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Por Manie El Khal, 8 de Março para o blog Hijab • Se

Domingo. Para muitos, dia de reunir a família; para outros, dia de encontrar os amigos ou de se apreciar a própria companhia. Mas existe algo especial sobre esse domingo 8 de março: algo mais a ser apreciado. Seja em família, com amigos ou sozinhos, têm-se um lembrete para refletirmos sobre as nossas guerreiras: as mulheres.


Dia Internacional da mulher, o típico dia em que recebemos rosas, abraços, felicitações e os posts em redes sociais sobre o assunto saturam a internet. Seria isso suficiente? Nos últimos anos, a reação das mulheres quanto a isso tem sido diferente. Respostas como “não queremos rosas, queremos respeito” tem sido uma tendência entre nós. Bom, francamente, isso é a mais pura verdade. Do que vale um momento de apreciação teórica se na realidade prática temos uma história diferente, não é mesmo? Vivemos em uma sociedade em que constantemente devemos ir além para provar nosso valor e trazer à tona debates sobre o respeito à mulher, porque apesar de tanta luta e uma aparente mudança de uma mentalidade patriarcal machista e insalubre, mostra-se evidente a urgente necessidade do real desenvolvimento de uma consciência coletiva de valorização da mulher. Pra ontem.


Enquanto no mundo inteiro desejamos um feliz dia da mulher para nossas mulheres, no Brasil somos recordistas em feminicídios – crimes de ódio motivados pela condição de gênero, ou seja, assassinatos por nenhuma outra razão exceto o fato de se ser mulher –. Apesar de levarmos o recorde por aqui, com uma média de uma mulher impiedosamente morta a cada sete horas, (sim, s-e-t-e h-o-r-a-s), isso não é uma realidade muito diferente no resto do globo, o que infelizmente tem sido dessa forma historicamente desde que nos entendemos por gente. Nossos registros históricos retratam uma realidade perversa em que a mulher tem sido sempre objetificada, usada como artigo de luxo e ostentação, explorada, violentada, segregada e privada de sua liberdade e direitos básicos (como vemos até hoje, muitas vezes o próprio direito à vida).


Sendo assim, torna-se completamente incoerente (e em diversos casos até mesmo uma atitude hipócrita) dedicar um dia às mulheres e presenteá-las com flores enquanto nos outros 365 dias seus direitos básicos não são contemplados. Com o apoio do movimento feminista foi possível abrir os olhos de muitas pessoas para um assunto tão absurdamente sério, garantindo dessa forma à mulher algo que deveria ser seu por direito (privilégios dos quais os homens se aprazem sem qualquer esforço, simplesmente por serem homens). Entretanto, ainda assim encontramos uma série de dificuldades e desigualdades, sejam elas na criação e formação de caráter (tenho certeza que vocês já ouviram de alguém que “se você que é mulher não lava a louça, por que o seu irmão que é homem vai lavar?”, no espaço público (pelo qual andamos sempre alertas, desconfiadas e inseguras, correndo sérios riscos de assédio, estupro, feminicídio...), no mercado de trabalho (onde homens são sempre os escolhidos para ocupar posições mais elevadas e mulheres são pagas muito menos para exercer a mesma função), em nossos meios sociais (nos quais ouvimos absurdos de homens e até mesmo da boca de mulheres e que são levados como “humor”) e, na minha opinião, o pior dos casos: em casa, quando o lar se torna um pesadelo ao lado de um parceiro abusivo. Feliz dia da mulher? Só depois de acabarmos com tudo isso.


“Ué, mas quem é você para falar sobre feminismo e direitos da mulher sendo muçulmana?”. A resposta se encontra na própria pergunta: primeiro, sou mulher. E o que me dá tanta propriedade para falar sobre o assunto é exatamente o fato de ser uma mulher muçulmana. Sou adepta de uma fé que contempla, encoraja, aplica e luta pelos direitos das mulheres há mais de 14 séculos (repito, qua-tor-ze sé-cu-los), a mesma fé que chegou em um contexto onde o nascimento de uma mulher era considerado o ápice da desgraça para uma família (perdoem o termo, mas ele é coerente e necessário a tal realidade), e nesse caso, ou a filha era enterrada viva (foi exatamente isso que você leu), ou era poupada pra que servisse e fosse uma máquina de prazer e procriação. Qual foi a posição do Islam diante disso? Clara e simples: colocando o pé na porta sem receio e desafiando essa sociedade, não somente garantindo a mim, a você e toda e qualquer outra mulher o direito à vida, mas a uma vida digna em que somos donas de nós mesmas e não nos submetemos a nada nem ninguém exceto à vontade de Deus, que nos ama e nos cuida como ninguém. O pacote veio completo: 1441 atrás, quando nem se imaginava que a mulher pudesse ter alma, o Islam provou que isso ainda era pouco e nos garantiu o direito à liberdade de escolha, ao voto, à herança, ao divórcio, ao prazer na relação matrimonial, ao estudo, ao trabalho e à igualdade, todos esses, direitos recentes na sociedade ocidental e alguns deles cujos quais lutamos até hoje para conquistarmos. Vale a reflexão.


Me surpreende uma manipulação midiática tão bem feita e um grau de ignorância tão elevado para que o Islam acabe sendo erroneamente retratado como uma religião machista e opressora à mulher, quando na verdade ela é o exato oposto disso e o faz melhor do que qualquer outra coisa, colocando a mulher em um patamar jamais visto antes e exaltando suas virtudes. Isso é tão claramente exposto de forma que aprendemos que o cuidado em relação à mulher é tão fundamental que “o Paraíso se encontra aos pés das mães”, um pai que cuida de suas filhas até que elas atinjam a independência é garantido o paraíso e o “melhor de vocês é aquele que é melhor para vossas mulheres”.


“Mas vocês dizem isso porque vivem no Brasil no século XXI, queria ver se morassem ‘lá’ antigamente”. Hmmmm, não. Primeiramente, apesar de ter tido seu berço na Arábia Saudita, o Islam é um modo de vida universal, não sendo dignamente representado por qualquer país e tampouco por uma cultura. Infelizmente, muitas vezes esses dois elementos se misturam em locais de maioria muçulmana e por falta de conhecimento religioso, partes obscuras de uma cultura podem influenciar ou sobrepor a prática da religião. Isso implica uma falha humana, não possuindo quaisquer fundamentos na fé. Prova disso são os implacáveis exemplos de mulheres das primeiras gerações de muçulmanas. A primeira pessoa a abraçar o Islam foi Khadijah (RA), a esposa do Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja com ambos). Uma viúva bem sucedida, possuía seu próprio negócio, era chefe do Profeta, 15 anos mais velha e foi quem o propôs em casamento. (Pensem só que mulher!)


Não existe melhor exemplo de bons tratos, respeito, cuidado e apreciação à mulher como o do Profeta em relação a suas esposas, filhas e quaisquer outras figuras femininas de seu convívio, exemplo esse que ele passou para seus companheiros e pregou durante a sua vida, ressaltando tal importância até – literalmente – os seus últimos dias. Khadijah (RA) foi quem apoiou o Profeta em sua missão, providenciando os recursos necessários e servindo como um alicerce para a fé. Alguns anos após sua morte, outra mulher incrível continuou seu legado ao lado do Profeta: Aisha (RA) foi responsável por narrar a maior parte dos Ahadith existentes (ditos e tradições do modo de vida do Profeta), ensinando não somente inúmeras outras mulheres, como também homens com seu enorme conhecimento.

Ou seja: apenas com dois exemplos vemos a influência que as mulheres essencialmente tiveram na formação e divulgação do Islam. Esse legado foi seguido por muitas outras contemporâneas a elas, assim como as próximas gerações. Um outro exemplo interessantíssimo é o de Fatima Al Fihri, uma mulher marroquina muçulmana fundadora da primeira Universidade no mundo inteiro. Preciso falar algo mais? Creio que não.


Isso se estende até os dias de hoje, onde temos uma mulher muçulmana na Palestina batendo recordes de formação no curso de medicina aos 14 anos de idade, muçulmanas fazendo contribuições incríveis na ciência, medalhistas olímpicas e campeãs no esporte, empresárias e líderes com trabalhos maravilhosos, mulheres na política, ativistas consistentes, escritoras, artistas... Enfim: mulheres brilhantes por toda parte.

Conquistas assim me dão esperança e a sensação de um “feliz dia das mulheres”, porque mulheres, independente de qualquer coisa, muçulmanas ou não, devem sim ser celebradas. Mas não apenas por um momento, não somente em um dia específico. Muito menos só através de palavras vazias, atitudes contraditórias e presentes sem essência. E é por isso que nós, mulheres, devemos nos empoderar juntas, lidar umas com as outras com amor e empatia e reviver uma questão importantíssima: sororidade. Uma aliança feminina baseada no apoio mútuo, na solidariedade e na força, em prol do nosso maior objetivo comum: a nossa valorização, igualdade de gênero e nosso espaço na sociedade. Se eles não cedem, juntas nós damos as mãos e tomamos de volta nosso lugar: nem em cima nem em baixo: bem ao lado deles.

Feliz todo dia, mulheres!


Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.

Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.


Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah

 

Atualizado: 7 de mar. de 2020

Por Manie El Khal, 22 de Fevereiro para o blog Hijab • Se


O Carnaval é uma festividade popular tradicional que acontece em diversos lugares do mundo, com maior intensidade no Brasil. Suas origens e significado inicial são desconhecidos diante das divergências históricas quanto aos primeiros registros carnavalescos, tendo sido essa festa reproduzida em diferentes sociedades e épocas de formas diversas. Hoje em dia, assimilamos o Carnaval ao Catolicismo e os dias que antecedem o período de jejum Quaresmal, sendo essa visão interpretada a partir do termo original do latim, Carnis levale (em português, retirar a carne), retratando o objetivo de treinar os fiéis quanto ao controle de prazeres mundanos.


Mas qual seriam as controversas influências históricas, então? Até onde registros nos permitem, narra-se que na Babilônia existiram duas festas que possivelmente deram origem ao Carnaval: as Sacéias e o período de transição de ano na Mesopotâmia (que se dava próximo ao equinócio de primavera). Em ambas as celebrações, existia uma inversão de papéis entre a figura de mais poder e a de menos poder. Nas Sacéias, prisioneiros passavam a viver, agir, se vestir e comer como os reis, inclusive dormindo com suas esposas. Após esse curto período, o prisioneiro voltava à sua posição e logo recebia sua punição: enforcamento. Já na festa de passagem de ano, a figura real novamente aparece invertendo papéis, dessa vez sendo o Rei a assumir papel de servo diante de seus deuses mesopotâmicos. Ele era surrado no templo de Marduk em frente à estátua do deus, de forma a demonstrar sua submissão a ele antes de ascender ao trono mais uma vez. Acredita-se que possivelmente, a inversão de papéis ao se vestir - muito presente nos carnavais brasileiros – seja herdada dessas tradições.

Nas sociedades greco-romanas existiram festas como os “bacanais” entre 605 e 527 a.C. em homenagem a seus deuses e comemorações de cultos agrários, onde era típica a embriaguez e entrega aos desejos e prazeres carnais. Nessas festas, eram comuns entre todas elas uma fartura de comidas, bebidas, dança e inversão de papeis sociais.


Com o sigificativo ganho de poder da Igreja Católica, as comemorações desses tipos de festividades pagãs eram preocupantes, visto que as pessoas se entregavam aos seus desejos abertamente (além da grande crítica da inversão das posições sociais pela Igreja). Dessa forma, a alternativa para a resolução desse problema foi dar um novo significado às celebrações. Com a criação da Quaresma durante a Alta Idade Média, essas festas passaram a se concentrar no período que a antenede, de forma a permitir que os fiéis tivessem um tempo de preparo mais "light", podendo cometer seus excessos antes da rigidez aplicada na Quaresma.


Já no Brasil, apresentou-se o Carnaval ao país pela primeira vez em 1723, com festas populares chamadas de “Entrudos” trazidas pela Corte portuguesa, mas há quem creia que isso ocorreu somente com a chegada da Família real ao Brasil mais tarde em 1807, evento no qual pessoas celebravam publicamente fantasiadas, usando máscaras e com música pelas ruas.

Independente da data, uma coisa é fato: os entrudos tinham muita força, desde as camadas mais pobres à própria família real. Durante as festividades, eram típicas brincadeiras como o “jogo das molhadelas”, na qual as pessoas utilizavam frascos preenchidos com líquido para molhar e sujar passantes na rua. Esse líquido poderia ter alguma fragrância ou em sua composição adição farinha. Muitas vezes, podiam ser adicionados a essa mistura alguns líquidos malcheirosos e até mesmo urina. (Sim! Eca!) Com o tempo, já no século XIX, isso passou a incomodar a elite. Com a transição de monarquia para república, eram constantes as repressões de manifestações públicas, assim como os processos de “ordenamento” das cidades com expulsão de classes mais baixas dos centros. Isso gerou a repressão do evento, fomentada pela imprensa, fazendo o evento finalmente vir ao fim no início do século XX. De maneira simultânea, a elite passou a criar bailes de carnaval privados em teatros e clubes, mais tarde levando isso às ruas através de Desfiles das recém criadas “Sociedades”.


Ainda assim, as tentativas de se expressar com eventos culturais da camada popular se mantiveram firmes e incessantes, o que se deu através de "ranchos” (mais comuns entre o público rural), “cordões”, e marchinhas de carnaval, com estética similar a procissões religiosas e forte presença de elementos culturais como a capoeira, instrumentos e ritmos musicais de origem africana, tais como o afoxé, frevo e maracatu (popularizados inicialmente na Bahia, Recife e no Rio de Janeiro, se espalhando para todo o Brasil). Outro fato interessante é que as festas de dança de escravos levavam o nome de “samba”, e a mistura de ritmos musicais como tango, lundu, polca e maxixe davam origem a músicas com características do samba, que passou a reinar tradicionalmente nos eventos de carnaval desde os primeiros cordões de folia até hoje, entre todas as camadas sociais.


As origens e o significado exato do carnaval são misteriosos, diante de todas as suas múltiplas facetas no mundo por várias épocas. Mas apesar de um grande secularismo presente no Carnaval brasileiro, fica nítida a influência de elementos culturais – de grande relevância histórico afetiva –, além de uma enorme possibilidade de assimilação com práticas tradicionais pagãs da antiguidade clássica. Tendo em vista a diversa gama de misturas na formação do povo brasileiro, não é nada surpreendente que o Carnaval seja a maior festividade cultural do país.


Ame-o, ou deixe-o. (Antes que me joguem pedras, fica registrado aqui que permanecerei em casa. Hahahah.) Brincadeiras à parte, é importante que como brasileiros, tenhamos conhecimento de elementos importantes para a cultura local. Esse conhecimento além da superfície facilita a compreensão dos hábitos e necessidades culturais para um melhor diálogo e coexistência com hábitos e necessidades religiosas. Durante essas festividades, seria interessante uma iniciativa religiosa em relação ao estímulo da busca ao conhecimento, por exemplo. É de suma importância e seria de grande utilidade à comunidade a criação de contrapartidas saudáveis como alternativa a eventos nocivos à fé do muçulmano.

Apesar disso ser idealmente de responsabilidade de Mesquitas e Centros Islâmicos dentro de suas capacidades, qualquer uma ou qualquer um de nós pode ser essa iniciativa. Chame suas amigas para ir a um sítio e discutir temas que empoderem e somem às nossas mulheres; se coloque como voluntária para organizar um circuito de palestras de importância para a comunidade; faça um churrasco Halal colaborativo para as famílias... São inúmeras as alternativas. Seja lá qual for sua ideia, ela é válida, vá em frente! Vamos dar cor e brilho à nossa Ummah, mais do que o neon e glitter em qualquer Carnaval.

Bom feriado!


Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.

Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.


Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah

 

Atualizado: 1 de mai. de 2020

Por Manie El Khal, 27 de Janeiro para o blog Hijab • Se

Você sabia que existe um dia para o reconhecimento do Hijab no mundo inteiro? Sim! Esse ano, no dia 1º de fevereiro celebraremos pela sétima vez o "World Hijab Day", ou dia Internacional do Hijab. O evento para comemoração dessa data foi criado por Nazma Khan em 2013 e ocorre em mais de 140 países, sendo a intenção principal do evento uma oportunidade e convite para as mulheres do mundo inteiro experimentarem um dia com o Hijab, independente da religião, nacionalide ou qualquer outra coisa. A iniciativa traz uma consciência maior da sociedade em relação à percepção do Hijab e das mulheres muçulmanas, e é uma excelente oportunidade para o diálogo interreligioso e principalmente para se quebrar estereótipos e controvérsias referentes à mulher no Islam. Então aproveite a deixa e convide suas amigas para usar o Hijab por um dia e/ ou falar sobre o assunto sem medo! Além dessa data, existem duas datas que incluem o Hijab e com muito significado por trás: o “Global Pink Hijab Day”, criado no Canadá para gerar a conscientização a respeito do câncer de mama entre a comunidade muçulmana e o “Global Purple Hijab Day”, criado na Líbia como uma data de manifestação contra o abuso e violência doméstica.


Pesquisas feitas pelos organizadores do World Hijab Day indicam que mais de 71% das mulheres que fazem o uso do Hijab sofrem ou já sofreram algum tipo de discriminação – em especial em países europeus e americanos –; 94% afirma se sentir empoderada pelo Hijab; e 93% afirma não ter tido qualquer influência masculina na decisão.

Sim, de fato, existe a outra parcela nessa conversa e apesar de serem a minoria, essas mulheres não são desconsideradas, muito pelo contrário. Infelizmente, existem algumas famílias muito tradicionais que muitas vezes não entendem a essência real do Hijab, exceto pela perspectiva cultural, tornando ele um fardo não facultativo imposto à mulher. Entretanto, essa não é nem de longe a perspectiva religiosa, que dá à mulher seu direito de escolha, entre uma série de outros direitos, muito antes de qualquer sociedade ocidental.


Zara, uma seguidora paquistanesa do World Hijab Day, comentou na Pesquisa:

“O Hijab não é uma barreira para minhas ambições, nem me sinto oprimida por ele. Pelo contrário, ele é uma escolha, um sentimento, uma identidade. Sinto-me livre com o Hijab, empoderada, protegida, mais forte na fé e mais apaixonada por me tornar um ser melhor em geral. Todo mundo viaja através de sua própria jornada espiritual e a minha se sente mais saudável desde que eu abracei meu Hijab.”

Já ressaltamos isso em diversos dos nossos textos: O Hijab é uma jornada pessoal única e cada mulher tem sua história, acompanhada de suas próprias batalhas e vitórias. Cabe apenas a ela mesma fazer essa escolha, decisão que é tomada todos os dias. Muitas vezes, nossa tendência como mulheres muçulmanas nas sociedade contemporânea – em especial no Ocidente –, é de hesitação quanto ao Hijab por diversos fatores, sejam eles o medo – das reações daqueles mais próximos; da falta de aceitação dentro de nossos círculos sociais; do preconceito e possíveis agressões; – ou simplesmente por vivermos em uma sociedade que julga, reprime e segrega todo e qualquer indivíduo que não se encaixe nos padrões pré-estabelecidos que conhecemos tão bem, seja de maneira discreta ou abertamente manifesta.


A imagem que é passada e fomentada pela mídia, seja no cinema ou na literatura, é que somos oprimidas pelo Islam e principalmente pelo Hijab, o que dita a forma que somos vistas por grande parte das pessoas. Com o dia Internacional do Hijab, temos a oportunidade de tratar esses assuntos e criar outras iniciativas para que nossa voz seja ouvida e as pessoas saibam que para nós, o Hijab é um ato de liberação, de atitude e muito além do que uma forma de vestir. Opressão seria privar a mulher do seu direito de escolher que ela quer fazer o uso do Hijab como é feito em diversos países da Europa, não é mesmo? Não seria opressiva a tentativa de enquadrar as mulheres em geral em padrões e julgá-las a partir disso, objetificando-as e criando esforços desnecessários a elas para que se sintam valorizadas?


Pensando nisso, Toqa Badran, uma seguidora do World Hijab Day de New York, desabafa em um texto o seguinte trecho:

“A parte mais difícil de usar um hijab para mim, é saber que se eu o tirar, quase todo mundo me aplaudirá por “ser forte e corajosa”. Ninguém veria que minha força de vontade e orgulho teriam sido quebrados. As pessoas aplaudiriam quando eu realmente precisaria que elas lamentassem comigo e percebessem que as causas desse acontecimento precisam ser erradicadas. O dia em que eu sair de casa sem o Hijab, será o dia em que minha convicção de que sou mais do que minha aparência for finalmente esmagada pelo desejo quase esmagador de ser apreciada e considerada digna por essa sociedade superficial. Não seria um dia a ser comemorado, seria um dia para questionar quando ou por que nossa obsessão pelas aparências ultrapassou nossas moralidades cultivadas e matizadas. Neste Dia Mundial do Hijab, eu queria deixar claro para minha própria situação, que se chegar um dia em que eu decidir tirar o meu hijab, não será um dia em que serei “libertada”, será um dia que terei parado de lutar exaustivamente por meus direitos, minha moral pessoal e minhas convicções individuais. Eu não terei decidido tirá-lo. Em vez disso, terei sido privada da minha capacidade de mantê-lo.”

Por essas e outras razões, a maioria das mulheres encontra alguma dificuldade nessa jornada, não por causa do Hijab, e sim pelo impacto dele em uma sociedade majoritariamente ignorante do que ele representa para nós.

Eu, Manie, assim como provavelmente toda e qualquer mulher hijabi, passei por tudo isso e perdi as contas de quantas vezes questionei minha trajetória com o Hijab, porém, jamais questionei o seu significado e valor. Me lembro perfeitamente de quando aos 14 anos decidi que queria ser mais do que uma muçulmana de berço que herdou o Islam e passei a buscar conhecimento até entender a essência da fé: a convicção. Com minha mente jovem tipicamente curiosa, comecei estudando assuntos polêmicos e logo me aprofundei na parte do Hijab, me apaixonando completamente por ele. Isso era um tópico que sempre me questionavam a respeito em todos os meus meios sociais. Me perguntavam, “e não chama mais atenção com ele do quem sem?” Pode ser que sim, mas a minha pergunta é: por quê? Por qual motivo não aceitamos e normalizamos o Hijab como qualquer outro símbolo religioso? Por que não nos educamos a respeito perguntando a uma mulher muçulmana o que o Hijab representa para ela ao invés de julgá-la, insultá-la e assumir que “isso é uma imposição masculina”, entre outros?


Por muito tempo almejei começar a fazer o uso dele, porém, com os receios mencionados acima, me reprimi. Passei a usar roupas comuns, porém modestas, mas ainda assim não tomei coragem para aderir ao véu em si. E tudo bem, isso fez parte do meu processo pessoal. Tentei usá-lo no Ensino Médio e assim que cheguei na escola ouvi uma voz masculina aos berros: “Terrorista!” Pasmem, esses atributos super agradáveis vinham de um “amigo”. Assim, por três anos deixei de manifestar algo importante para mim por medo do que a sociedade tinha para dizer sobre isso. Algo tão lindo, libertador, carregado de significado e que era consequência de todas as coisas positivas que se passavam no meu interior desde que escolhi o Islam como modo de vida. Me reprimi para que a sociedade não o fizesse. Isso, minhas caras e meus caros, isso sim, é opressão.


Alguns anos mais tarde, cheguei à conclusão de que não valia a pena vender a minha liberdade para comprar a aceitação do mundo. No dia 1º de Janeiro de 2016, assumi ao mundo quem eu era e recebi não só reações de aprovação e aceitação – as quais eu nem esperava –, mas muito mais amor e admiração do que eu imaginava, de pessoas que eu amava e até mesmo de outras mais distantes que eu nem sabia que alimentavam qualquer consideração por mim.

Moral da história: A maior parte dos medos que me impediam de dar esse passo, se resumiam a isso: apenas medos. Obviamente, isso não quer dizer que não exista preconceito e outros obstáculos, mas a partir do momento em que você decide ser dona de si e não permitir que algo ou alguém dite seu valor, eles se tornam insignificantes próximo à sua vontade de ultrapassá-los e ao orgulho que você carrega. Então, guardem esse conselho um pouco clichê, porém muito verdadeiro: Jamais deixe que qualquer coisa te impeça de ser você mesma. Se o Hijab é parte disso, assuma-o com muito amor e orgulho!

Vale ressaltar, mais uma vez: isso é um processo, jamais se envergonhe do seu. Aqueles três anos sem o Hijab foram de muito crescimento espiritual e emocional e foram essenciais para essa história. – O que mais uma vez prova que uma mulher que não usa o Hijab pode sim ter uma fé linda e completa, ninguém além dela sabe suas razões e ninguém tem o direito de julgá-la por isso. – Por fim, dei o meu primeiro passo no Ano Novo de 2016, mas a minha caminhada se iniciou muito antes. Ainda não cheguei onde desejo chegar com o Hijab, mas almejo levar esse pedacinho de mim comigo até o último dos meus dias.

E você? Qual a sua história? Abrace-a, conte-a, inspire outras mulheres! Seja lá onde você estiver em sua própria caminhada. Não deixe esse Dia Internacional do Hijab passar em branco, nós podemos fazer a diferença, mesmo que somente dentro do nosso círculo. Estamos juntas nessa!



Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se.

Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte. Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.

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