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BLOG

Atualizado: 21 de jun. de 2020

Por Francirosy Campos, 21 de Junho para o blog Hijab • Se

Olá, leitoras(es)! Quem inicialmente vos fala é a Manie, Colunista Oficial do Blog.

Nos últimos tempos, temos movimentando o Blog produzido conteúdo a todo vapor e com muito carinho para vocês , porque o nosso propósito com essa plataforma, além de ciar um espaço para que nossas leitoras se sintam representadas como mulheres muçulmanas, é trazer conhecimento e pautas relevantes para reflexão. E como nossa intenção também é criar e fortalecer uma comunidade, estamos iniciando um novo projeto para o Blog com este texto visando mais uma vez o reconhecimento de nossas mulheres e trazendo a essa linda comunidade um pouco de suas contribuições. Convidamos uma mulher ilustre para ter sua coluna mensal no nosso espaço e esperamos que se beneficiem com toda a sabedoria que ela tem a transmitir.

Deixo com vocês a seguir o primeiro texto da série com nossa querida Dra. Francirosy Campos.

Um grande beijo a todas!

Manie ♥


Vivendo o Islam – uma antropóloga revertida


O Profeta Muhammad (que a paz de Allah esteja sobre ele) sempre repetia: "quem não agradece as pessoas não agradece a Deus", e por isso, começo este texto agradecendo à Hijab-se pelo convite para escrever para o Blog. Meu coração se enche de amor todas as vezes que posso ajudar de algum modo minha comunidade. Inicio esta linda parceria contando minha história, que pode ser a história de muitas manas, sejam elas muçulmanas revertidas ou nascidas no Islam.


Para quem não me conhece, sou Profa. Francirosy, Livre Docente no Departamento de Psicologia da USP. Sou antropóloga e desde 1998 pesquiso comunidades muçulmanas no Brasil. A pesquisa me levou a descobrir o amor pelo Islam e nesse processo foram 15 anos de pesquisa de campo, passando pelo mestrado, doutorado e concurso para docente da USP para me decidir com convicção pelo Islam. Sempre fui uma pessoa devota a Deus mas ainda não compreendia o Islam para vivenciá-lo. Cada livro que lia, cada palavra que ouvia, cada conversa com Sheik Jihad Hassan Hammadeh ,mais eu tinha certeza do meu caminho, mas adiava este dia por medo, por receio da não aceitação da família e dos amigos, e também porque a vida muitas vezes foi bem difícil em todos os sentidos.


Deus Encaminha quem Ele quer


Deus sabia e eu sabia, mas o tempo é quem diria quando e como. Muito tempo mais tarde - em 2013 - alguns episódios me sondaram. Era 25 de março de 2013, data em que comemorava 15 anos de pesquisa de campo. Para isso, enviei aos meus alunos-orientandos um poema que escrevi para minha tese de doutorado defendida em 2007 e um dos meus alunos me escreveu dizendo que precisava falar comigo naquele dia. Foi à minha sala e me disse que tinha sonhado que escrevia um artigo sobre o poema de um grande pesquisador do Islam e quando abriu seu e-mail encontrou uma mensagem minha com um poema. Então me perguntou: você nunca pensou sua relação com Islam? Já pensou em se reverter? Sorri e apenas disse que pensava nisso todos os dias.


Na mesma semana uma discussão em grupo do Facebook me chamava atenção: um muçulmano dizia – de forma isolada e fora do contexto – que não poderia rezar por não-muçulmanos quando esses morrem, e a discussão foi longa. Eu observava aquilo e pensava: será que toda vez que peço ao Sheik Jihad para rezar por mim, ele não reza porque não sou muçulmana? Foi então que resolvi mandar um MSN a ele e naquela época, quando ele não respondia, eu já sabia que a resposta era longa. Chegando na USP liguei para ele, que atendeu: Bom dia Dra! Respondi: Bom dia, Sher, então você não reza por mim? Não pode? E ele completou: Franci, faz algo para o meu coração, faz a shahada! Esta foi a única vez na vida que ele me fazia este pedido. Eu respondi: precisamos conversar, preciso de cinco horas sem que você atenda o telefone... Nosso encontro presencial não teve tempo, um mês depois eu enviava uma mensagem no Twitter e dizia a ele: Está pronto para ouvir a minha shahada? E fiz no Twitter repetindo uma semana depois em São Bernardo do Campo, depois das cinco horas de conversa.


A felicidade que sentíamos vinha acompanhada de medo e receio das pessoas não entenderem essa escolha. Pedi ao Sher para não contar a ninguém, visto que eu precisava processar tudo aquilo, e claro que nem ele aguentaria muito tempo esta notícia. Aos poucos passei a contar só para quem o meu coração sentisse sintonia, e assim foi e tem sido. Tive que mobilizar muitas coisas internamente – sou antropóloga que estuda o Islam, então me tornaria “nativa”. Mudo de lugar, como manter a análise crítica? Tudo isso foi muito bem pensado, e quem me conhece sabe, que não perdi meu olhar crítico e analítico.


Processo


Levei seis anos para colocar o lenço, que também foi fruto de muita reflexão interna, reflexões sobre prós e contras. Reflexões sobre corpo, beleza, cabelo e devoção. Nunca aprovei a ideia de tirar e colocar, nunca gostei de me sentir “fantasiada”, colocar em determinadas situações e em outras estar sem. O lenço exercia sua função apenas no momento de oração. Conversei com meus filhos, com algumas pessoas da comunidade, com o Sheik, e fui alimentando esta vontade, até que certo dia ao sair para ministrar uma palestra sobre Ciências Islâmicas na Faculdade de Direito da USP me olhei no espelho e disse para mim mesma que faltava algo. Foi então que coloquei o lenço e nunca mais o tirei. Não estava mais mobilizada pela emoção e sim pela razão e o sentido dado a tal experiência de devoção. Na verdade, esta sempre foi a recomendação do Sher:


"não coloque sob a emoção, mas sim, depois que a razão se sobreponha".


O lenço não tira nosso potencial, tampouco nossa beleza. O Hijab nos faz lembrar diariamente que não somos perfeitas, que erramos e precisamos melhorar. Toda vez que faço algo que me arrependo lembro que ele é o sinal do meu pertencimento, da minha devoção, da minha finitude. Allah é Suficiente para todos os nossos assuntos. E quando a incerteza e a tristeza vêm, lembro-me do Hajj (peregrinação a Meca) e da força que foi peregrinar. Muitas vezes sentia-me sozinha, mas sabia que agora em diante nunca mais estaria. Sei que Allah me ouve e se não me atende é porque ainda não chegou a hora.


Que Allah (Louvado Seja) abençoe a todas(os) as leitoras(es).

Assalamu Alaikum (que a paz de Deus esteja sobre vocês).


Francirosy Campos Barbosa é antropóloga, Livre Docente no Departamento de Psicologia da USP Ribeirão Preto, pós-doutora pela Universidade de Oxford sob orientação do professor Tariq Ramadan, coordenadora do GRACIAS – Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes. Autora do livro: Performances Islâmicas em São Paulo: Entre Arabescos, Luas e Tâmaras, 2017. Diretora dos documentários: Allahu Akbar, Vozes do Islã, Sacríficio, Allah; Oxalá na trilha Malê (todos disponíveis no vimeo.)

Acompanhe pelo Instagram: @francirosy_campos

 

Atualizado: 27 de jun. de 2024

Por Manie El Khal, 14 de Junho para o blog Hijab • Se

No último texto, falamos um pouco sobre o panorama histórico do racismo e como ele se estende à atualidade, além da clara oposição a isso pelo Islam através de seus princípios de igualdade e justiça social. Como o assunto é complexo e de grande relevância, não podíamos deixar de abordamos sobre a importância de figuras pretas na formação e desenvolvimento do Islam, tal como a desconstrução do racismo estrutural na qual a fé tem se engajado desde o início.

Fato é que vivemos em uma sociedade racializada, estruturada sobre a exploração dos pretos e o menosprezo quanto a suas vidas, cultura, contribuições... e por aí vai. Essa sociedade se baseia no corpo social em que predominam a desigualdade socioeconômica, a segregação residencial – com base nas diferenças raciais, consequentemente socioeconômicas – e nela, as baixíssimas taxas de casamentos entre os indivíduos diferentes são a norma, assim como a distinção racial na formação de grupos de relacionamentos. As sociedades construídas sobre o processo de racialização – que durante séculos incluiu a escravização de indivíduos pretos com seus efeitos nítidos até os dias de hoje – designa atribuições diferentes a indivíduos de diferentes grupos – considerando a linhagem racial – e dessa forma atribui privilégios ou inconveniências de um sobre o outro de acordo com tais características, no que inclui os aspectos políticos, econômicos, sociais e psicológicos.


Historicamente, isso deriva do processo de colonização, principalmente a partir do século XVI, com as “conquistas” repressivas na Ásia, África e América Latina por europeus ocidentais através de seus novos meios técnicos e militares, o que ocorreu com o intuito não só de adquirir mais terras, mas de extrair riquezas naturais e minerais dessas áreas utilizando o trabalho nativo. Mais tarde, com o trabalho escravo ou exploratório, houve a transferência desses trabalhadores para outros países, estabelecendo péssimas – e desumanas – condições de moradia e trabalho mesmo após a “abolição” da escravatura. A verdade é que nunca houve uma real abolição, a escravidão do povo preto apenas foi reformada e ressignificada ao passar dos séculos, perdurando até o momento em questão, o qual adoramos chamar de “pleno século XXI” ou “tempos modernos”. Modernos os tempos são, mas a nossa estrutura social é bem antiga, concreta e redundante.


O Islam na luta antiracista e anti práticas escravocratas


O Ocidente liderou as práticas escravocratas de pretos africanos com o tráfico transatlântico, contudo, isso chegou até o Oriente de forma similar. A escravidão era uma prática existente antes e durante o contexto geográfico e temporal da fundação do Islam – completamente proibida pela religião –, entretanto, o Profeta Muhammad (que a paz de Allah esteja sobre Ele) e os companheiros criaram estratégias para combatê-lo constantemente em seus meios de influência, indo sempre além na busca pela libertação dos escravizados, não só libertando inúmeros deles, mas também desposando mulheres escravizadas. Além disso, diferente do que aconteceu com a teórica “abolição da escravatura” no Ocidente – em que os recém “libertos” eram deixados à própria sorte em situações precárias e marginalizados mais uma vez como consequência –, o Profeta Muhammad e seus companheiros preservavam o zelo e respeito reais por indivíduos que consideravam seus irmãos na fé, garantindo a eles oportunidades iguais, o alimento e o sustento, sem qualquer preconceito pela cor de suas peles ou suas condições prévias, pelo contrário.


A maior prova disso e do conceito real de igualdade pregado e posto em prática pelo Islam desde sua fundação, ao meu ver, é a oração em congregação e o Hajj (peregrinação à Meca) – explícitos também de tantas outras formas –. Na oração, não iniciamos até que estejam todos juntos e alinhados: ombro no ombro, pé com pé, lado a lado. Não importa o status social ou econômico, o nome e a família, muito menos a cor da pele, todos devem estar posicionados em união – física e espiritualmente – para que a oração seja completa. Dentro da Mesquita, nenhum atributo de validação mundano importa, - e idealmente, fora dela também –.


Na peregrinação a Meca, a mesma coisa: com um fluxo de aproximadamente dois milhões de pessoas, tem-se pessoas do mundo inteiro, das mais diversas nacionalidades e culturas, de cores diversas, idiomas diferentes... cada um com sua própria história e circunstâncias. Porém, todos se vestem com uma peça de tecido sem costura, da forma mais simples que uma pessoa poderia se vestir, em humildade. Todos unidos pela fé em um mesmo propósito: completar um dos pilares da fé e adorar a Deus, realizando a oração em congregação várias vezes ao dia nas mesmas condições mencionadas: bem juntinhos. No Hajj vemos pessoas emocionadas, felizes, sorridentes, simpáticas e prestativas, mesmo que se comunicando em idiomas diferentes. Pessoas pretas, brancas, amarelas... Vemos pessoas em sua forma mais simples, humilde e humana possível: na posição de iguais, como somos realmente. É sobre essa estrutura que o Islam fundou sua comunidade e é nosso papel manter isso em dia, lutando para que prevaleça dessa forma em todas as questões na sociedade.


Ícones da negritude na construção do Islam


São inúmeros os exemplos de grandes muçulmanas e muçulmanos pretos com papéis essencialmente únicos e fundamentais para a solidificação da primeira e mias importante comunidade muçulmana. Citaremos aqui apenas alguns exemplos.


Sawda bint Zamʿa

Viúva e mais tarde esposa do Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja sobre ele). Aceitou o islamismo em uma época em que isso poderia significar tortura e até morte nas mãos dos coraixitas. Sawda, que era uma mulher alegre, carismática, extremamente generosa e caritativa, também era reconhecida por sua coragem, e não permitiu que o medo a impedisse de afirmar a verdade. Esteve também entre as primeiras pessoas a migrarem pela causa de Deus, deixando sua casa e tudo o que possuía para atravessar o deserto e o oceano em direção a uma terra distante conhecida apenas por seu nome – a Abissínia – para praticar sua fé em segurança.


Sumayyah bint Khayyat

Sumayyah foi uma mulher ilustre. Foi escravizada e mais tarde permaneceu sob os cuidados de Abu Hudhayfa, que a libertou junto a seu filho Ammar alguns anos depois. Sumayyah, mulher de muitas virtudes, também foi uma das primeiras pessoas a afirmarem sua fé publicamente, sendo de grande importância para a reversão de seu filho e seu esposo ao Islam. Por sua coragem, foi com sua família e a pequena comunidade muçulmana um dos primeiros alvos de perseguição ativa, assim como aqueles que não possuíam proteção tribal. Por essa vulnerabilidade após a morte de seu “patrono”, foram torturados para pressioná-los a abandonar sua fé e em uma ocasião, Sumayyah foi colocada de pé dentro de um reservatório de água para que ela não pudesse escapar. Ela, seu esposo Yasir e Ammar também foram forçados a ficar expostos ao sol no calor do dia vestidos com casacos de malha. Todos os três foram amarrados e espancados. Após sofrer uma série de agressões verbais, Sumayyah foi esfaqueada por Abu Jahl, um líder de Meca, quando se recusou a retratar sua fé. Isso fez dela a primeira mártir do Islam – e apesar de triste e revoltante a situação, sabemos que a recompensa pelo martírio é honrável, imensurável e desejada –. O Profeta Muhammad se preocupava muito com a perseguição aos muçulmanos, especialmente a família de Sumayyah, e tentava confortá-los dizendo "Paciência, família de Yasir, pois vocês estão destinados ao Paraíso". (Sahih al-Tirmidhi).


Embora Sumayyah não tenha vivido o suficiente para ver a comunidade muçulmana crescer, ela, assim como Sawda, é lembrada por sua força, coragem e fé em um período em que os muçulmanos foram fortemente perseguidos. Além de tudo, seu compromisso ativo com a fé serve como inspiração para mulheres muçulmanas que hoje em dia possuem dificuldades e repressão quanto à suas escolhas de pratica da fé. Sumayyah escolheu ser muçulmana e se opôs aos mecanos, mesmo arriscando sua vida, e tinha uma força que inspiraria homens e mulheres muçulmanos mais tarde enquanto lutavam para estabelecer uma comunidade muçulmana. Sumayyah foi e ainda é um exemplo de heroína, sendo conhecida, amada e respeitada pelos muçulmanos geração após geração.


Bilal Ibn Rabbah

Impossível não ter um espaço para Bilal em nossos corações, não é? Um dos companheiros do Profeta (que a paz de Deus esteja sobre ambos) mais conhecidos e respeitados – inclusive durante o seu tempo –. Foi um escravo de origem abissínia, ouviu falar da mensagem do Profeta e rapidamente aceitou o Islam, se tornando extremamente querido pelo Profeta e os outros companheiros. Embora o fato de ser um ex-escravo não ser tarefa fácil em uma sociedade extremamente sensível às alianças tribais e profundamente orgulhosa de sua identidade étnica – onde um sistema de classes baseado na hierarquia da identidade tribal estava profundamente incorporado –, a Comunidade muçulmana sempre foi exemplar no que diz respeito ao senso de igualdade e irmandade entre os companheiros.


Uma manhã, quando o Profeta e os companheiros se reuniram para a oração do amanhecer, o Profeta comentou com Bilal: “Ontem à noite, ouvi seus passos na minha frente no céu.” Essa elevação pública de um “ex-escravo” preto a um status que até os profetas considerariam invejável contribuiu grandemente para concentrar a atenção dos muçulmanos em ações, ao invés de noções socialmente construídas – e corrompidas – de nobreza e prestígio. Ações sempre importaram mais que a identidade herdada e o profeta Muhammad reiterou isso em seu último sermão:

E entre os Seus sinais está a criação dos céus e da terra e a diversidade de suas línguas e cores. Por certo, isso é realmente um sinal para aqueles que tem consciência.

(Alcorão, 30:22)


Além de tudo, grande parte dos Profetas e Mensageiros escolhidos por Deus para orientar a humanidade e transmitir Sua mensagem foram pretos, entre eles os mais importantes dos Profetas, possivelmente incluindo Adão – o primeiro ser humano a ser criado, de quem todos somos descendentes, cujo nome inclusive denota “negro” como um dos seus significados – Salomão – que foi agraciado com coisas que ninguém jamais terá –, Moisés – o único ser humano a quem Deus conversou diretamente e o Profeta mencionado por Ele no Alcorão mais que qualquer outro ser humano na história – e Jesus – sobre o qual o Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja sobre ele) disse em uma narração “eu estava dormindo frente à Caaba quando vi o homem de pele escura mais bonito que já vi –. Sim, esses homens possivelmente eram pretos, já pensaram na importância dessa posição? A cor da pele nunca foi um problema aos olhos de Deus, por que então tem sido aos nossos?

Ó povo, vosso Senhor é Único e vosso pai, Adão, é um. Não há nenhuma vantagem de um árabe sobre um estrangeiro, nem um estrangeiro sobre um árabe, nem da pele branca sobre a pele negra, nem da pele negra sobre a pele branca, exceto pela virtude de ações. Acaso não vos entreguei a mensagem?

- Profeta Muhammad em seu último sermão de despedida (que a paz esteja com ele).


Desconstrução do racismo estrutural dentro e fora da Comunidade


Enquanto somos todos humanos e biologicamente iguais, a verdade é que somos diferentes e essa diversidade deve ser exaltada. O que se busca com o movimento antirracista não é a exaltação de uma cor sobre a outra e sim a igualdade de direitos e oportunidades entre ambas, ofuscadas com tanta força pela supremacia branca predominante na sociedade. A negritude possui suas particularidades, sua influência cultural – que inclusive sofre com frequência apropriações inadequadamente, sem a representatividade real adequada – e essa diversidade é de grande valor histórico e social.


É necessária uma conscientização global de que ao afirmarmos que vidas negras importam, não desvalorizamos outras vidas, e sim lutamos pela valorização de um povo que vem sendo alvo de um genocídio desde quando nos entendemos por gente, de um povo que sofre injustiças frequentes rotineiramente pela cor sua pele. Afirmar que a sociedade não vê raça porque todos somos humanos é um grande – e honestamente, ignorante – equívoco, porque a opressão sistêmica do povo preto é real, antiga e vasta. Crer que não se vê raça significa não enxergar tal opressão, marginalização e discriminação enfrentadas por pretos todos os dias. Reconhecer o sofrimento de pessoas pretas e lutar para que o medo, angústia, tragédias e luto que as açoitam dia após dia sejam suprimidos até sua abolição é responsabilidade de cada um de nós como seres humanos.


Essa luta não se restringe a um posicionamento, à simples declaração de que não somos e nem compactuamos com racistas ou ideais de supremacia branca, muito menos a um mero post de #BlackLivesMatter, apesar de úteis, válidos e necessários. Acontece que isso é o mínimo no que diz respeito à eliminação desse problema, e esse, minhas(meus) caras(os), é um baita problemão, que demanda estratégia e um exercício cotidiano profundo de desconstrução de ideologias racistas, grande parte das vezes camufladas por trás de “boas” ou inocentes intenções. Devemos enxergar o racismo e entender os meios pelos quais se manifesta para que possamos combate-lo. Enquanto nos desfizermos de nossa responsabilidade para com isso, o problema será recorrente e cada um de nós carregará consigo uma parcela de culpa.


O movimento não se inciou aqui, nem termina por aqui


Os últimos acontecimentos têm gerado grande repercussão, mas quantos outros passam diariamente despercebidos – ou melhor, negligenciados? – Em algumas semanas, essa onda de revolta e demanda por justiça diminuirá até que a causa caia em esquecimento mais uma vez, e não é isso que queremos. Nossa busca é por meios efetivos de tratar a situação com resultados permanentes, então mais do que fazer disso um momento emocionante e de reflexão, é necessário pensar racionalmente sobre uma saída e materializar isso com atitudes, coletivamente e globalmente. Cada um de nós possui seu papel e faz sim a diferença. É de indivíduos que se molda uma sociedade.


Devemos nos doar à missão conjunta de erradicar vigorosamente o racismo estruturado em nossos próprios meios, tomando a nós mesmos como meio de partida. O racismo está enraizado na sociedade racializada e gerado pelo privilégio e apatia muitas vezes se faz presente em nosso subconsciente, passando de forma não detectada por aqueles que o praticam – porém, impactante e clara àqueles que são por ele afetados –. Como detectar esses traços em nós e nossos círculos? Primeiramente, nos informando sobre o assunto, ouvindo pessoas negras, validando suas experiências e dando o lugar de fala a elas. Em seguida, com um exercício constante de autoanálise e nos atentando quanto ao uso de termos e expressões inapropriados e depreciativos de origem racista. Contudo, devemos ir além, não basta seguirmos uma narrativa antirracista, é necessário impulsionar e ampliar isso a um raio muito maior e tirar isso da teoria para a prática.


Nos questionemos. Como muçulmanos, qual a nossa postura quanto a isso? Seguimos o exemplo do Profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja sobre ele)? Tomamos a diversidade das criações divinas como Sinais e as respeitamos como Ele exige que o façamos? No dia-a-dia, Consumimos conteúdo preto ou nos restringimos ao padrão da branquitude ideal? No âmbito profissional empregamos pretos – especialmente mulheres – ou favorecemos candidatos de pele clara como único critério de seleção? Casamos nossas(os) negras(os) com nossas(os) filha(os) ou rejeitamos quando recebemos uma proposta desse tipo com desculpas esfarrapadas? Quem somos nós no jogo do racismo? Vale a reflexão.


Não fiquemos apenas no discurso, nem nos façamos reféns da hipocrisia. Que sigamos o exemplo que nos foi passado e a ordem que o Criador nos dá quanto à equidade, a justiça, a humildade. Que façamos a nossa parte e cumpramos nosso papel em meio a isso. Que a população negra – dentro e fora da nossa comunidade – possa encontrar em nós um refúgio, aliados ativos nessa luta em busca de uma sociedade igualitária e justa para todos, especialmente àqueles que nunca foram dados a chance de provar desse privilégio. O sofrimento do povo preto após séculos de escravidão manifesta e oculta é inegável, mas não há dúvidas quanto à recompensa desse povo no dia do juízo, onde certamente ouviremos seus passos caminhando ao Paraíso, inshaAllah.

Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.

Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.

Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah

 

Por Manie El Khal, 8 de Junho para o blog Hijab • Se

O racismo consiste na crença de que determinada raça é superior ou inferior a outra, tal como a ideia de que os traços sociais e morais de uma pessoa são predeterminados por suas características biológicas inatas, além da convicção de que diferentes raças devem permanecer segregadas e separadas umas das outras. Esclarecemos já de cara: tais atitudes baseadas em ideais de arrogância e supremacia ou detrimento racial são abertamente, largamente e ativamente condenadas pelo Islam, em qualquer uma de suas faces.


Essa problemática tem levado brutalmente diversas vidas com frieza, tornando as vidas poupadas em um cenário aterrorizante desde o nascimento, em diversas sociedades. Pessoas pretas estão exaustas de perder os seus para esse sistema corrupto e todos nós estamos cansados de assistir isso acontecer de novo e de novo, todos os dias, incessantemente. Como no caso George Floyd e mais alguns milhares por ano no Brasil e no mundo, recorrentes por centenas de anos, a cor da pele é o motivo e a causa da violência e do ceifar de vidas e isso tem gerado uma onda de protestos e repercussões significativas no mundo inteiro.

Estamos falando do racismo mais potente e desenvolvido, o racismo estrutural, sempre direcionado aos pretos e que transpassa todas as relações sociais estando relacionado desde o subconsciente até a materialidade palpável e tangível – quando vemos pessoas pretas morrendo sufocadas ou baleadas pelo sistema ou por civis que enxergam nelas perigo e violência baseando-se de maneira ignorante na cor de suas peles para essa ação –. De onde vem esses preceitos tão sombrios? Como se sustenta essa injustiça em pleno século XXI, após tantas tentativas de erradicá-la? Vamos entender um pouquinho de tudo isso.


Panorama geral sobre a história do racismo

Historicamente o mundo tenta lidar com o racismo há muito tempo, desde a escravidão nas plantations plantações de algodão, principal atividade escravagista dos EUA, e do café e da cana no Brasil , até Malcolm X e Luther King na luta pelos direitos civis, assim como os não menos importantes Luiz Gama – abolicionista filho de Luiza Mahin, escravizada e participante das revoltas na Bahia – e André Rebouças, intelectuais pretos livres que lutaram pela abolição do modo de produção escravo no Brasil. Até os dias de hoje, pretos e não pretos antirracistas pelo mundo tentam desconstruir essa estrutura e construir uma sociedade igualitária e livre para todos.


Nesse paralelo entre os EUA x e o Brasil o racismo se estruturou de maneiras diferentes, porém com um fator em comum: a escravidão dos africanos. No Brasil, sabemos que essa foi a primeira e principal fonte de riquezas da coroa portuguesa e sua colonização e que também fomos o último país a abolir a escravidão, em 1888 – o que mostra nitidamente o tamanho do nosso problema –. A questão racial no Brasil começa antes da abolição e ganha a forma que conhecemos logo no início da liberdade dos pretos. No final da escravidão os pretos foram lançados à sorte pelos seus patrões, que a essa altura já estavam contratando mão de obra vinda da Europa, migração claramente incentivada para que esses imigrantes tomassem os postos de trabalhos no Brasil, já que para esses patrões, era vergonhoso e inaceitável pagar pelo trabalho dos antes escravizados, tidos como “coisa” e propriedade.


Soma-se a esse período histórico o início da era industrial e dos ideais da Revolução Francesa de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” que não compactuava com a escravidão, já que para esse modelo econômico é indispensável a mão de obra assalariada e livre para troca (salário x mão de obra) com os donos de fábricas e outros trabalhos. O resultado disso é a migração de pretos para os morros, o que dará início às primeiras favelas do Brasil, principalmente no Rio de Janeiro com os cortiços e São Paulo. Sem emprego, moradia, oportunidades e comida e após tantos anos de escravidão, o preconceito racial se fez pulsante, o que dificulta até os dias de hoje a sobrevivência dessa população. Para se ter uma ideia, 132 anos mais tarde ainda combatemos isso, quem dirá nos primeiros anos após a abolição da condição de 'escravos' desses indivíduos. Por essas condições, muitos acabaram por cair na clandestinidade, na prática de pequenos delitos e no trabalho informal que por muitas vezes era criminalizado , não diferente nos dias de hoje.


O racismo na atualidade

Não é possível contar a história do Brasil sem relacioná-la às suas raízes racistas e é notável que esses temas caminham juntos até a atualidade. O maior reflexo de toda a história da escravidão até hoje é o cárcere e o genocídio que a população sofre cotidianamente. Não diferente dos dias em que a Ku-Klux-Klan americana aterrorizava bairros pretos, assassinando, espancando e até mesmo explodindo bombas em comunidades pretas. O medo ainda é parte do cotidiano dos pretos no Brasil e no mundo. O temor é pela morte nas mãos da polícia – o que ocorre ilegitimamente e muitas vezes dentro de suas próprias casas, sem qualquer motivo – e também pelo cárcere – dado injustamente com frequência, o que ocorre de maneira tendenciosa, já que por inúmeras vezes o estigma do “preto bandido” os joga nas cadeias aos montes, com ou sem culpa ou julgamento.


Fato é, a cor da pele os condena antes mesmo que venham a cometer um crime – isso, quando cometem –. Temos os mais variados exemplos de pretos que vão presos sem qualquer prova que os incrimine, pelo contrário, muitas vezes mesmo diante todas as possíveis comprovações de sua inocência. Por outro lado, dados oficiais revelam que brancos lideram os rankings de homicídio e crimes no geral, porém, os vemos sendo absolvidos ilesos e com tratamento especial na maior parte das vezes. Conseguem notar como o racismo que opera no subconsciente afeta fisicamente a vida dos pretos do Brasil na atualidade? Como toda a escravidão e seu fim desorganizado e despreocupado com as vidas pretas afetam essa população até os dias atuais? Como o sistema se move em função de favorecer os brancos e a manter a figura do negro sempre associada ao banditismo, violência, miséria em todos os seus aspectos, como trapaça e preguiça, entre tantos outros estereótipos negativos fruto dessa marginalização e da moldagem da sociedade dentro dessa visão.


Estes são apenas alguns dos reflexos palpáveis. Indo além podemos identificar o racismo em tudo, pois por tratar-se de um problema estrutural, o mesmo abraça a sociabilidade de forma tóxica, contaminando todas as nossas relações. Pretas(os) não tem a mesma chance no mercado de trabalho e percebemos isso ao observar: quantos gerentes, médicos, advogados, juízes, professores e estudantes de boas instituições conhecemos? Quantos cargos altos permitimos que sejam ocupados por pessoas pretas? Isso não se dá pela tão falada meritocracia e sim pela escassez de oportunidades voltadas a esse público, tal como a seleção injusta. Por outro lado, ao colocarmos na balança o número de pretos encarcerados, assassinados brutalmente, crescidos em realidades duras como órfãos, sem estudo e com a necessidade de se submeterem ao trabalho infantil em troca de alimento básico, a conta simplesmente não fecha. É por trás dessa e de outras questões óbvias que se esconde o racismo, simultaneamente escancarando sua face aos olhos que não querem ver.


Igualdade e Justiça Social no Islam

E entre os Seus sinais está a criação dos céus e da terra e a diversidade de suas línguas e cores. Por certo, isso é realmente um sinal para aqueles que tem consciência.

(Alcorão, 30:22)


Percebemos que nenhuma palavra equivalente a “raça” é usada nesta ou em qualquer outra passagem do Alcorão. O Islam, no entanto, reconhece a diversidade e as define como verdadeiros Sinais de Deus a nós. Assim, Ele estabelece o objetivo dessas distinções à diferenciação e ao conhecimento mútuo, onde a união delas gera apreciação por ambas e o enriquecimento e desenvolvimento cultural consequente de suas combinações.


Mais uma vez podemos nos orgulhar da postura do Islam frente a algo tão importante. Desde o início de sua fundação, o Islam vem batendo na tecla da igualdade, do bem comum, da garantia de direitos a todos e da justiça social. Essa igualdade inclui o aspecto racial e isso é dado de forma clara diretamente na fala de Deus – no Alcorão Sagrado –, no discurso e postura do profeta Muhammad – que a paz de Deus esteja sobre ele –, assim como na prática e exemplo dessa vivência durante sua vida e de seus companheiros. Se existe algum momento na história em que conseguimos nos alegrar com o fato de que o racismo foi transcendido e esse legado foi duradouro, certamente esse momento se deu durante – e através – da vida do Profeta (que a paz de Deus esteja sobre ele), com a prática coerente de seu discurso antirracista e sua luta efetiva pela libertação dos pretos escravizados em seus meios.


Ó povo, vosso Senhor é Único e vosso pai, Adão, é um. Não há nenhuma vantagem de um árabe sobre um estrangeiro, nem um estrangeiro sobre um árabe, nem da pele branca sobre a pele negra, nem da pele negra sobre a pele branca, exceto pela virtude de ações. Acaso não vos entreguei a mensagem?

- Profeta Muhammad em seu último sermão de despedida (que a paz esteja com ele).


Essa postura firmemente antirracista e igualitária – entre tantas outras coisas – trouxe legiões de pessoas pretas ao Islam, inclusive de inocentes encarcerados ou pessoas marginalizadas em reabilitação. Um exemplo ilustre foi do próprio Malcolm X, martirizado na causa e que exerce até hoje uma função essencial na luta pela igualdade racial. Hoje, existem mais de 250 milhões de muçulmanos africanos e uma porcentagem significativa de muçulmanos americanos é de afro-americanos.


No Brasil, o Islam foi trazido através dos pretos escravizados da África, os Malês, que inclusive ficaram muito bem conhecidos por sua devoção à fé – apesar da repressão – e resistência à imposição cultural eurocêntrica, através das quais se rebelaram contra o sistema que os oprimia buscando liberdade – acontecimento conhecido como a revolta dos malês –. Não por coincidência relacionamos muçulmanos e a luta por justiça e liberdade com muita facilidade em nossa história, porque isso foi – e tem sido – aplicado na prática em diversos contextos.


Há quem diga que o Islam não se misture a política e não se posicione quanto aquilo que não o afeta ou inclui diretamente. Estão grandemente enganados. O Islam tem suas posições claras quanto a toda e qualquer coisa, seja ela histórica, social, econômica, científica e inclusive política. É necessário desenvolver um senso de responsabilidade universal, tais como uma profunda preocupação por todos, independentemente de credo, cor, gênero ou nacionalidade. Aprendemos que um princípio islâmico é essa ideia de responsabilidade universal, onde o bem coletivo é o que deve prevalecer, o que se resume no simples fato de que, em termos gerais, o bem estar dos outros deve ser igual ao nosso. Isso contradiz qualquer ideia de que um muçulmano deve ser omisso e se abster de se levantar por essas causas. Inclusive, Deus nos alerta sobre a gravidade do silêncio em situações de injustiça. Além do que, a partir disso entendemos que “todas as vidas importam” é um fato, mas elas não importam até que as vidas pretas sejam igualmente valorizadas e importantes.


Ó vós que credes, permanecei permanentemente firmes na justiça, testemunhas a Deus, ainda que contra si mesmos ou contra pais e parentes. Se alguém é rico ou pobre, Deus é mais digno de ambos. Portanto, não sigais a inclinação [pessoal], para que não sejais injustos. E se distorceres [seu testemunho] ou se recusardes [a prestá-lo], então, de fato, Deus está sempre Ciente do que fazem.”

- Alcorão Sagrado (5:32)


Isso diz tudo, não é mesmo? Eu nem precisaria dizer mais nada.

Contudo, apesar de obviamente – e infelizmente – ser possível que existam exemplos e situações em que o tribalismo e o nacionalismo tenham resultado em um comportamento não-islâmico entre os muçulmanos, fato é que o Islam por si só e os muçulmanos como um todo jamais acataram ou adotaram ideologias baseadas em cor ou raça. Os ideais islâmicos seguem mais uma vez desafiando ideologias racistas, nos orientando a seguir o belo exemplo do Profeta, que a paz de Deus esteja sobre ele. Devemos então, reconhecer o male em nossa sociedade e tratá-lo como o Profeta o fez: com consistência, união e estratégia, reconhecendo também nosso papel fundamental em meio a isso, abraçando essa luta pela liberdade e valorização das vidas pretas como ela é: uma luta de todos nós.

Manie El Khal é ‬Designer de Interiores, estudante de Arquitetura & Urbanismo e colunista da Hijab • Se. Mineira e descendente de marroquinos, ‬atua como professora, palestrante, orientadora para mulheres muçulmanas e não-muçulmanas na comunidade de Minas e trabalha como voluntária para a IERA em Belo Horizonte.

Amante da fé e da arte, mescla-as para traduzir sua essência.

Conheça mais sobre sua história através do Instagram: @maghrebiyah

 

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