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Por Francirosy Campos Barbosa, 31 de Julho para o blog Hijab • Se

*Aqidah: Crença. *Qalb: Coração.

*Sabr: Paciência.


Quando o Islam nos ata é preciso entender que estamos falando de Aqidah, que deriva da palavra “Aqad” e significa firmar, laçar, atar. Atar uma coisa a outra. A crença (aqidah) em Deus envolve nossa mente, espirito e pensamento. Ciente de que temos um laço seguro com Deus é preciso seguir o caminho espiritual, pois já conhecemos as regras, e por isso, será mais difícil nos desviar do caminho correto (senda reta). É preciso consultar nosso coração (qalb) e transmutar nossos caminhos para um contato mais íntimo com Deus, um caminho de devoção, de práticas cotidianas, que amplie nossa sintonia com o Amado.


É preciso compreender que Qalb é a estrutura espiritual do muçulmano. O conceito de Qalb não é sentimental (emocional), mas sim, toda estrutura espiritual, esta que constitui atar-nos com o nosso Criador. Qalb é aquilo que pode ser invertido, transformado, quando alguém dá voltas, quando sentimo-nos em estado de troca. O profeta Muhammad (que a paz de Allah esteja sobre ele) dizia que o coração está sempre dando voltas, como uma pluma no deserto dá voltas de um lugar para outro. Se a sabedoria entra pelo ouvido, o coração é o depósito da sabedoria. A grandeza de um corpo não serve quando o coração está vazio.


A natureza (fitrah) do homem nasce com o coração sano. Todos nascem em estado de saúde mental e com a fitrah sã, porém somos desde sempre desviados da pureza do coração, o qual acaba adoecendo e esta enfermidade vai contaminando tudo à nossa volta. Por isso, não basta ao crente ter conhecimento das regras e o conhecimento do que é halal (lícito) e haram (ilícito). Precisamos conhecer os caminhos que se conectam a Deus. O Profeta (que a paz de Allah esteja sobre ele) ensinava-nos a curar nossos corações e eliminar os efeitos da enfermidade que nos atingem. Seus atos e palavras são exemplos desta purificação diária que devemos fazer.


Muitas vezes nos sentimos superiores demais por termos algum tipo de conhecimento, ou nos sentimos inferiores por não sabermos muito sobre o Islam. Para Deus não há diferença entre um sábio e alguém que entrou no caminho agora: o Criador encaminha quem Ele quer. Ele é o Misericordiador. A vaidade consome o nosso nafs (ego, vida) e ser vaidoso porque temos dinheiro, conhecimento, poder é extremamente nocivo. Nada disso pode ser maior que o nossa devoção ao Criador. Não há pecado que não seja perdoado a não ser quem quebrar o Tawhid (unicidade de Deus) associando a Deus qualquer outra coisa. Entretanto, nosso arrependimento (Tawbah) sincero purifica nossos corações e alivia o nosso fardo.



"Dize: Sou tão-somente um mortal como vós, a quem tem sido revelado que o vosso Deus é um Deus único. Por conseguinte, quem espera o comparecimento ante seu Senhor que pratique o bem e não associe ninguém ao culto d’Ele."

- Alcorão (Surata Kahf, 110)


   

Até mesmo quando somos devotos somos tentados por shaitan (satanás). Não podemos nos sentir melhores que outros porque só Deus sabe o que vai no coração de cada crente. Por isso, no caminho espiritual e da devoção é preciso tomar cuidado com o julgamento que fazemos de outros irmãos e irmãs e o cuidado de consultar quem sabe mais que nós antes de mencionar algo que possa ser prejudicial a outro.



"Ao tomarem (os hipócritas) conhecimento de qualquer rumor, quer seja de tranquilidade ou de temor, divulgam-no espalhafatosamente. Porém, se o transmitissem ao Mensageiro ou às suas autoridades, os discernidores, entre eles, saberiam analisá-lo. Não fosse pela graça de Deus e pela Sua misericórdia para convosco, salvo poucos, teríeis todos seguido satanás."

- Alcorão (Surata An Nissa, 83).



Buscar quem nos guie com sinceridade é importante neste caminho da devoção. Ouvir pessoas que conhecem mais a religião que nós, que tenham mais experiência de vida devota. Deus envia para nossa comunidade pessoas que nos inspiram confiança, paciência e que nos ouvem sem nos julgar. Esses, quando tem o coração atado a Deus e ao nosso amado Mensageiro saberão nos guiar, nos orientar e acolher. As pessoas são responsáveis por aquilo que ensinam equivocadamente, mas serão recompensadas pelos bons ensinamentos.


O caminho espiritual tem aqida, qalb e sabr (paciência). Paciência é parte da nossa fé. Diante da adversidade se faz a facilidade e nos reconecta ao caminho deste amor divino. Paciência também com os erros dos nossos irmãos, com a sua incapacidade de perdão. Penso que Deus dá um instrumento a cada um e em algum momento este instrumento nos desperta para vida que se reconcilia, se fortalece e se amplia em amor.


Sempre devemos pensar na nossa intenção em cada ação. Essas intenções estão relacionadas ao nosso Criador ou fazemos pela nossa vaidade? A nossa humanidade nos faz cair na vaidade e nos holofotes, mas por isso, temos a oportunidade cinco vezes por dia de nos limpar, pedindo perdão e começando novamente. Tudo o que nos atinge é da vontade dEle, como não sentir Sua Misericórdia? Como não sentir sua generosidade com Sua criação? Quando Ele nos escolhe, nos testa, é prova de que só Ele pode nos ajudar, mas estou certa que Deus nos envia anjos quando o suplicamos por ajuda. Por isso, quando uma atribulação nos acontece volta-se para oração, para o Dhikr (recordação de Deus) e faça uma sadaqa (doação), isso nos conecta com o sagrado e lembramos que tudo a Ele retorna. Se algo de muito triste acontecer lembre-se:


"Quem tem confiança em Deus, Deus lhe é suficiente em todos os assuntos.” 

- (Ibn Majah)



Por fim deixo meu recado às mulheres e homens muçulmanos: nós mulheres, não somos mais perfeitas porque usamos hijab, niqabs, burcas, etc. Pelo contrário, a vestimenta islâmica nos lembra cotidianamente o quanto somos imperfeitas e o quanto precisamos do perdão, e precisamos nos arrepender dos nossos pecados. Hijab é uma oração diária que eu faço pedindo a Deus que me ajude a sustentá-lo. Quando se diz que o homem tem um grau a mais que a mulher não significa que ele pode oprimi-la e violenta-la e sim que ele tem a responsabilidade extra de cuidar dela, da sua família, das pessoas a sua volta. O grau a mais é o grau da responsabilidade a mais concedida por Deus.


Eid Mubarak, queridos irmãs e irmãos, me coloquem nos seus duaa's (súplicas). Que Deus, o Altíssimo, abençoe o caminho de todos e os encaminhem para senda reta para que possamos viver um caminho mais espiritualizado e cheio de amor. Se há erros, que haja arrependimento, porque certamente Ele É Sabedor de tudo.

Dra. Francirosy Campos Barbosa é antropóloga, Livre Docente no Departamento de Psicologia da USP Ribeirão Preto, pós-doutora pela Universidade de Oxford sob orientação do professor Tariq Ramadan, coordenadora do GRACIAS – Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes. Autora do livro: Performances Islâmicas em São Paulo: Entre Arabescos, Luas e Tâmaras, 2017. Diretora dos documentários: Allahu Akbar, Vozes do Islã, Sacríficio, Allah; Oxalá na trilha Malê (todos disponíveis no vimeo.)


Acompanhe pelo Instagram: @francirosy_campos

 

Por Manie El Khal, 26 de Julho para o blog Hijab•Se

Quando pensamos em "Halal" logo nos vem à cabeça algo relacionado ao que é lícito dentro do Islam, ou a algo que é permitido comer, não é mesmo? Embora essas sejam as pautas mais faladas no que se refere ao Halal hoje em dia, o conceito de Halal engloba muito mais do que se parece, sendo um estilo de vida completo.

O estilo de vida Halal é baseado nos princípios da fé islâmica e é composto por diretrizes básicas que devem ser aplicadas em cada aspecto de nossas vidas, sendo o Islam uma fé holística e que nos proporciona orientações para qualquer questão, seja ela individual ou social, de forma atemporal e acessível a qualquer sociedade e cultura. Ou seja, ao tratarmos disso nos referimos ao próprio estilo de vida islâmico, em que princípios básicos de bondade, respeito, justiça, equidade, sabedoria e outras virtudes devem ser presentes em todos os assuntos. Além disso, em questões específicas existe a preocupação com pureza, higiene, segurança e sustentabilidade, entre outros. Vamos refletir um pouco sobre isso a seguir.


Acessibilidade e Completude do estilo de vida Halal

Ao contrário do que se parece, levar um estilo de vida Halal é muito simples, embora seja de conceituação mais complexa do que normalmente lhe é dada. Fazer essa escolha nada mais é do que prezar por decisões conscientes e direcionadas por virtudes, além de visar a saúde e preservação do meio ambiente e tópicos como até mesmo igualdade social, empatia e caridade, desenvolvimento e garantia de direitos humanos, trabalhistas, animais... como é ressaltado pela fé islâmica . Infelizmente, não existe nenhum país no mundo que aplique legitimamente a Legislação Islâmica que é tida pela falta de conhecimento como um bicho de sete cabeças, machista, violenta... e por aí vai, como é fomentado pela manipulação midiática. Se houvesse, tal país seria regido através dos princípios positivos e necessários citados acima, sempre em busca do bem estar social como um todo, desenvolvendo de forma exemplar uma sociedade igualitária, resiliente, justa, consciente e sustentável. Socialmente, isso inclui a forma que a Indústria é liderada, um Sistema Econômico limpo, maior Vigilância Sanitária, Controle de Qualidade mais rígido, inciativas de preservação à natureza, leis mais justas e reversão de impostos 100% a favor do cidadão, entre muitas outras coisas. Embora não exista um país 100% regido por tais princípios, alguns dos países de maioria islâmica buscam implementá-los com iniciativas em conjunto à sociedade ou por demanda dela , tornando essa opção mais acessível a todos. Mas seja lá qual for a postura do país, pouco importa: a escolha pelo Halal está dentro de cada um de nós.


Halal Lifestyle no Ocidente

O estilo de vida Halal é uma escolha que deve nos acompanhar como muçulmanos em cada setor de nossas vidas, o que não depende de qualquer circunstância externa, apesar de possivelmente ser influenciada por tal. Obviamente, é uma jornada única de cada um e deve ser praticada de forma natural, com a plena compreensão de que com ela, levamos uma vida mais saudável, respeitosa ao meio ambiente, aos animais e à vida alheia. São os mesmos princípios que devem ser observados numa escala social, independentemente de como o próprio país é regido. No Islam, acredita-se que devemos seguir a Lei do país em que se vive, e o estilo de vida Halal não vai de forma alguma contra isso, entretanto, questiona políticas corrompidas e filtra-as em nossos comportamentos na escala pessoal. Se sabemos que algo não é correto e que existem males para isso, simplesmente não aderimos e como indivíduos e cidadãos em uma Democracia, temos o direito de nos expressar sobre e de nos abster disso .


No que isso entra, por exemplo? Vivemos em uma sociedade globalizada, industrializada, que visa o lucro e o poder, consumista, extremamente marcada pela corrupção em qualquer escala hierárquica e que é abusiva às minorias, às mulheres, ao meio ambiente... . O estilo de vida Halal nos dá diretrizes de como lidar com isso e nos orienta a nos abster de qualquer coisa que alimente esse sistema insalubre e fortemente nocivo. Como dito anteriormente, não existe país que siga isso à risca, mas onde a demanda pela população é mais significativa, existe uma facilidade relativamente maior quanto ao acesso a certas coisas, mas o que não nos impede de fazer essa escolha no Ocidente, lidando com isso de forma alternativa o que inclusive, por sua relativa dificuldade nos garante ainda mais recompensas pelo esforço, inshaAllah (se Deus quiser) .



No que isso se aplica em nossas vidas?

Literalmente tudo. Risos. É natural que como muçulmanos desenvolvamos em nós o senso do que é o mais próximo do correto e o que pode ser eventualmente prejudicial, e assim vamos tomando nossas decisões. Isso vai desde o que consumimos à forma com a qual consumimos; ou ao tipo de produtos que compramos e às indústrias que ajudamos a crescer; à maneira que fazemos negócios e nossas transações bancárias livres de usura e até mesmo às nossas ideologias, como nos expressamos e os movimentos que apoiamos ou causas que defendemos. Isso inclui o que não é tangível, como nossos valores e comportamentos e consequências disso, mesmo que isso se refira apenas à nossa própria vida pessoal. Esses parâmetros nos ajudam a amadurecer um senso crítico e perceber se algo é apropriado ou não, pois mesmo que algo seja permitido, pode ser que não seja o ideal em determinada situação.


Em tese, algo Halal é algo lícito pelo Islam e que tem raízes comuns à pureza. Há muito mais opções de Halal do que coisas proibidas dentro da fé e não devemos tomá-la como algo quadrado e uma lista de "pode" e "não pode". Isso deve ser uma forma de levar a vida de modo mais leve e consciente em uma sociedade em que o acesso ao que é tóxico é livre e as opções negativas mascaradas e encobertas por belos discursos são infinitas. Por isso, quanto às formas de vestir, opções de lazer, produtos a se consumir e etc., é só usar a criatividade e se atentar aos pequenos detalhes na hora de escolher, fazendo assim boas e conscientes escolhas.


Em países em que somos minoria, pode ser um desafio encontrar produtos que se adequem às nossas necessidades e restrições, mas com um pouco de organização e união das comunidades muçulmanas pelo país, é possível mostrar essa demanda ao mercado e facilitar o acesso a produtos mais limpos em sua forma de produção. Vale ressaltar que um produto certificado como Halal deve ser investigado, tal como o órgão certificador, pois isso não necessariamente engloba toda a cadeia de produção. Seguem a seguir alguns exemplos de reflexões sobre o assunto.



Alimentação Halal: saúde, sustentabilidade e caridade


As diretrizes alimentares dentro do Islam são poucas, mas bem significativas. A alimentação ideal é uma alimentação saudável, higiênica, livre de componentes tóxicos em sua produção ou alimentos modificados geneticamente. Isso contraria os processos da Indústria com produção em massa e produtos com diversos componentes químicos, corantes e conservantes. Isso também foge da lógica de produção forçada da natureza, que gera um solo comprometido em que sempre existe o uso exacerbado de pesticidas e agrotóxicos nos produtos naturais. Fugindo disso, visa-se a produção lenta, natural e saudável de alimentos igualmente benéficos e consequentemente preservando a saúde de pessoas e animais que consomem deles e estimulando um consumo equilibrado.


É necessário compreender que o consumo deve estar em coerência com a necessidade, evitando-se o excesso. O Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja sobre ele) nos orientou sobre visualizar o estômago em três partes, reservando 1/3 para o alimento, 1/3 para a bebida e permitindo que 1/3 se mantenha vazio para a respiração, evitando a letargia e outros problemas consequentes de uma alimentação excessiva. Além de ser um excelente hábito alimentar, ainda nos impulsiona a dividir do que temos com aqueles que não tem.

"Não é um crente aquele que dorme com o estômago cheio enquanto seu vizinho está com fome."

Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja sobre ele)


Dentro dos alimentos de consumo proibido estão a carne suína, a carniça, animais carnívoros, sangue e o álcool. Quaisquer traços ou derivados disso também são proibidos. É permitido consumir peixe, carne vermelha e de frango, porém isso deve levar em conta não só um processo de abate humanitário humanitário de verdade, não aquele de mentirinha que a Indústria faz para Marketing que evita que o animal sofra, como também deve preservar a dignidade do animal durante toda a sua vida, permitindo que ele cresça livremente, seja cuidado e alimentado da forma ideal e natural e eventualmente abatido longe de outros animais de forma rápida, cuidadosa e sem assustá-lo, exclusivamente para fins alimentares. Vale ressaltar que a dieta que o Profeta levou durante sua vida e a dieta encorajada a nós não tem como base a carne, o que mais uma vez bate na tecla de um consumo consciente e na preservação da vida animal de maneira digna.


Quando procuramos o termo "Halal" em qualquer plataforma de busca, surgem infinitos resultados sobre certificação de produtos alimentícios lícitos para consumo de uma dieta baseada em princípios islâmicos. No Brasil e em toda América Latina, essa certificação é feita pela FAMBRAS Halal e segue normas internacionais e de outros órgãos islâmicos. É possível encontrar no Site uma lista com marcas que possuem o Selo de certificação, porém, não significa que todos os produtos de determinada marca sejam de fato Halal, então se atente a cada produto e faça uma busca mais profunda sobre os valores e processos de produção da mesma.



Indústria de Moda & Cosméticos


Ao contrário do que muitos pensam, a mulher muçulmana pode sim explorar os artefatos de moda e beleza. A única diferença é que filtramos as intenções por trás disso e repensamos a forma com a qual aplicamos isso em nossas vidas. O expectador do cuidado feminino deixa de ser o outro e o público externo e passa a ser nós mesmas e aqueles mais próximos de nós. Assim, redirecionamos o olhar do outro para o nosso interior e o nosso valor deixa de ser definido por mãos e conceitos alheios.


Mais uma vez, aqui se aplicam os valores de higiene, saúde, sustentabilidade, consumo consciente... além das orientações específicas em função da Modéstia —. Mas de que forma se aplicam? Simples, qual é a composição de cada um dos cosméticos ou roupas que compramos? (Existem Websites e Apps sem fins lucrativos que mostram a composição completa dos produtos e o efeito delas sobre o nosso corpo, como o COSDNA e o Environmental Working Group); Eles fazem mal à saúde de alguma forma? Esse produto utiliza algum ingrediente nocivo ou ilícito em formulação ou processamento? Para produzir esse produto algum animal ou a natureza foram prejudicados? Precisamos mesmo desse produto específico ou estamos comprando impulsivamente? Ao renovar nosso guarda roupa acumulamos roupas que não usamos ou passamos elas em bom estado para quem precisa mais delas? Quem produziu essas roupas? Essa marca utiliza mão de obra escrava e/ ou mantem seus trabalhadores em condições desumanas de trabalho? Essa marca compactua com valores negativos ou polêmicos e/ ou está envolvida em algo do tipo? E por aí vai.


Em resumo, é simples: em tudo na vida, evite um comportamento automático e se questione até chegar à melhor conclusão sobre a escolha correta, mais ética e mais saudavelmente consciente. Por que é tão importante ter essa atitude? 1. Dormiremos tranquilas sabendo que fizemos a coisa certa. 2. Estaremos fazendo nossa parte em tornar esse mundo um pouco melhor. 3. Estaremos cuidando da nossa saúde e bem estar e da saúde, tais como de outras pessoas e da natureza. 4. Estaremos enfraquecendo um sistema altamente nocivo e em seu lugar, apoiando marcas que se preocupam com os mesmos valores de base. 5. Estaremos sendo recompensadas por essa atitude e encorajando outras pessoas a terem a mesma postura. Em conclusão, viver de forma Halal é a melhor e mais leve forma de viver em coerência com nossos princípios de fé e simultaneamente cuidar do mundo, em que cada escolha é gratificante, transformadora e impactante, cujos frutos colheremos alegremente, seja aqui, ou em uma dimensão melhor.

Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e Colunista Oficial da Hijab•Se. Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.

Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.

Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah

 

Por Manie El Khal, 19 de Julho para o blog Hijab • Se

Todo mundo já ouviu falar sobre o Hajj naquela aula de história do Ensino Fundamental e Médio, não é mesmo? Sem detalhes, o professor conta rapidinho que é aquela visita a Meca que todo muçulmano deve realizar ao menos uma vez na vida quando se tem condições físicas e financeiras para isso. Sim, de fato. Mas o que mais? Aprendemos como muçulmanos um pouco mais sobre o assunto, por ser um dos pilares sob os quais se fundamenta a religião, porém, muito se perde nas entrelinhas se não buscarmos além. Às vezes, por não termos as condições financeiras para realizar o Hajj ainda, não nos aprofundamos no assunto, mas garanto que é um assunto de imensa relevância e sua compreensão é essencial e revolucionária, diga-se de passagem! . Os dez dias em que acontece o Hajj são de imensa virtude, similares às últimas dez noites do mês de Ramadan. Tendo isso em vista, trouxemos um pouquinho sobre a história do Hajj e algumas informações sobre esse período para que possamos juntas(os) aproveitar ao máximo e garantir belas recompensas nos próximos dias (entre o dia 22 e 30 de Julho, como veremos com mais detalhes abaixo). Se liga! ♥

Abrãao: o amigo de Deus

Tudo começa com o Profeta Abraão (que a paz de Deus esteja sobre ele) e logo entenderemos por quê. Abrãao cresceu em uma nação que vivia fortemente a idolatria - na qual, inclusive, seu pai confeccionava ídolos . Desde sua juventude Abrãao questionou tais práticas, buscando sempre o caminho do Monoteísmo. Foi expulso de casa pelo pai, perseguido e jogado vivo no fogo por conta disso mas foi salvo por Deus em todas as tribulações que o afligiram . Escolhido como Profeta e Mensageiro sendo um dos mais importantes de toda a história da humanidade desenvolveu seu relacionamento com Deus fundamentado sobre a constante e total confiança e submissão a Ele. Na vida adulta, permanecia enfrentando testes, sempre pacientando e demonstrando satisfação com os planos divinos. Por essa virtude, Deus o reconhecia como " o amigo de Deus", aquele que vivia sempre próximo a Ele.

Sua esposa, Ágar, era estéril. Chegaram à idade avançada e sentiam a solidão de não se ter um filho, então Ágar sugeriu a Abrãao que se casasse com Sarah. Quando o fez, teve seu primeiro filho, Ismael, a quem Deus menciona ter sido uma paciente criança. Mais tarde, Ágar e Abrãao foram também finalmente agraciados com um filho: Isaac.


Quando o primogênito Ismael chegou à adolescência, Abrãao teve um sonho em que via que o sacrificava. Acordou então assustado - pois os sonhos dos Profetas eram também uma Revelação -. Ao acordar, logo contou ao filho, buscando saber o que ele pensava sobre. Ismael o respondeu então: “Ó meu pai! Faça o que lhe for ordenado, se Deus quiser, você me encontrará dentre os pacientes." [Alcorão, 37 :102]. Que teste, não é? Após uma vida com a frustração de não poder ter um filho, ao ser abençoado com um teve que dar aquilo que mais amava em sacrifício. É interessante notar também a postura do filho, que ainda em uma idade tão terna o que os sábios consideram ser cerca de 13 anos de idade já possuía em si também o princípio de se submeter a Deus como primordial, mesmo que isso significasse dar a própria vida.


Mas não acaba assim, existe um final feliz para essa história e para aqueles que confiam em Deus : Ismael foi salvo e em seu lugar foi-se colocado outro sacrifício. Era apenas um teste em que ambos foram bem-aventurados.

"Então, quando ambos se submeteram e ele o colocou prostrado na terra, o chamamos: 'Ó Abrãao, confirmaste o sonho!' Em verdade, assim recompensamos os que praticam o bem. Em verdade, essa foi uma prova evidente e o resgatamos com um grandioso sacrifício..."

Alcorão [37: 101-107]

Legado abraâmico

Na história de Abrãao (que a paz de Deus esteja sobre ele) existem diversos outros acontecimentos que se conectam com o Hajj inclusive, cada um dos ritos desse processo faz uma conexão clara e direta com algum desses acontecimentos . A proximidade do legado abraâmico ao Islam se estende para além desse assunto, envolvendo cada parte dele.


Uma vez, anos mais tarde, Deus pediu a Abrãao que construísse um local de adoração alinhado com uma casa do Paraíso e pediu que o purificasse para os monoteístas que na época, se limitavam a apenas a família de Abrãao, mas que eles tinham certeza de que completaria seu propósito no futuro, sendo um local para todos os monoteístas . Ele construiu a Caaba (Cubo) junto a Ismael, e ao levantarem os alicerces da Casa suplicou pela aceitação da obra, pediu a Deus que os estabelecesse como muçulmanos e fizesse de sua descendência uma comunidade muçulmana também. Ao final da prece, ele pediu para que dessa descendência viesse um Mensageiro vindo do próprio povo, que recitasse Sua mensagem, ensinasse o Livro e a sabedoria e os purificasse. Esse Mensageiro, foi ninguém menos que o Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja sobre ele), descendente de Abrãao através da linhagem de Ismael.



O Islam como conhecemos hoje é a realização da súplica de Abrãao ao construir a Caaba. O próprio Hajj é uma comemoração do sucesso consequente dos sacrifícios feitos por ele pela causa de seu Criador. Se olharmos para a vida do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele), tudo faz o mais perfeito sentido, pois enquanto Abrãao criava um local para a adoração de Deus unicamente em um contexto predominantemente politeísta, essas práticas permaneceram e tomaram conta inclusive da própria Caaba mais tarde, ao ponto de que eram deixados os ídolos para adoração nesse local e levadas oferendas até lá. Existia uma espécie de "Hajj" para visitação dos vários ídolos. Com o Profeta Muhammad, sua missão foi purificar a casa de Deus mais uma vez, libertando a Caaba dos ídolos para que apenas Deus pudesse ser adorado que era o objetivo da própria construção .


Por muito tempo durante a Revelação do Alcorão as orações foram direcionadas à Mesquita de Aqsa, em Jerusalém. A conexão que o Profeta Muhammad tinha com a Caaba era tão grande, que mais tarde Deus o agraciou com a mudança da direção, tornando a Caaba a nova Diretriz para as orações. Esse acontecimento teve uma enorme repercussão entre os opositores da fé, pois a mudança da Qibla (direcionamento) tem fundamentalmente a ver com a identidade islâmica e o reconhecimento dela como Nação. Isso também significa que somos uma continuação do legado que Abrãao estabeleceu e até hoje realiza-se através de nós a súplica que ele fez.

Unicidade Divina e União humana

“E quando indicamos a Abraão o lugar da Casa, dizendo ‘Nada associes a Mim, e purifica Minha Casa para os que a circundam e para os que nela se põem de pé, se curvam e se prostram em adoração.  E proclama a Peregrinação entre a humanidade: Eles virão a pé ou montados em camelo emagrecido pela longa viagem, vindos de desfiladeiros distantes."

Alcorão [22:26-27]

Isso foi dito a Abrãao, e hoje nós completamos essa promessa. Todos os anos, quando os muçulmanos vão ao Hajj, estamos revivendo a vitória e o cumprimento da missão de ambos, o Profeta Muhammad e Abrãao (que a paz de Deus esteja sobre eles). Em todo ritual realizado, somos lembrados da conexão entre eles e de toda história de sacrifício e dedicação que viveram para preservar e estabelecer a Mensagem. Nesse lugar e jornada Sagrados, podemos sentir como se estivéssemos vivendo esses tempos com eles e como uma comunidade isso rejuvenesce o senso de compromisso que mantemos como nação para continuar completando essa missão, levando essa Mensagem para o resto da humanidade.

Como indivíduos, essa experiência tem um significado ainda mais profundo, tendo em vista essa vivência espiritual coletiva, além das virtudes e significados de cada um dos passos do Hajj. No Hajj testemunhamos a união de milhões de pessoas das mais diferentes etnias, nacionalidades, cores, línguas, gerações e histórias em um mesmo local árido, desértico e sem vida, o que lembra o dia em que seremos congregados diante de Deus: o dia do Juízo vestindo os trajes mais simples remetendo também ao pano branco com o qual se envolve um muçulmano após a morte a única coisa a acompanhar-nos no túmulo além das ações . Isso evidencia e desperta em nós o senso de igualdade e união independentemente de qualquer aspecto mundano ou diferença racial, de gênero, status, classe ou afins, porque diante de Deus somos todos iguais.

Todos se envolvem com humildade vestidos exatamente da mesma forma, e seguimos dessa forma vivendo essa experiência em introspecção, recordando a Deus, refletindo sobre a bagagem que levaremos conosco e o dia em que seremos congregados diante do Criador com nada além dela. Completa-se cada passo lembrando dos sacrifícios feitos pelos Mensageiros para que ela pudesse chegar até nós a nossa responsabilidade de passá-la adiante da melhor forma. Caminhamos, oramos, suplicamos e enquanto isso ponderamos sobre os nossos próprios sacrifícios. Os Mensageiros enfrentaram provações quanto àquilo que mais amavam e ao se submeterem totalmente e sem qualquer receio ao que Deus os pedia, Ele logo os concedia o refúgio, a virtude e a vitória em todos os aspectos. Esse é o momento de entender os nossos testes e nos recordar com esses exemplos sobre a única forma de sairmos bem aventurados das provações: nos submetendo a Ele. Clamando por Ele e aceitando o Socorro que nos alcança tão prontamente.

Os últimos passos se dão no Monte Arafah, até onde os peregrinos caminham sob altas temperaturas e o Sol desértico logo após a primeira oração do dia o Fajr, ou oração da Alvorada —, onde permanecem até o pôr do Sol. Uma jornada e tanto né? Porém jamais ouvi qualquer peregrino se queixar, muito pelo contrário: se tem o sentimento imensurável de gratidão por ter-se tido a oportunidade de se viver essa experiência emocionante e sem igual. E essa jornada não é feliz só para quem embarca nela, mas também para Aquele que recebe as "embarcações". Durante todo o dia de Arafah o último dia do Hajj , Deus observa com apreço cada um dos peregrinos e os menciona aos anjos, atendendo às súplicas e estendendo Seu perdão e misericórdia. Como conta o Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja sobre ele) :

"Neste dia, Allah, o Altíssimo, desce ao céu mais próximo e se orgulha de Seus servos na terra, dizendo aos que estão nos céus os anjos : olhem para os Meus servos, eles vieram de longe e de perto, com os cabelos desgrenhados e rostos cobertos de poeira somente para buscar minha misericórdia. Mesmo que seus pecados sejam numerosos como a areia e quanto a espuma do mar, Eu os perdoarei." Arrepiaram? Eu também! Risos. Sabe a melhor parte? Vamos lá:

"Minha misericórdia abrange todas as coisas.

Alcorão [07:156]

Hajj em casa

Mais uma coisa fortemente afetada pela pandemia do COVID-19: a possibilidade de performance do Hajj. Anualmente, são mais de 2,5 milhões de pessoas do mundo inteiro performando o rito. Este ano, além de seguir um protocolo rígido de cuidados com saúde e higiene nesse processo, no Hajj serão permitidos apenas cerca de mil peregrinos sortudos! — residentes na Arábia Saudita. Acontece que em outros anos, mesmo com a peregrinação normal, somos bilhões em casa refletindo sobre e com aquela vontade imensa de correr para o Hajj nem que seja a pé! , não é mesmo? Muitos de nós só consegue ir com a idade avançada e outros nem mesmo tem essa possibilidade, porém, fato é que Deus busca nos recompensar por cada esforço em sua causa, independentemente dos resultados, nos explicitando isso no Capítulo que aborda exatamente esse assunto:

"E se esforcei pela causa de Deus como Ele merece; Ele vos elegeu e não vos impôs dificuldade alguma na religião, porque é o credo de vosso pai, Abraão. Ele vos denominou muçulmanos antes deste e neste (Alcorão), para que o Mensageiro seja testemunha sobre vós, e para que sejais testemunhas sobre os humanos. Observai, pois, a oração, pagai o Zakat e apegai-vos a Deus, Que é vosso Protetor. E que excelente Protetor! E que excelente Socorredor!"

Alcorão - Al Hajj [22:78] Se nós não vamos ao Hajj ele vem até nós. Simples assim. A Misericórdia divina alcança todas as coisas e cada um de nós é parte disso. Se não podemos fazer a peregrinação em si, a intenção é valorizada e nos é dada a recompensa da mesma forma que é dada aos peregrinos. Para quem fica em casa, pode-se aproveitar os dias desse período 22 a 30 de Julho e jejuar, refletindo sobre o significado de todas essas lições e intensificando as súplicas. Caso por alguma razão não seja possível, nos esforcemos para jejuar ao menos no dia de Arafah (30 de Julho) e fazer muitas súplicas, para que sejamos envolvidos pela Misericórdia e a Satisfação de Deus com Seus fiéis nesse dia — quem jejua esse dia com tal intenção, tem os pecados do ano anterior e seguinte perdoados —. Não vamos perder essa oportunidade, hein? Aquele Save The Date de qualidade. O Eid (nesse caso, a celebração pós Hajj) acontece no dia 31 de Julho. Por conta do isolamento social, não vamos às Mesquitas para a oração, porém, ainda se pode e deve fazê-la e comemorar em casa. Além disso, consulte sua respectiva Mesquita ou comunidade sobre o abate Halal a ser realizado após a oração do Eid caso tenha condições, remetendo esse ato à submissão de Abrãao e Ismael e a salvação dos mesmos com o sacrifício grandioso e atente-se à distribuição dessa carne um terço para si, um terço para família/ amigos e um terço para uma família necessitada . Depois disso, é celebrar! Celebrar a completude da fé, a renovação do nosso compromisso com ela, o Perdão e bênçãos Divinas e se Deus quiser, a possibilidade de realizarmos em breve pessoalmente essa experiência surreal e transformadora que é o Hajj, completando nossa religião. Você já sabia disso? Compartilhe essa informação com suas amigas(os) ou familiares muçulmanos para que possam se beneficiar de todas as virtudes desse período que começa já já! Lembrando que aquele que direciona alguém a uma boa ação recebe a recompensa equivalente dela também! :)

Desde já, feliz Hajj e um amistoso Eid Mubarak!!! ♥

Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e Colunista Oficial da Hijab•Se. Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.

Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.

Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah

 

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