoim ou fazer um pequeno lanche, com sanduíche por exemplo e sair para treinar. Depois ao retornar, você pode voltar e jantar com um prato mais equilibrado de pós treino." Sugere a Dra. Samara. Ela orienta também que "caso queira jantar e ir treinar, é possível fazer uma refeição bem estruturada na quebra do jejum e fazer o treino após cerca de duas horas. Assim, estará bem alimentada(o) e o corpo já terá feito uma boa digestão."
Treinar durante o dia não é uma boa recomendação. "Se você vai ficar muitas horas ainda sem comer, a tendência é que você não consiga recuperar de maneira eficiente essa musculatura que lesionou durante o treino. O treino é um estímulo de lesão nos musculos e conforme vamos nos alimentando e descansando nas próximas horas o corpo vai reconstruíndo esse músculo e o tornando mais forte." Explica a nutricionista.
Missão dada é missão cumprida
Lembre-se: O jejum dura apenas algumas horas e traz consigo inúmeros benefícios: espirituais, mentais e para a nossa saúde. Deus nos reafirma ao tratar esse assunto:
"Allah vos deseja a comodidade, e não a dificuldade, mas cumpri o número de dias (de jejum) e glorificai a Deus por ter-vos orientado, a fim de que Lhe agradçais."
O objetivo de tudo isso é extamente nos aproximar de nós mesmos, do nosso íntimo, nos auxiliar a cuidarmos da nossa fé e buscarmos a conexão com Ele. A intenção é adquirirmos virtudes, nos desvincular de vícios e maus hábitos, aprendermos o autocontrole, a paciência, o cuidado pelo outro que não possui os meios para se alimentar, a empatia e principalmente: a gratidão. A nossa missão é ler e reproduzir em ações com o coração aberto novamente a carta de orientação, amor e Misericórdia que Ele nos envia e sentir tudo isso nos envolver mais uma vez, nos lembrando do nosso propósito, e assim, nos nutrindo, de dentro para fora. Ele nutre nossa alma, então que não nos esqueçamos de nutrir o nosso corpo na mesma medida com os bens que Ele nos fornece.
Ramadan Mubarak! Um abençoado Ramadan! ♥

A Doutura Samara Dias além de formada em nutrição pela USP, realizou durante a graduação pesquisas científicas no laboratório de Nutrição Esportiva da Escola de Educação Física da mesma, onde participou de um estudo sobre consumo de proteínas e fragilidade em idosos, que teve artigo científico publicado na European Journal of Clinical Nutrition. Depois de ganhar uma bolsa por mérito acadêmico para realizar intercâmbio de pesquisa científica em Portugal, na Universidade do Porto, onde morou por 6 meses, estudou sobre educação nutricional e saúde pública e realizou trabalho voluntário para idosos da Santa Casa de Misericórdia do Porto. Após a graduação, realizou duas pós graduações: de Nutrição Clínica Ortomolecular e Nutrição Esportiva. Trabalhou por dois anos na clínica medicina esportiva do Dr Rogério Padovan, mas preferiu se desligar de lá para ser autônoma, hoje seguindo carreira independente atendendo os próprios pacientes em consultório particular e online.Saiba mais e acompanhe a Doutura Samara pelo Instagram: @dra.samaradias. 😊

Manie El Khal é Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.
Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.
Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah


